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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte

“Mas tens um problema, Faulques. Um problema sério. Nenhuma fotografia pode consegui-lo. Eu sou mais prática e limito-me a coleccionar elos quebrados: essas ruínas com antecedentes clássicos, achados dos imbecis literatos românticos e revisitadas por artistas ainda mais imbecis. Mas não é o aroma do passado o que procuro. Não desejo aprender, nem recordar, mas largar amarras. Dito na tua gíria psicopata, esses lugares desertos, mecanismos e objectos quebrados são as fórmulas matemáticas que indicam o caminho.”

Eis-me de volta ao maldito espanhol. Desta feita para falar d’O Pintor de Batalhas, do qual já transcrevi um excerto por estas paragens. Antes de se falar deste livro há que referir que Pérez-Reverte foi durante muitos anos repórter de guerra. Ora, a personagem central do livro é um repórter de guerra (fotógrafo) na reforma. É, portanto, impossível dissociar a ficção da própria experiência pessoal do autor.
A história centra-se na personagem de Faulques, um fotógrafo na reforma que habita num farol na Costa Espanhola, e passa os tempos a pintar um mural, que representa uma batalha medieval, no interior do farol. A pacatez e solidão de Faulques são interrompidas pela chegada de Ivo Markovic, uma espécie de “fantasma do passado” que vai levar “o pintor de batalhas” a um exercício de memória, recordando boa parte da sua vida, das suas fotografias, e dos cenários de guerra por onde passou. E é nesse “recordar é viver” que surge a fortíssima personagem de Olvido Ferrara, colega fotógrafa com quem Faulques viveu uma intensa paixão. E este é o ponto alto do livro, pois a relação entre as duas personagens é quase mágica. Daquelas relações que só podem existir na literatura ou no cinema, entre duas personagens tão magnéticas que é difícil não as ver com o espelho uma da outra. Não sei até que ponto é que esta relação é mera ficção, e não fruto de algo vivido pelo próprio escritor há muitos anos, pois a força que caracteriza as personagens é impressionante. É um escritor magnífico, sem dúvida, mas custa-me a crer que escreva sobre uma paixão com tanta vivacidade sem se ter vivido (e morrido) algo semelhante.
Depois disso, Pérez-Reverte faz aquilo que faz melhor: avassala o leitor com pormenores ricos do tema que aborda no livro em questão. Neste caso é a fotografia e a pintura. São longos os parágrafos a descrever a forma como o pintor prepara as tintas, os materiais que usa, os pintores em quem se inspirou. Igualmente longos são os parágrafos a descrever a máquina com que tirou “aquela fotografia”, e toda a parafernália técnica que envolve um simples disparo.
Algo que salta à vista é a profunda revolta da personagem (do autor) com a idade. Alguém que está na meia-idade e já não gosta de si, do seu corpo, do seu quotidiano, e recorda com tremenda nostalgia os tempos da juventude. Este é um livro, também, sobre o não gostar de envelhecer, embrulhado em fortes doses de uma filosofia melancólica que emerge dos diálogos que Faulques e Markovic mantêm durante o seu encontro.
E não há muito mais a dizer sobre o livro. É um livro pequeno, e não é dos melhores de Pérez-Reverte. Não deixa de ser uma boa leitura, mas está bastante longe de uma Tábua de Flandres ou de um Cemitério dos Barcos Sem Nome. Mas, como sempre, o maldito espanhol não falha ao servir-nos uma galeria de personagens cativantes, cheias de vida e experiências que merecem ser partilhadas.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

«de tudo o que fui e de tudo o que me espera»

Dissera-o, rindo-se atrás do vidro de um copo de vinho, em Veneza, na última noite de fim de ano em que estiveram juntos. Ela tinha insistido em regressar ali, onde passara vários fins de ano da sua infância, para ver a exposição dos surrealistas no palácio Grassi. Quero que me leves ao melhor hotel dessa cidade fantasma, pediu, e que deambules comigo de noite pelas suas ruas desertas, porque só nesses dias é possível vê-las assim: está tanto frio que os turistas de pé descalço morrem congelados nos bancos, toda a gente se refugia em hotéis e pensões, nas ruas só há gôndolas baloiçando silenciosamente nos canais, a rua dos Assassinos parece mais estreita e sombria do que nunca e as quatro figuras talhadas em pedra da Piazzetta aproximam-se mais umas das outras como se tivessem um segredo que quem as contempla desconhece. Quando era uma jovenzinha, fugia para passear com cachecol e gorro de lã, ouvindo o eco dos meus passos, enquanto os gatos me olhavam dos portais escuros. Há muito tempo que não vou a essa cidade e agora desejo fazê-lo de novo. Contigo, Faulques. Quero que me ajudes a procurar a sombra dessa menina, e depois, de volta ao hotel, ma cosas de novo aos calcanhares com agulha e linha, silencioso, paciente, enquanto fazes amor comigo com a janela aberta e o frio da lagoa eriçando-te as costas, com as minhas unhas cravadas nelas, até sangrares e eu me esquecer de ti, de Veneza, de tudo o que fui e de tudo o que me espera.

Há uma pessoa que escreve assim.

(odeio este Espanhol…)


terça-feira, 3 de setembro de 2013

“Um Dia de Cólera”, de Arturo Pérez-Reverte


- Fogo! – ordena Daoiz, e todos se afastam.
É Goméz Mosquera quem aplica o bota-fogo fumegante. Com uma sacudidela violenta de retrocesso, o canhão envia a sua descarga de pedras de fuzil transformadas em metralha aos franceses agrupados a cinquenta passos. Aliviado, Daoiz vê como o grupo inimigo se desfaz: alguns soldados caem e outros correm, libertando aquele local da rua. Da cerca e varandas próximas, os atiradores aplaudem os artilheiros. Ramona García Sanchéz, depois de limpar o nariz com as costas da mão, lança, com muito garbo, um piropo ao capitão.
- Vivam os senhores oficiais bonitos, mesmo que sejam baixinhos. E viva a mãe que os pariu.

Eu odeio Espanhóis. E odeio particularmente um Espanhol: Arturo Pérez-Reverte. A razão é simples: nasceu no lado errado da fronteira. Tivesse nascido em Portugal e seria o melhor escritor do mundo. Assim, é apenas um Espanhol... que figura entre os meus 3 escritores de eleição. Ah, mas como odeio este gajo! Ao ponto de já ter lido 4 livros dele (antes deste), “A Tábua de Flandres”, “O Cemitério dos Barcos Sem Nome”, “O Clube Dumas”, “O Mestre de Esgrima”, e colocar os dois primeiros na minha lista de 50 livros imprescindíveis.
Falemos então deste quinto livro na minha contabilidade pessoal. Um Dia de Cólera é o livro mais difícil de abordar de Pérez-Reverte. Não se trata de ficção, não se trata de romance, não se trata de um documentário. Trata-se de literatura ao mais alto nível, o que é habitual em Pérez-Reverte. Temos que começar pela disciplina mais fascinante de todas: a História.
Nem que seja vagamente, toda a gente tem noção das campanhas de Napoleão e do seu exército Francês no início do século XIX. A acção do livro decorre em Madrid, uma das várias cidades Europeias ocupadas pelos Franceses, e cujo autoritarismo tem vindo a fazer crescer o sentimento de revolta entre a população. No dia 2 de Maio de 1808 “a tampa saltou”, e os Madrilenos revoltaram-se contra os invasores.
O livro não é um mero ensaio de ficção histórica. Não acompanha o dia-a-dia de uma ou outra personagem. Em vez disso, Pérez-Reverte fez um trabalho colossal para conseguir ficcionar todos os relatos históricos que dão conta do sucedido nesse dia de cólera. (Esta é a parte antipática do livro. Onde é que já se viu uma obra onde os Espanhóis são os bons da fita??!?) É difícil acompanhar o livro, pois ele alterna entre o relato pessoal de algumas personagens-chave, e o relato histórico do que aconteceu com centenas de intervenientes. E são mesmo centenas, e o escritor faz questão de os referir a todos pelo nome, profissão, origem, e sempre que possível relatar como morreram, ou como viveram. É um trabalho histórico notável. Uma homenagem extraordinária aos homens e mulheres do povo que se sublevaram contra os agressores. E esta história trata mesmo de homens e mulheres do povo, pois foram eles – como quase sempre acontece – que ousaram dizer não! Os nobres, ricos, e mesmo as cúpulas da Igreja, sempre conviveram bem com invasores ao longo da História, desde que nada lhes faltasse. O que interessa o sofrimento dos indigentes?
É curioso ver o quão meticuloso Pérez-Reverte é, em particular, com as mulheres que participaram na rebelião. E se são muitas! Esta não é uma história de soldados de dois exércitos aos tiros entre si. Antes, é a história dos sapateiros, serralheiros, carpinteiros e comerciantes que se lançaram em nome da pátria contra o Golias que os espezinhava, e das mulheres que arriscaram – e perderam! – as vidas ao lado dos seus maridos, disparando contra os Franceses, curando dos feridos, ou simplesmente ajudando a esconder os refugiados. É um relato frenético que dura 24 horas, no meio de tiros de fuzis, cartuchos mordidos, baionetas ensanguentadas, e salvas de canhão. Poucos filmes conseguem dar uma sensação tão real do que terá acontecido neste fatídico dia. Pérez-Reverte é genial.
No centro da narrativa estão os dois capitães “rebeldes”, Pedro Velarde e Luís Daoiz. Não comandaram exércitos, não tiveram reforços, não prepararam uma ofensiva. Limitaram-se a estar do lado certo da História: o lado de quem luta pelo que é seu. (Esperem lá… eu estou mesmo a falar de Espanhóis?!?! Que se passa comigo?) Ao lado de Velarde e Daoiz estão centenas de populares desorientados, revoltados, alguns que trazem as suas próprias armas, e que querem correr com os gabachos. É o caso do serralheiro Blas Molina, figura que ficará para a História, ao lado de incontáveis anónimos que o Tempo se encarregou de esquecer.
A vividez da escrita é avassaladora. Pérez-Reverte É avassalador a escrever. Percorremos as ruas de Madrid, os seus jardins, a Puerta del Sol, e estamos na ombreira de cada porta a ver as movimentações de ambos os lados. Vemos as mulheres à varanda, que atiram vasos à cabeça dos Franceses quando estes passam. Vemos a freira na janela do convento a incitar à rebelião. Vimos os rapazes de 12 anos a morrerem com uma salva de metralha. E vimos o sangue coagulado que ensopa as ruas da capital. Não é um livro fácil de ler, mas é um guião magistral para um documentário.
Um pormenor: o livro vem acompanhado de um mapa de Madrid da altura. Portanto, torna a experiência de acompanhar o que se passa ao longo da cidade ainda mais envolvente.
Os dois capítulos finais são um murro no estômago, à medida que vemos os insurrectos a tombar, e as tropas de Napoleão a reassumir o controlo das ruas. Lamento pelo “spoiler”, mas… estamos a falar de factos Históricos, portanto não é propriamente o segredo mais bem guardado do mundo. Testemunhar o silenciar dos tiros, contabilizar os mortos, e acompanhar a repressão violenta dos Franceses deixa-nos deprimidos. No fim de um livro queremos sempre que os bons ganhem. Mesmo que sejam Espanhóis. E sentir a “aura negra” a baixar à medida que o livro caminha para o fim… é um desalento.
Eu quero ter um escritor assim a falar da História do meu país. Pérez-Reverte é tão grande que tem, inclusive, a sagacidade de assumir uma postura imparcial. Não é um relato a preto-e-branco de estes são os bons, e aqueles são os maus. De ambos os lados há heróis e vilões. De ambos os lados há homens de coragem, e cobardes cujo nome não merece ter entrado para a História. Este livro é a dádiva de Pérez-Reverte ao seu país. Os Espanhóis deviam beijar o chão que este homem pisa. Que tributo magnífico aos pobres chisperos e manolos que se ergueram contra os opressores.

A 2 de Maio de 1808 os referidos heróis Daoiz e Velarde adquiriram a glória que imortalizará os seus nomes e que deu tanta honra às suas famílias e a toda a nação.

Há inúmeros episódios memoráveis no livro, como o da mulher que morre com uma bala no pescoço quando leva um garrafão de vinho aos soldados. Como refere uma crítica do El País, citada na lombada: O leitor fica com a sensação de estar envolvido na confusão de fumo, pólvora e espanto que foi o 2 de Maio. Até parece prudente baixarmo-nos.
Como odeio este Espanhol…

Um Dia de Cólera, Arturo Pérez-Reverte, ASA, 2008

Página do autor: http://www.perezreverte.com/