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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A primeira vez... (falo de livros, suas badalhocas)


Ainda se lembram do primeiro livro que leram na vida?
A maioria dos auto-designados intelectuais que falam sobre a sua experiência com a literatura refere o como esta foi importante na sua infância, e como constituiu a fuga à realidade, que lhes permitiu manter a sanidade através de uma infância tortuosa, como a sua grande companhia eram os grandes clássicos da literatura, blablabla.
Eu como sou um bocadinho mais genuíno confesso que só ganhei o gosto pela leitura bem perto dos vinte anos, e o livro que me lançou neste mundo foi, nada menos do que "A Noite dos Mortos-Vivos". Exacto. Esse mesmo, que deu origem ao filme de zombies do George Romero nos anos sessenta. Hilariante, não é verdade?
Não foi, obviamente, o primeiro livro que li na vida. Essa distinção pertence a "O Cavaleiro da Dinamarca", da majestosa Sophia de Mello Breyner, e que reli há três ou quatro anos. Na altura li-o por sugestão da professora, na 2ª ou 3ª classe, nos tempos em que a Escola ainda servia para nos ensinar a ler e a escrever, algo que ao que parece nos dias de hoje deixou de fazer.
Mais tarde, no ciclo, recordo-me de ter lido apenas um livro. Chamava-se "O Império Contra-ataca". Não é de estranhar, para um miúdo que viveu obcecado pel'A Guerra das Estrelas (obrigado George Lucas por teres destruída a minha vida aos 19 anos com o Jar Jar Binks).
E até chegar à faculdade, peguei apenas n'Os Lusíadas e n'Os Maias, por obrigatoriedade curricular. Lembro-me em particular d'Os Maias, pois aquele calhamaço assustava - e bem - quem não tinha hábitos de leitura, mas que era obrigado a lê-lo pelo professor de Língua Portuguesa (esse recurso em vias de extinção). Fiquei fascinado com a escrita de Eça de Queirós. O rapaz tinha jeito para a coisa...
Fast forward e chegamos a um dia em que estou numa loja na Ericeira (onde entrei contrariado), e onde agarrei nesse mágico livro "A Noite dos Mortos Vivos" e disse que o queria levar. Eu tinha esse hábito neo-intelectual de comprar livros para decorar as estantes do meu quarto. Nunca os lia, nunca pegava neles, mas queria que mos comprassem porque as estantes não podiam ter apenas pó.
Ainda nenhum de nós descobriu os "grandes mistérios da vida e do Universo", mas de facto aquele dia e aquele livro iam mudar a minha vida. Não sei porque carga de água me deu na gana começar a lê-lo. Provavelmente foi apenas para "fazer tempo" ou algo assim. Mas durante dois ou três dias os meus olhos não se levantaram daquelas páginas. Como é que é possível haver livros escritos de tal forma que nos fazem alhear do mundo que nos rodeia, e parar durante dias seguidos apenas para comer e dormir (ok, e ir à casa-de-banho)?
Devorei o livro, e fiquei "com o bichinho". Bom, mas certamente tinha sido um caso isolado, não voltaria a acontecer. Eu não ligava patavina a livros...
Na altura estava na moda falar de outro livro "mais ou menos conhecido". Dava pelo nome de "O Senhor dos Anéis", de um tal de JRR Tolkien, muitos antes de se falar em fazer um filme baseado na obra. Raios! Mas não era um livro, eram três! E cada um com trezentas e tal páginas! Alguma vez eu ia gastar 15 Euros (ou, na altura, quase três mil escudos) a comprar um livro que - esse de certeza! - não iria ler até ao fim?
Foi então que tive uma ideia brilhante! Vou antes comprar "O Hobbit", que é estreitinho, mais barato, e não tem mais dois livros a seguir ao primeiro. Afinal, era só mais um para decorar a estante...
Bolas, mas então não é que o livro foi lido de fio a pavio? Toda aquela conversa sobre tabaco halfling, anões, feiticeiros, e um dragão fazia-me água na boca. Agora tinha mesmo que comprar os tais três livros desse senhor com anéis. Já estava na faculdade, e também esses foram consumidos avidamente.
É extraordinário um tipo olhar para trás e lembrar-se que, sendo hoje um leitor compulsivo de todo o género de livros, tudo começou com um livro sobre zombies, e outro sobre "pessoas pequeninas com cabelos nos pés". Talvez esta seja uma história engraçada para contar aos ditos pseudo-intelectuais que acham que as histórias de fantasia, terror e ficção científica são um desperdício de tempo.
Outra história engraçada foi o hábito que ganhei algum tempo depois de começar a escrever em post-its os livros que ia lendo ano após ano, colocando-os na estante ao lado da cama, e onde hoje consta um longo catálogo que me recorda de todas as dezenas de livros que tive o prazer de tomar como meus até agora. Quantas pessoas é que têm uma lista de todos os livros que leram na vida?
Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Tolkien, Aristóteles, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Nietzsche, R. A. Salvatore, Mark Twain, Richard Bach, Paulo Coelho, Arturo Pérez Reverte, Ildefonso Falcones, Marion Zimmer Bradley, Robert Harris, Frank Herbert, Konsalik, George R. Martin, tantos, tantos, tantos, só porque um dia me deu para fazer birra porque queria comprar um livro de zombies...