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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Interstellar


Cada vez que Christopher Nolan anuncia o lançamento do seu próximo filme o mundo parece ficar, momentaneamente, em suspenso. Não é para menos, Nolan é o génio cinematográfico que nos anos mais recentes nos fez chegar filmes memoráveis como The Dark Knight (2008) e Inception. Portanto, é normal que o mundo pare, escute, e olhe.
Eu estava de relações cortadas com Nolan desde 2012, por causa do inenarrável The Dark Knight Rises, e portanto este Interstellar apresentava-se como o filme em que ele tinha que se superar, e fazer-me esquecer aquele trágico acidente ferroviário.
Antes de começar a falar de Interstellar é necessário deixar bem claro que sempre que escrevo alguma coisa neste blogue faço-o de acordo com a minha opinião que procuro sustentar da forma mais objectiva possível, nunca me deixando seduzir pela “onda colectiva”. E é por isso que a “onda colectiva” bem pode continuar a berrar que o famigerado filme de 2012 supramencionado é o best movie ever, que eu continuarei a chamar-lhe um belo pedaço de caca wookie.
Mas, para permitir desde já desanuviar o ar, e uma vez que já sofri ameaças à minha integridade física (feitas com piratas-ninja-wizards, entre outras) para a eventualidade de dizer menos bem do filme, começo já por dizer: Interstellar é um GRANDE filme! Pronto, respirem fundo. Está dito. Mas – há sempre um “mas”, e o diabo está nos detalhes – não subscrevo de forma alguma que este seja um dos melhores filmes de todos os tempos, uma obra-prima absoluta, e mais o sem-fim de qualificações que a “onda colectiva” quer fazer passar como verdade indiscutível a todo o custo.
Todos os filmes do brilhante Nolan têm um ponto em comum: são emocionalmente fortíssimos, e fazem-nos pensar para lá das linhas de orientação. E conseguem esta proeza no meio de um espectáculo visual e tecnológico que deixa qualquer espectador embevecido. E Interstellar é precisamente isso, um colosso emocional que nos põe durante mais de duas horas e meia a pensar numa série de coisas. E é precisamente neste ponto que eu começo a divergir da “onda colectiva”. Todas as opiniões que por aí grassam dão a entender que a primeira parte do filme – aquela que se passa na Terra, maioritariamente na quinta de Cooper – é uma seca, e que o filme fica fabuloso a partir do momento em que entram no Espaço. Discordo, em grau superlativo absoluto sintético. Toda a primeira parte do filme é o que me prende a atenção. É onde está a história, a emoção, a força e a fraqueza humanas. E boa parte deve-se a uma personagem a quem a “onda colectiva” nem prestou qualquer atenção: o avô, interpretado por John Lithgow.
Nolan tem por hábito abordar nas suas obras temas muito actuais. A praga que parece ser responsável pela devastação das colheitas no planeta é uma referência subtil às alterações climáticas. Mas até nem é a mais importante. Há diálogos que passam despercebidos, e que são maravilhosos. Quando o avô refere que no seu tempo éramos “6 biliões de pessoas, todas a quererem ter direito à mais recente engenhoca que surgia todos os anos”, é uma crítica directa ao nosso consumismo acéfalo e estúpido. Não adianta olhar para o lado. Somos todos igualmente culpados. A forma como o avô “repreende” o genro, quando este parece não querer dar tanta atenção aos filhos como a que é necessária, e a fabulosa deixa “it’s a parents-teachers meeting, not grandparents”. Até mesmo o momento humorístico “I want a hotdog!”. Lithgow é marcante, e um dos actores mais subavaliados de Hollywood. Tudo junto, está menos de cinco minutos em cena, e é para mim a personagem mais memorável.
A cena com mais significado do filme é a reunião de Cooper na escola. O debate entre ensino e ciência versus estupidez é arrebatador.
Ainda na “primeira parte de seca”, temos a extraordinária relação entre pai e filha, com Mathew McConaughey e a jovem Mackenzie Foy a terem ambos prestações – essas sim! – para lá das estrelas. Raras vezes um duo pai-filha foi tão convincente no ecrã. Que lição de actuação! Que delícia… É pena que dure tão pouco tempo, porque depois disto parece não haver actores no resto do filme. Anne Hataway, Michael Caine, Jessica Chastain, e todos os restantes, parecem eclipsar-se durante duas horas. O próprio McConaughey, quando afastado dos filhos, apaga-se um pouco. Há apenas uma breve excepção, graças à personagem de Matt Damon, que embora do ponto de vista de interpretação seja “Matt Damon a fazer de Matt Damon”, em termos de dimensão e interesse da personagem é algo que abana um bocado a história.
E com isto entramos na escala épica do filme. Com a ambição desmesurada de ser uma história avassaladora que nos faz olhar para a Humanidade e para o Universo. É aqui que eu acho que o filme não cumpre a 100%, e que me fez sair da sala de cinema a dizer “foi bom, mas faltou aqui qualquer coisa”.
O duelo entre ciência e emoção é muitas vezes o que nos põe a salivar durante o filme. Mas há alturas em que fica a sensação que se entrou um modo “vamos pegar na Teoria da Relatividade de Einstein e martelar aqui qualquer coisa”. Do ponto de vista científico, ao que tudo indica o filme é bastante bem sustentado, tendo sido inclusivamente desenvolvido tendo como consultor um dos grandes Físicos teóricos da actualidade (e não estou a falar do Sheldon Cooper). E é precisamente essa razão que me faz ficar ainda mais desagradado quando, sem mais nem menos, querem aludir ao Amor como uma espécie de variável física para integrar numa equação. Juntar a Lei da Gravidade e o Amor como X+Y = Z é uma parolice tremenda. Eu até salivo por filmes fortemente emocionais, mas não é necessário entrarmos na parvoíce saloia do “e o Amor triunfará sobre tudo e todos”. Aquele momento em que uma das mais brilhantes cientistas do mundo decide ignorar todos os dados científicos de que dispõem, e justificar o injustificável apenas porque “o Amor é uma coisa linda, verdadeira, e tem que ser encarada como algo tão racional como a Força da Gravidade”… danifica o filme. Tornar subitamente uma ode à Humanidade numa espiritualidade de trazer por casa é manifestamente infeliz. É um daqueles momentos como a pirueta da mota no The Dark Knight (2008). É uma carta fora do baralho, que não estraga o filme, mas risca-lhe a pintura.
Há pelo meio algumas incongruências, como o facto de quando eles partem da Terra “o milho estar a morrer”, mas 23 anos depois continuam a ter hectares de milho a perder de vista, ou o facto de Michael Caine com 70 anos ser exactamente igual a Michael Caine com 93, com o mesmo cabelo, a mesma barba, e até a mesma roupa. Olhem que eu tenho o privilégio de conhecer algumas pessoas com mais de 90 anos, e quem lhes dera parecer o que eram aos 70.
Mas, enfim, são coisas mínimas e que não beliscam verdadeiramente o filme. Embora eu questione seriamente a necessidade omnipresente do “americanismo primário”, com a bandeirinha espetada no planeta XPTO-423. Portanto, a Humanidade está à beira da extinção, vamos enviar uma série de astronautas in extremis para outra galáxia nas missões Lazarus, essas pessoas vão provavelmente morrer abandonadas e sós num planeta alienígena, mas quando lá chegam os astronautas que se seguem, eis a bandeira americana firme e hirta a flutuar ao vento. Ainda bem que a missão do desespero final foi pensada tendo em conta as coisas absolutamente essenciais para a sobrevivência humana.
Resta-nos a parte final, quando o filme tenta entrar no modo “2001: Uma Odisseia no Espaço”, e aí é que a porca torce o rabo… Interstellar bem pode ser entendido como uma homenagem a 2001, mas está a anos-Luz de qualquer comparação possível. 2001 é um marco cinematográfico, Humano, filosófico, artístico, criativo. Interstellar é apenas um filme muito bom. Não confundamos o trigo com o joio. Qualquer discussão sobre cinema começará sempre com “Para além do 2001: Uma Odisseia no Espaço, que outros 9 filmes se incluem na lista dos 10 melhores filmes da História”? A meu ver, Interstellar não faz parte dessa lista. Visualmente é muito forte, mas não me parece superar um Gravity ou um Prometheus. Em termos narrativos é muito bom, mas não alcança um Cloud Atlas. Ao nível das interpretações, não chega sequer a um Inception. É um filme muito bom, mas a sua excepcionalidade está, curiosamente, apenas na ligação com a comunidade científica e com a capacidade de ter ajudado a ciência a representar o que poderá ser o efeito de um buraco negro (link). Tem um bom argumento, e não lhe falta o toque artístico de ter dado a conhecer ao mundo o magnífico Do not go gentle into that good night (link). Mas, no fim, falta-lhe sempre qualquer coisa para ser “aquela obra avassaladora”.
Excepto, lá está, quando se fala de Hans Zimmer. Creio já ter esgotado todas as palavras do léxico Português para qualificar o génio deste homem. Metade da grandiosidade do filme deve-se ao esmagador tema tocado no órgão de uma igreja de Londres do século XII (link). A música de Interstellar é, essa sim, uma ode ao génio humano. Já não vale a pena falar sobre Hans Zimmer. Limito-me a constatar o privilégio que é habitar este planeta no mesmo tempo que este homem. Tal como foi um privilégio para as pessoas que tomaram conhecimento das obras de Beethoven em primeira mão. Zimmer é o artista que sucessivamente se transcende a si próprio. Desde os tempos de Johann Sebastian Bach que ninguém tocava um órgão desta maneira. É arrepiante, leva-nos às lágrimas com o coração a estoirar no peito num choque convulsivo que nos asfixia. Deve ser constrangedor para os restantes compositores contemporâneos limitarem-se a apanhar as notas que Zimmer deixa cair ao chão. Já só responde perante Wagner ou Beethoven. Nada mais existe. Quando a música desperta, o filme torna-se irrelevante, um mero adereço. Zimmer é Gargantua, reduz à insignificância tudo o que o rodeia. Nem a própria Luz, a própria Física, o próprio Universo se conseguem impor ante Hans Zimmer.
A própria música é uma homenagem de Zimmer a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Ouçam o Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (que curiosamente ficou conhecida para a posterioridade como a música do 2001, Uma Odisseia no Espaço), e depois ouçam o Day One Dark. A dimensão epopeica é rigorosamente a mesma.
Julgo nada mais ter a dizer sobre Interstellar. É um grande filme, vão ver, vale bem o preço do bilhete. Tem diálogos verdadeiramente inspiradores, tem “alma própria”, tem arrojo, é a dicotomia Nolan levada ao extremo. Admito poder estar a ser excessivamente exigente com Nolan, mas faço-o precisamente por saber que é um dos poucos cineastas a quem se pode exigir para além do exigível.
Mas tenhamos noção das coisas, e não classifiquemos tudo e mais alguma coisa como “obra-prima sem precedentes”. Fazendo uma alusão directa ao filme, Interstellar correspondeu-me às expectativas em 75%. Com os restantes 25 dou por mim a pensar: daqui por dois anos é mais provável estar a ver 2001: Uma Odisseia no Espaço pela 25ª vez, do que Interstellar pela segunda.

Pelo Melhor

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Pelo Pior
Nada há de verdadeiramente mau neste filme. Há apenas aquela “carta fora do baralho” de, sem razão aparente, desligar o “modo científico” e tentar introduzir de supetão “o Amor é a força mai’ linda forever and ever”. Totalmente desprovido de sentido.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Cavaleiro das Trevas Renasce


 Sentar-me para escrever uma crítica a “O Cavaleiro das Trevas Renasce” é um exercício penoso para mim. Mas é um demónio que necessita ser esconjurado…
Sou um apaixonado por cinema desde muito novo, e os anos recentes têm-me deixado com “azia no estômago” pois o cinema está cada vez mais como a música: 99% é esterco. Christopher Nolan é um prodígio do cinema nos dias que correm. Um génio, indiscutível. O homem que fez “Memento”, “The Prestige”, “Batman Begins”, “The Dark Knight” e “Inception” é alguém que está num campeonato à parte do resto do mundo. Todos estes filmes têm lugar em qualquer lista dos 100 melhores filmes de sempre. Alguns deles até têm lugar na lista dos 10 melhores filmes da história do cinema. O toque de Nolan era ouro. E é precisamente aqui que chegamos a “O Cavaleiro das Trevas Renasce”.
Recuemos precisamente quatro anos no tempo. Quando em 2008 saí do cinema ao ver “The Dark Knight”, vinha a tremer. Não acreditava no que acabara de ver. O filme era demasiado intenso, o argumento demasiado brilhante, a realização demasiado perfeita, a banda sonora para lá de perfeita, e o desempenho de Heath Ledger como Joker marcou um novo patamar no campo da interpretação. Onde muitos viam apenas um bom filme de acção, eu via uma obra que redefinia o cinema.
“O Cavaleiro das Trevas Renasce” é o filme que vem encerrar esta trilogia, que começou com o muito bom “Batman: O Ínicio”, continuou com “O Cavaleiro das Trevas”, e agora procurava o seu final épico. Vamos então à exorcização do demónio: “O Cavaleiro das Trevas Renasce” é provavelmente a maior desilusão da história do cinema.
Nem acredito que estou mesmo a escrever isto, mas faça-o de plena consciência, e de cabeça fria, dois dias depois de ter saído do cinema. Era expectável que o filme não chegasse ao nível do antecessor, a fasquia era impossivelmente alta, mas nunca me passaria pela cabeça que eu saísse do cinema a compará-lo com os filmes do Michael Bay ou do Roland Emmerich.
Os pontos mais fortes do 2º filme eram o argumento e os diálogos. São precisamente os pontos mais fracos deste 3º filme. O argumento não parece ter sido escrito pelos irmãos Nolan, mas sim por um iniciado a quem deram 24 horas para escrever um guião. É pobre, cheio de erros (não são buracos, são crateras), do mais previsível e idiótico possível, e chega a ser constrangedor. Quase tudo neste filme falha. A história não tem ponta por onde se lhe pegue, as personagens passam duas horas e meia sem saber o que estão a fazer no ecrã (isso nota-se nos actores), e a sensação que dá é que aquilo é uma amálgama de algo que alguém se esforçou demasiado para tornar épico, mas acabou por arranjar tantos “twists” disparatados que criou um holocausto cinematográfico.
Analisar este filme vai ser uma das coisas mais controversas nos dias que correm. Boa parte das pessoas não vai ter coragem de lhe apontar as falhas, porque pouca gente nos dias que correm ousa ir contra a corrente, e muita gente vai achá-lo genial, da mesma forma que acha que a música que se faz hoje em dia é genial, e que o “Twilight” é uma obra ímpar. Sim, já estamos no ponto em que falo do “Twilight” numa análise crítica ao novo Batman.
Há duas coisas que safam este descarrilamento do alfa-pendular: Hans Zimmer, que tem o defeito de ser o maior génio musical do mundo (e que se tivesse nascido há 200 anos chamar-se-ia Beethoven), e a surpresa que é Anne Hathaway como Catwoman. Fui dos que torceram o nariz quando o nome dela foi anunciado, e sou dos que lhe tiram o chapéu pela surpresa que foi.
SPOILER ALERT
Daqui para a frente vou fazer referência a muitas das coisas que se passam no filme, e portanto quem ainda não o viu, deve pura e simplesmente baixar as expectativas e parar de ler por aqui.
A história é uma aberração. Ao ponto de ser exactamente o inverso do filme anterior. No Dark Knight o Joker passava o tempo todo a tentar provar que as pessoas eram egoístas, e que conseguia despoletar a anarquia, e no final o Batman prova-lhe que afinal existe o Bem no coração das pessoas, e que o Joker está errado. O que é que acontece neste filme? O Bane explode meia-dúzia de bombas e a anarquia irrompe por todo o lado. Chegamos ao ponto de ver os bagageiros dos hotéis de luxo a escorraçar os clientes ao pontapé… aí uns cinco minutos depois do ataque do Bane. Ataque esse que, diga-se, também é de génio. Corta todas as saídas da cidade (repetindo o que fez no filme anterior), ameaça matar quem tentar sair da cidade (repetindo o que fez no filme anterior), e lê uma carta aos jornalistas a dizer que o Comissário da polícia mentiu. Portanto, já chegámos ao nível intelectual em termos de cinema onde se acha razoável que um louco faça explodir meia-dúzia de bombas, apareça na televisão a ler um papel que ele diz ser da autoria do Comissário, e imediatamente toda a gente acredita nele e desata a lançar a anarquia pelas ruas. Hum… para começo de conversa estamos no bom caminho.
Depois temos as gralhas (“plot holes”) que se sucedem. Bane diz que dá cinco meses até que a bomba expluda, e nada se passa nesse tempo, voltando à cena apenas a meia-dúzia de horas do fim. Só há uma maneira de desactivar a bomba, e os vilões – em cinco meses – não destroem a forma de o fazer (que basicamente passa por destruir o mecanismo de acoplamento da mesma). O Bruce Wayne quando sai do carro tem um “gadget” que provoca um pulso electromagnético que desliga todos os aparelhos eléctricos, tem uma coisa que faz o mesmo na mota, mas em cinco meses ninguém é capaz de atirar com um mecanismo desses contra o camião que anda a passear a bomba. O arsenal do Batman é super secreto, só o Fox tem conhecimento da sua existência, mas no final dois técnicos da empresa informam-no que fizeram um upgrade no software da nave “há seis meses”. Um miúdo órfão diz-lhe: “Eu vi-te uma vez quando tinha cinco anos, mas olhei para os teus olhos e sabia que eras o Batman”. ??? !!! ??? A sério, isto foi escrito pelas mesmas duas pessoas que escreveram o argumento do “Inception”? Este pormenor então é de se lhe tirar o chapéu, pois toda a gente no filme sabe a identidade secreta do Batman, exceptuando quem? O Jim Gordon, precisamente o Comissário da polícia que trabalha com ele há pontapés de anos. Há também a cena de génio onde ele entra em ruptura com o Alfred. Portanto, tu és a pessoa mais próxima que eu tenho na vida, conheces-me desde que nasci, fizeste tudo por mim… mas agora acho que me estás a mentir e não quero mais ser teu amigo, por isso vai-te embora. Permitam-me novamente: ??? !!! ??? Até tenho dúvidas que o Michael Bay conseguisse algo tão estúpido (e não é por falta de tentar).
E depois temos os clichés, que são tantos, tão óbvios, e tão mal construídos, que causam dor. O que é que a Catwoman faz? Basicamente tem jeito para assaltar cofres e roubar colares de pérolas, mas o Batman necessita inequivocamente dela para enfrentar o exército do Bane. Os gajos que são mandados para o exílio têm que caminhar sobre o gelo, que parte-se de imediato e os engole, mas de repente temos 10 polícias a andar em cima do gelo, que já de si não se parte, e de repente encontram o Batman em cima do gelo (que com o fato e todo o arsenal só deve pesar uns 200 quilos)… E terminamos com o “momento em que o vilão tenta consumar a sua vingança enquanto morre”, quando temos aquela cena divina da Talia (que em si mesma é um cliché) que está a morrer no camião, falta um minuto para a bomba explodir, e de repente lembra-se de contar aos heróis como está satisfeita por cumprir o sonho do paizinho, e temos o Batman, a Catwoman, e o Gordon, os três parados, de cabeça levemente inclinada, a ouvir placidamente a historinha toda.
Penso que é melhor parar por aqui, mas em verdade devo dizer que teria muito – mas, infelizmente, mesmo MUITO – para continuar a enunciar a estupidez incessante que apenas 2h30 de filme conseguem demonstrar.
Em suma, estou triste por ver este desfecho verdadeiramente vergonhoso, onde até Gotham subitamente se transforma numa cidade luminosa, e com um solzinho caloroso, e onde mesmo estando preparado para que o filme não correspondesse às expectativas, nunca me passou pela cabeça que fosse tamanho descalabro. Não chega a entreter, porque é enfadonho, não chega a desenvolver as personagens, porque há demasiada coisa sem sentido a ser martelada, e é tão insípido que leva uma pessoa a fechar os olhos a meio do filme e a pensar “isto é alguma brincadeira de carnaval?”. Fosse este filme feito por outro realizador, e noutro contexto, e provavelmente a minha crítica não seria tão arrasadora. Mas há que ter noção das coisas. Uma coisa é o Benfica perder 5-0 com o Barcelona, outra coisa é perder 5-0 com os Pescadores da Costa da Caparica. Nolan é um génio, continuará a sê-lo, continuarei a idolatrar o homem, e este filme ficará como a única nódoa na sua carreira. Não é algo que me preocupe em demasia, até porque daqui por 10 anos ainda se falará do “The Dark Knight”, mas daqui por 10 meses já ninguém falará deste “The Dark Kight Rises”.


Pelo Pior:
O argumento próprio para mentecaptos, que faz Nolan descer ao campeonato do “cinemazinho blockbuster”. A voz de Bane, que onde se pretendia um vilão que instigasse medo, acaba por soar a uma interpretação do Sean Connery num dia de alergia com o nariz entupido.

Pelo Melhor:
Hans Zimmer. SEMPRE. Nunca me cansarei de o dizer. Não há prémios na Humanidade para louvar este homem. O coro que fez para tema do Bane é extraordinário (pesquisem no Google a história por trás da sua concepção), bem como todo o resto da banda sonora. Michael Caine, que mantém a sobriedade e a classe. E Anne Hathaway, que pelo esforço merecia algo melhor.