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quarta-feira, 24 de junho de 2015

James Horner


Ele há coisas do diabo… Ando a aguardar por Dezembro de 2015, por alturas do lançamento do “Episódio VII”, para finalmente escrever sobre John Williams, o meu compositor de eleição. Quis as voltas que este mundo dá que eu acabasse, inesperadamente, a escrever sobre James Horner. E é com tristeza que o faço, postumamente.
Não posso dizer que James Horner estivesse entre os meus compositores preferidos. Tive sempre a sensação que alternava entre o muito bom e o muito mau, e meti na cabeça que o fabuloso “The Planets”, de Gustav Holst (uma das obras mais influentes, e menos conhecidas do século XX), lhe tinha servido repetidas vezes de inspiração. “Conheci-o” pelos finais dos anos 90, graças às bandas sonoras de Titanic e Braveheart. O tempo deu-me a oportunidade de explorar muita da sua música, nomeadamente as peças mais originais como o fabuloso, inspirador, comovente, brilhante “Elora Danan”, da banda sonora de Willow. E, acreditem, quando digo “muita da sua música” é apenas uma gota no oceano. Vale a pena dar um salto ao IMDB ou à Wikipedia para ter noção da dimensão da obra de Horner.
Apesar de o único Oscar da sua carreira ter sido ganho em Titanic (com um trabalho fabuloso), não há como não colocar Braveheart no topo de qualquer escala. É uma das melhoras bandas sonoras de todos os tempos, e a prova do talento de James Horner. A variedade de temas, a inspiração escocesa, o respeito pela cultura e pela linguagem “daquilo que estava a representar” fazem daquela obra um marco cultural único. Do sublime tema principal, ao estrondoso “Mornay’s Dream”, ao arrepiante “Freedom”, ao sussurrante “For the Love of a Princess”, ao épico-que-faz-tremer-a-terra “The Battle of Stirling” é difícil encontrar um tema entre os dezoito da banda sonora que seja menos do que perfeito.
Das incontáveis horas que passei a sonhar na minha “pós-infância” agarrado aos phones, muitas devo-as a James Horner. Tenho para com ele uma incobrável dívida de gratidão, comovida, enquanto apaixonado por música instrumental-sinfónica-clássica. Não tenho dúvidas que perdemos um dos grandes músicos do nosso tempo, um dos artistas a que nos referimos com “a” maiúsculo. Resta-nos fazer perdurar o seu legado, imortalizando-o, para que a sua voz não se perca.

The Battle of Stirling (Braveheart OST, 1995)

Elora Danan (Willow OST, 1988)



P.S. Façam um favor a vocês mesmos, e não se fiquem pelo “The Battle of Stirling”. Ouçam a banda sonora completa, e depois tentem imaginar a cena do grito sem aquela música.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Mad Max – Estrada da Fúria




Em 1979 o Mastermind George Miller inaugurava uma das séries mais desconcertantes da História do Cinema. Mad Max foi um hino aterrador a uma sociedade pós-apocalíptica imersa numa violência nunca antes vista no grande ecrã. Gasolina, sangue, e uma ausência absoluta de moral deram uma nova dimensão à expressão “a ferro e fogo”. Trinta anos mais tarde, será que a fórmula ainda resulta?
Jazus! Resulta, e de que maneira…
 Quando vi o trailer deste 4º filme da saga, o meu coração engrenou a 5ª e acelerou a fundo. Mad Max é uma das minhas “coisas sagradas” desde que vi os filmes originais pela primeira vez, devia ter uns 12 ou 13 anos. Fiquei fascinado. É estranho um miúdo ver algo tão fora do normal e não se tornar um psicopata. Aquilo era a negação de tudo o que o mundo normal possuía. Não havia heróis, não havia regras, não havia sociedade. O ambiente bárbaro e selvagem de Mad Max só tinha paralelo na banda desenhada de Savage Sword of Conan – outra das minhas “coisas sagradas”. Portanto, escusado será dizer que as minhas expectativas para este filme ultrapassavam largamente os limites do razoável. Creio que é a primeira vez que coloco a fasquia tão alta e não me desiludo.
Sempre que falo de cinema digo que é preciso analisar cada filme consoante o objectivo a que este se propõe. Quem entra numa sala de cinema para ver Mad Max vai à espera de ver um ensaio visual carregado de supercarros, homens loucos e violentos, e uma distopia absoluta em relação ao mundo em que queremos viver. Este filme não desilude num único grão de areia. Mad Max – Estrada da Fúria é um dos 10 melhores filmes de acção de todos os tempos.
Aqui não queremos história, não queremos grandes diálogos, dispensamos melodramas. Não queremos filosofias, conjecturas, ideologias. Queremos pólvora, sangue, adrenalina, e todas as coisas tóxicas e não recomendadas a cardíacos. Almejamos aquela beleza decadente de um apocalipse. E a parte mastermind de George Miller é que nos consegue dar tudo isso, e ainda fazer um filme com mais sociologia, filosofia e visão do que todos os outros que carregam essa pretensão.
A realização é de sonho. É quase impossível dissociar realização, montagem e fotografia neste filme. Tudo faz parte do mesmo motor bem oleado. Cada frame do filme é uma lição de bom cinema. A isto junta-se uma direcção artística que cria imagens inesquecíveis, de personagens vestidas e maquilhadas no estilo único da saga, com uma linguagem própria, e com carros que transcendem o conceito de criatividade. São 120 minutos das coisas mais belas que o Cinema consegue pensar. Se no Avatar de James Cameron temos a beleza da fauna, da flora, e da esperança no futuro, aqui temos a antítese. Isto é areia, com óleo, granadas, trapos velhos, sucata, mas filmado e produzido com uma sedução inexplicável. É difícil fazer um filme de duas horas onde a única coisa que se passa é uma perseguição ao ritmo da nitroglicerina, e que nunca aborrece.
E para tornar o que já é excelente em perfeito, junte-se a isto uma banda sonora magistral criada por Tom Holkenborg aka Junkie XL. Não sei o que dá a fusão de Verdi com rock, mas certamente passei duas horas a ouvi-lo. É preciso muito arrojo para querer colocar quase duas horas de música num filme tão intenso, mas, tal como diz no cartaz: MASTERMIND George Miller. A música rock-operática-frenética é o clímax orgástico que transporta o filme para a transcendência. Carros a explodir, loucos a voar, violência absoluta, tudo ao som de Heavy Metal fusionado com Rock electro-sinfónico… Caramba, já nem sei o que estou a escrever! Este Mad Max é mesmo assim. Tem um efeito alucinogénio em qualquer pessoa.
Vale a pena falar dos actores só para enaltecer o trabalho fabuloso de Nicholas Hoult, o war boy que é a surpresa do filme. Interpreta uma personagem que encarna toda a loucura inexplicável da história. E é de longe a personagem de todo o filme com quem sentimos maior empatia. Os veteranos Charlize Theron e Tom Hardy cumprem bem os seus papéis, com Charlize a dar vida a uma intensa Imperator Furiosa, que carrega aos ombros toda a dinâmica da história (e faz-me perguntar se o filme em vez de se chamar Mad Max não deveria chamar-se Mad Furiosa, tal é a dimensão da personagem no filme), e Tom Hardy a reinterpretar o anti-herói que surge agora com mais de “Mad” do que de “Max”. Julgo, no entanto, ser justo dizer que, apesar de Hardy estar muito bem no papel, fica a anos-luz de Mel Gibson. Até tenho pena que não tenham agarrado na história de modo a que Hardy fosse um “Max Júnior”, contracenando com o “Max Sénior”. Mas Hardy está livre de culpas, dado que o filme não está escrito para a sua personagem, e ele apenas carregou o nome do protagonista. Mais do que em qualquer um dos outros filmes da saga, aqui vemos o Max solitário, que não cria raízes, e que se mantém sempre em movimento. Sem laços, sem ambições, sem remorsos.
Passaram-se trinta anos, e o fenómeno aí está novamente na ribalta. A ligação com os filmes anteriores é subtil, e muito bem feita (os relances das criancinhas que Max – aparentemente – não conseguiu salvar, o V8, a caixa de música). E este é outro dos pontos fortíssimos do filme: não há cá perdas de tempo a explicar o que se passa, ou o que se passou. É assim, e ponto final. Não há cá cenas mortas a contar a história toda da carochinha, tudo muito mastigado, para que todos os idiotas percebam. Tudo é introduzido na história sem qualquer explicação, ou justificação. É assim, e interpretem como quiserem. Isto é Arte, meus amigos. Tanta gente em Hollywood que tem tanto a aprender com este filme.
Por fim, o toque de génio ao conseguir satirizar/criticar o mundo actual, de uma forma tão velada que muita gente acaba a ser ridicularizada no filme sem sequer se aperceber de que o está a ser. É o caso dos momentos “observa-me”, dirigidos aos asnos que cultivam a sua própria imagem nas redes sociais e restante mundo digital. É o caso dos imbecis que, incapazes de pensar, praticam o culto do líder, que se aproveita da falta de inteligência e cultura dos que o rodeiam para ascender ao lugar de “querido líder”. E devo dizer, com uma gargalhada de profundo e rotundo desprezo, que acho divino o facto de haver tanta gente a dizer mal do filme por ser “demasiado feminista”. Por favor, parem! Já não aguento de tanto rir. Um dos males da Democracia é dar espaço para que tanta gente estúpida expresse a sua opinião.
Mad Max – Estrada da Fúria é um dos maiores colossos cinematográficos da década. A quantidade de mensagens que o filme bombardeia aos espectadores é impensável para um filme de acção. Nem os filmes de Neil Blomkamp conseguem ter tanto sumo. E tudo isto no meio de uma tempestade de explosões, aço retorcido, e cabeças a voar. Como é que é possível ocultar tanta consciência num filme que, contas feitas, é “apenas” uma corrida de carros a explodir no meio do deserto.
O miúdo de 12 ou 13 anos só consegue sorrir, cheio de adrenalina, e gritar emocionado: Oh, what a day! What a lovely day!

Pelo Melhor
A criatividade aliada ao saber fazer. Há ideias muito boas, mas que na prática não são bem executadas, e há gente com talento que não tem o toque da criatividade. Mad Max junta o Bom ao Excelente. É um produto único, sem qualquer coisa que se lhe assemelhe, e executado com toda a perfeição. Realização, Música, Fotografia, Montagem, Efeitos Especiais, Direcção Artística, Guarda-Roupa, Maquilhagem, Interpretação, Argumento. Tudo em absoluta harmonia. É um carro de alta competição afinado até à perfeição.


Pelo Pior
LOL. Vá lá, depois de tudo o que acabaram de ler acham mesmo que há alguma coisa a escrever neste espaço? Bom, como eu também sou um MASTERMIND, até consigo arranjar algo, não “Pelo Pior”, mas “Pelo Menos Excelente”.
SPOILER ALERT: Olhando com atenção para o filme, este termina exactamente onde começa: na Cidadela. Ao longo do filme vemos que a Imperator Furiosa é uma mulher inteligente, grande guerreira, e cheia de recursos. Ora, se no final ela é aclamada por ter o cadáver de Immortan Joe aos pés (com isso despertando a rebelião) … não teria sido mais simples matá-lo e assumir desde logo o controlo da Cidadela?
Pois, mas assim não haveria razão para as duas horas de perseguição cheias de adrenalina. ;)

E porque sou mesmo boa pessoa… tomem lá um bónus:


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Capitão Falcão




Saudações patrióticas! Esta é a segunda vez em dois anos que falo de cinema Português. Tendo em conta que nas anteriores três décadas nunca havia visto (no cinema, pelo menos) qualquer filme na mais nobre língua da Humanidade, sinto-me a transbordar de patriotismo. Mas, importa perguntar: terei eu gostado tanto de "Capitão Falcão" como gostei de "A Gaiola Dourada"?
Há já uns dois anos que ando a "ouvir coisas" deste projecto. É o que dá viver em Portugal, esta imensa aldeia onde há sempre alguém que é amigo do amigo de um amigo do realizador do filme. Inicialmente até nem estava muito atento à coisa, mas quando há cerca de um ano vi o primeiro trailer... Opá, é difícil resistir a um super-herói Português, com bigode (obviamente), a desancar em comunistas vestidos de fato-macaco armados com foices e martelos!
Pois bem, Capitão Falcão é uma delícia! Um daqueles "prazeres culpados" (este é um texto patriótico, portanto nada de utilizar estrangeirismos) que nos fazem bem à alma. Para quem foi raptado por comuninjas, e tem passado os últimos meses aprisionado numa cave escura, há que dizer que Capitão Falcão é um filme de super-heróis passado no Portugal da década de sessenta, onde o intrépido Capitão Falcão e o seu leal companheiro, Puto Perdiz, defendem Portugal e o Senhor Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, das ameaças do Comunismo e da Democracia. Sim, é uma comédia. Convém explicar isso desde já, não vá dar-se o caso de algum Espanhol estar a ler isto. Mais: é uma comédia politicamente incorrecta, e com doses de nonsense (ooops, estrangeirismo) muito ao estilo da comédia Britânica.
Há dois tipos de reacção possível ao filme: há quem delire com algo tão estapafúrdio, que tem a inteligência de não querer passar por "pseudo-humor pseudo-intelectual", e que soltará sonoras gargalhadas a cada "bolo de arroz" (não vou explicar), e há quem ache isto "uma coisa totalmente estúpida, ridícula, e sem qualquer nexo". As pessoas que se enquadram no segundo tipo são, por definição, Espanhóis.
O humor em Capitão Falcão é disparatado, absurdo, delirante, e é uma sátira hilariante que conjuga um Portugal bafiento com um "Batman Pop Anos 60". E é de chorar a rir. Há frases tão bem colocadas que ficarão na memória ao jeito de um "Why so serious?". O texto é deliciosamente inoportuno, e isso faz-me dar saltos de alegria na cadeira. Estou mais do que farto desta sociedade amorfa e borrega onde ninguém pode usar expressões que possam eventualmente ferir a susceptibilidade de qualquer indivíduo coitadinho que fique com traumas psicológicos para o resto da vida porque ouviu uma expressão feia que não se pode reproduzir. Religião? Raça? Género? Nada escapa ao mordaz argumento do filme. É, repito, um "prazer culpado".
É curioso ver que muitos dos envolvidos no filme estão de alguma forma ligados ao extraordinário "Odisseia", da RTP, de que falei na altura (link), e que foi das coisas mais brilhantes de produção nacional nos últimos anos (que infelizmente passou meio despercebido no meio da tanta bosta com que as nossas simpáticas televisões nos brindam). Pelo meio, há um sem-fim de referências a outros filmes e séries. A principal, como não poderia deixar de ser, é a série do Batman dos anos 60 (as cenas na mota com sidecar são primorosas), mas também há Guerra das Estrelas, Monty Python e o Cálice Sagrado, Power Rangers, os filmes de artes marciais do Jacky Chan e companhia.
A parte menos boa do filme será porventura a direcção de actores. Não será um problema específico do filme, mas mais uma questão com o "estilo Português". Fico sempre com a sensação que os nossos actores estão a declamar, ou então assumem uma postura mais adequada ao teatro de revista. Gonçalo Waddington (mas que raio de estrangeirismo anti-patriótico!!!) já demonstrou ser um bom actor (relembro: Odisseia), e aqui assume uma onda muito over-the-top a beber um pouco dos trejeitos de Herman José nos seus saudosos sketches. Curiosamente, o actor que me pareceu melhor em todo o filme é precisamente um dos que nem abre a boca: Luís Vicente, que faz de Lenine, o mestre do transformismo (Bolo de Arroz?). Tenho pena que Nuno Lopes tenha "passado de raspão" pelo filme (é o mítico comuninja), pois é muito provavelmente o melhor actor Português da actualidade. Haja esperança por algo mais para um Capitão Falcão 2  (há cena após os créditos que para isso aponta!).
Não se pode falar de Capitão Falcão sem falar da banda sonora. Não sei se terá sido João Leitão (o realizador) a convidar Pedro Marques para tratar da música do filme, mas ao autor da ideia só consigo dizer: MUITO OBRIGADO! Que trabalho GE-NI-AL. A inspiração "pop-Batman-60's" a imprimir um cariz vibrante e cheio de energia ao filme é um deleite. A qualidade da música é verdadeiramente fabulosa e carrega o filme às costas. Já tentei procurar por mais informações sobre Pedro Marques, mas o Google não me ajudou muito. Mas quero estar atento ao trabalho deste senhor. Tal como Spielberg disse que metade do sucesso dos seus filmes se devia à música de John Williams, também João Leitão o pode dizer em relação a Pedro Marques. Aqui, temos Duo Dinâmico!
Julgo ter dito o que havia a dizer sobre Capitão Falcão. Haverá certamente muita gente cinzenta, que se leva demasiado a sério, e que não saberá apreciar uma sátira ligeira, sem compromisso, que faz um elogio ao absurdo, e joga com um sem-fim de influências divertidas. E, mais do que tudo isto, demonstra que FAZER HUMOR não é meramente dizer dez vezes merda e mais umas quantas caralhadas, e de seguida rir de forma boçal.
Resta-me terminar este artigo brindando todos os patrióticos leitores deste blogue com um sonoro:
ÉS PORTUGUÊS OU ÉS ESPANHOL?!?!?!
ÉS PORTUGUÊS OU ÉS ESPANHOL?!?!?!


Pelo Melhor
Além da já referida extraordinária música, o genuíno talento Português de rir de nós próprios. Ser inconveniente, arriscar, procurar fazer algo fora do habitual. Vai sendo raro nos dias que correm. Fazer rir num país cada vez mais triste é obra! Obrigado.

Pelo Pior
Lembrar que os pais de D. Afonso Henriques eram Espanhóis! HERESIA! Isto é mais ofensivo do que insinuar que eram... COMUNISTAS!!!

E como neste blogue também há cenas extra após os créditos, tomem lá que vale a pena:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Exodus – Deuses e Reis




Ridley Scott é um daqueles génios que têm lugar de destaque no meu panteão de artistas. Afinal, estamos a falar do homem que realizou o melhor filme de todos os tempos. Quando surgiu o primeiro trailer de Exodus fiquei a tremer. Estaria Scott de regresso aos grandes épicos históricos? Estaria um novo Gladiador a caminho?
Fui vê-lo já depois de estar há algum tempo nas salas de cinema, e tendo lido muitas críticas negativas. Mas, quando Scott fez Robin Hood (2010) também houve uma chuva de críticas nada abonatórias, e o filme até é razoavelmente decente. Além disso, o fanboy dentro de mim queria a todo o custo contrariar as opiniões gerais, e chegar aqui a rir desbragadamente e a gritar “vivas” ao filme. Teria que ultrapassar o meu ódio de estimação pelo Christian Batman enquanto protagonista, mas tudo o resto seria, com toda a certeza, no mínimo satisfatório. Bom, Exodus tem uma proeza… Bale consegue não ser a pior coisa no filme!
Exodus – Deuses e Reis é uma tragédia de proporções épicas que penosamente se arrasta ao longo de duas horas. Aqui o fanboy quer desculpar o seu ídolo, afinal a culpa principal é do argumento grotesco, que nem sequer tem a mão de Scott. Na parte em que Ridley Scott é chamado – a realização – responde sempre de forma imperial. Veja-se a magnífica carga de cavalaria dos egípcios contra os hititas logo na abertura do filme! É seguramente uma das mais deslumbrantes jamais filmadas. Mas, meu caro fanboy, o realizador é sempre o responsável máximo pelo filme. É ele quem o assina, quem lhe dá identidade. O guião de Exodus é tão mau, que faz o do Dark Knight Rises parecer aceitável (que não é!).
Até nem era preciso um grande génio para contar a história de Moisés e do Êxodo. É mais do que conhecida, teve inclusive direito a grandes adaptações no cinema. Mas, aparentemente, foram necessários quatro babuínos para escrever um pedaço de esterco tão grande, que a única coisa que mereciam era levar com as Tábuas dos Dez Mandamentos nos cornos. Quatro asnos para escrever algo tão mau, que um miúdo de seis anos certamente faria melhor.
Há dois momentos centrais no filme, e que conseguem ser de um ridículo tão majestático, que uma pessoa apenas consegue colocar as mãos à frente da cara e abanar a cabeça. Ramsés e Moisés são quase como irmãos. São criados juntos, lutam juntos, Moisés salva a vida de Ramsés no campo de batalha, o faraó (pai de Ramsés) até lhes dá espadas para simbolizar a união de ambos. Até ao dia em que um inimigo político de Moisés aparece e diz que um soldado qualquer ouviu um escravo qualquer a insinuar que Moisés era de descendência hebraica. Em menos de dois minutos Ramsés entende que isto é absolutamente verdade, e que Moisés tem que ser imediatamente expulso e assassinado. Muito coerente. E o mais engraçado, é que isto não é o pior da história! Moisés é apresentado como alguém que não acredita em qualquer religião, e inclusive desdenha todas as superstições e rituais religiosos. Já no exílio, conhece uma bela moçoila, crente em Deus, com quem se casa e tem filhos. Torna-se pastor, e quando o filho já é crescido diz à esposa que não concorda que ele seja iniciado na fé, e faz um discurso bonito (na voz ciciante do Bruce Wayne…) dizendo que o filho deve crescer a acreditar nele próprio, e não num qualquer deus. Até que no dia a seguir vai atrás de uma ovelha para o cimo do monte, no meio de um temporal, escorrega na lama, leva com uma pedra nos cornos, e subitamente vê Deus! Que é uma criancinha irritante que só ele vê. No dia a seguir, cheio de febre e a delirar, decide abandonar a família e “ir fazer o que Deus lhe mandou”. E isto passa-se aí em dois minutos de filme. Uma conversão ainda mais rápida e ridícula do que a do Anakin Skywalker no inominável Rise of the Sith.
Até mesmo para quem não tenha crenças religiosas isto parece insultuoso. Já não bastava, algumas cenas antes, terem sido enviados dois assassinos para… ASSASSINAR Moisés, que se dão ao trabalho de ficar parados a olhar para ele enquanto dorme, esperam que ele acorde, e – espanto! – levam na tromba. Portanto, o que fazem os assassinos? ASSASSINAM pessoas! Vêem o seu alvo a dormir, completamente desprotegido, e… aproveitam para se aproximar silenciosamente e cortar-lhe a garganta, como qualquer… ASSASSINO? Não! Ficam a olhar para ele a fazer ó-ó, como se fosse um bebezão crescido e rechonchudo, e esperam que ele – um general, combatente altamente experiente e letal – acorde, para depois – aí sim – o tentarem matar… A sério, um miúdo de seis anos conseguia escrever algo menos obtuso do que isto.
Não pretendo dar-me ao trabalho de escrever sobre todas as asneiras no argumento do filme (pois oito páginas não bastariam para tal), e portanto deixo para mais tarde as reflexões sobre a conveniente estrada que contorna as montanhas, suficientemente larga para haver uma corrida de bigas (carros puxados por uma parelha de cavalos), e que liga lugar nenhum a lugar algum, pois chegam ao mar e nem sequer uma cabana lá existe, por isso questiono quem utilizaria aquela estrada; bem como o facto interessante de um milhão de refugiados decidir entrar pelo mar adentro, cheios de água até ao peito, sem ninguém perceber qual é o plano; e por último o momento de génio em que o faraó mauzão vai a atravessar o mar, leva com uma onda de cinquenta metros em cima, que deve ter uma Força equivalente a 500 mil quilotoneladas, e em vez de ficar transformado numa passa para consumir na passagem de ano, aparece na cena seguinte a passear pela praia fora… ainda com a maquilhagem egípcia perfeitamente estampada na sua carinha laroca. Tudo muito bom.
Mas já que falo do faraó mauzão, talvez seja oportuno mencionar os actores geniais com que o filme conta. Não sei quem se lembrou de ir buscar Joel Edgerton para fazer de Ramsés, mas poderiam ter explicado ao senhor que um faraó em 1300 AC não é propriamente um mafioso italiano com ar de pintas. É preciso muito talento para estar num filme ao lado do Christian Bale, e conseguir ser pior do que ele! Mais, é prodigioso haver ainda quem consiga ser pior! Como é o caso do faraó velho (Seti), magnificamente DESinterpretado por um idiota chamado John Turturro, que é o histérico ignóbil dos filmes dos Transformers (com a mania da conspiração). Se nos filmes dos Transformers ele já parece mau, imaginem-no a fazer de faraó… Lamentavelmente, temos dois monstros do cinema, Sigourney Weaver e Bin Kniglsey, cujos talentos são faraonicamente desaproveitados, pois dizem duas falas e desparecem de cena. No caso de Bem Kingsley a coisa assume proporções de estupidez bíblica, pois trata-se da personagem que revela a Moisés quem ele é na realidade… e depois disso parece não voltar a abrir a boca durante o resto do filme.
Exodus é de longe o pior filme da magistral carreira de Ridley Scott, e só não é o pior filme do ano porque felizmente existe Michael Bay. O único ponto positivo do filme é a fenomenal banda sonora de Alberto Iglesias, que está estupenda, digna de um faraó, e repleta de coros na boa tradição de Verdi. É penoso ouvir algo tão bom, tão bonito e meticuloso, desperdiçado num fracasso cinematográfico tão grandioso como a própria travessia do Mar Vermelho. Só o Interstellar de Hans Zimmer deve impedir que esta obra seja a melhor assinatura musical cinematográfica do ano. Ouçam-na, quem gosta, pois vale a pena. No que à música diz respeito, Scott não costuma cometer erros. Foi ele que foi buscar James Horner para compor a música de Alien, Vangelis para Blade Runner, Hans Zimmer para o inesquecível Gladiador, e agora Alberto Iglesias para mais esta pérola.
Não me apetece escrever mais sobre o filme, pois tudo o que disser daqui para a frente é para pior. Toda a sequência das pragas é fastidiosa e incoerente; os próprios cenários e efeitos especiais são um falhanço (um milhão de pessoas a correr pela praia, e nenhuma deixa pegadas); passam dias a fio sem os guardas do faraó conseguirem encontrar Moisés, e no entanto este entra e sai do palácio do faraó quando lhe apetece; um faraó que utiliza expressões em latim no ano 1300 AC, quando a língua ainda não tinha nascido; Moisés a expressar o seu desejo de os hebreus serem “cidadãos do Egipto”, quando o conceito de direitos de cidadania só deverá ter sido criado séculos mais tarde pelos atenienses ou pelos romanos… Enfim, no meio de tanta barbaridade não vale a pena sequer estar com preciosismos.
É para mim muito constrangedor assistir a algo tão mau, sendo eu um fã confesso do génio de Ridley Scott, o homem que em 1979 criou o fabuloso Alien, e apenas três anos mais tarde fez nascer o melhor filme de todos os tempos. No melhor pano cai a nódoa, e espero fervorosamente que rapidamente o meu ídolo recupere o estatuto que merece.

Pelo Melhor
Sem margem para dúvida, a excelente música de Alberto Iglesias. Além disso… só mesmo o facto de o a história não ter uma sequela. Espera, deixa-me estar calado não vá os mesmos gajos lembrarem-se de refazer o Bem-Hur…

Pelo Pior
Um guião tão medíocre, que nem num filme do Michael Bay seria expectável. O Faraó/Padrinho-da-Máfia. O Faraó/Gajo-idiota-dos-Transformers. Os camelos (não me refiro aos animais, mas sim aos argumentistas). A mediocridade. Tudo, absolutamente tudo após os dez minutos iniciais.

NOTA: eu costumo encerrar as minhas críticas de cinema com o trailer do respectivo filme. Mas neste caso não o vou fazer, não vá alguém cair no erro de decidir ir vê-lo. Acreditem em mim… fiquem em casa e façam um chá de limão, pois é menos aborrecido do que isto.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Interstellar


Cada vez que Christopher Nolan anuncia o lançamento do seu próximo filme o mundo parece ficar, momentaneamente, em suspenso. Não é para menos, Nolan é o génio cinematográfico que nos anos mais recentes nos fez chegar filmes memoráveis como The Dark Knight (2008) e Inception. Portanto, é normal que o mundo pare, escute, e olhe.
Eu estava de relações cortadas com Nolan desde 2012, por causa do inenarrável The Dark Knight Rises, e portanto este Interstellar apresentava-se como o filme em que ele tinha que se superar, e fazer-me esquecer aquele trágico acidente ferroviário.
Antes de começar a falar de Interstellar é necessário deixar bem claro que sempre que escrevo alguma coisa neste blogue faço-o de acordo com a minha opinião que procuro sustentar da forma mais objectiva possível, nunca me deixando seduzir pela “onda colectiva”. E é por isso que a “onda colectiva” bem pode continuar a berrar que o famigerado filme de 2012 supramencionado é o best movie ever, que eu continuarei a chamar-lhe um belo pedaço de caca wookie.
Mas, para permitir desde já desanuviar o ar, e uma vez que já sofri ameaças à minha integridade física (feitas com piratas-ninja-wizards, entre outras) para a eventualidade de dizer menos bem do filme, começo já por dizer: Interstellar é um GRANDE filme! Pronto, respirem fundo. Está dito. Mas – há sempre um “mas”, e o diabo está nos detalhes – não subscrevo de forma alguma que este seja um dos melhores filmes de todos os tempos, uma obra-prima absoluta, e mais o sem-fim de qualificações que a “onda colectiva” quer fazer passar como verdade indiscutível a todo o custo.
Todos os filmes do brilhante Nolan têm um ponto em comum: são emocionalmente fortíssimos, e fazem-nos pensar para lá das linhas de orientação. E conseguem esta proeza no meio de um espectáculo visual e tecnológico que deixa qualquer espectador embevecido. E Interstellar é precisamente isso, um colosso emocional que nos põe durante mais de duas horas e meia a pensar numa série de coisas. E é precisamente neste ponto que eu começo a divergir da “onda colectiva”. Todas as opiniões que por aí grassam dão a entender que a primeira parte do filme – aquela que se passa na Terra, maioritariamente na quinta de Cooper – é uma seca, e que o filme fica fabuloso a partir do momento em que entram no Espaço. Discordo, em grau superlativo absoluto sintético. Toda a primeira parte do filme é o que me prende a atenção. É onde está a história, a emoção, a força e a fraqueza humanas. E boa parte deve-se a uma personagem a quem a “onda colectiva” nem prestou qualquer atenção: o avô, interpretado por John Lithgow.
Nolan tem por hábito abordar nas suas obras temas muito actuais. A praga que parece ser responsável pela devastação das colheitas no planeta é uma referência subtil às alterações climáticas. Mas até nem é a mais importante. Há diálogos que passam despercebidos, e que são maravilhosos. Quando o avô refere que no seu tempo éramos “6 biliões de pessoas, todas a quererem ter direito à mais recente engenhoca que surgia todos os anos”, é uma crítica directa ao nosso consumismo acéfalo e estúpido. Não adianta olhar para o lado. Somos todos igualmente culpados. A forma como o avô “repreende” o genro, quando este parece não querer dar tanta atenção aos filhos como a que é necessária, e a fabulosa deixa “it’s a parents-teachers meeting, not grandparents”. Até mesmo o momento humorístico “I want a hotdog!”. Lithgow é marcante, e um dos actores mais subavaliados de Hollywood. Tudo junto, está menos de cinco minutos em cena, e é para mim a personagem mais memorável.
A cena com mais significado do filme é a reunião de Cooper na escola. O debate entre ensino e ciência versus estupidez é arrebatador.
Ainda na “primeira parte de seca”, temos a extraordinária relação entre pai e filha, com Mathew McConaughey e a jovem Mackenzie Foy a terem ambos prestações – essas sim! – para lá das estrelas. Raras vezes um duo pai-filha foi tão convincente no ecrã. Que lição de actuação! Que delícia… É pena que dure tão pouco tempo, porque depois disto parece não haver actores no resto do filme. Anne Hataway, Michael Caine, Jessica Chastain, e todos os restantes, parecem eclipsar-se durante duas horas. O próprio McConaughey, quando afastado dos filhos, apaga-se um pouco. Há apenas uma breve excepção, graças à personagem de Matt Damon, que embora do ponto de vista de interpretação seja “Matt Damon a fazer de Matt Damon”, em termos de dimensão e interesse da personagem é algo que abana um bocado a história.
E com isto entramos na escala épica do filme. Com a ambição desmesurada de ser uma história avassaladora que nos faz olhar para a Humanidade e para o Universo. É aqui que eu acho que o filme não cumpre a 100%, e que me fez sair da sala de cinema a dizer “foi bom, mas faltou aqui qualquer coisa”.
O duelo entre ciência e emoção é muitas vezes o que nos põe a salivar durante o filme. Mas há alturas em que fica a sensação que se entrou um modo “vamos pegar na Teoria da Relatividade de Einstein e martelar aqui qualquer coisa”. Do ponto de vista científico, ao que tudo indica o filme é bastante bem sustentado, tendo sido inclusivamente desenvolvido tendo como consultor um dos grandes Físicos teóricos da actualidade (e não estou a falar do Sheldon Cooper). E é precisamente essa razão que me faz ficar ainda mais desagradado quando, sem mais nem menos, querem aludir ao Amor como uma espécie de variável física para integrar numa equação. Juntar a Lei da Gravidade e o Amor como X+Y = Z é uma parolice tremenda. Eu até salivo por filmes fortemente emocionais, mas não é necessário entrarmos na parvoíce saloia do “e o Amor triunfará sobre tudo e todos”. Aquele momento em que uma das mais brilhantes cientistas do mundo decide ignorar todos os dados científicos de que dispõem, e justificar o injustificável apenas porque “o Amor é uma coisa linda, verdadeira, e tem que ser encarada como algo tão racional como a Força da Gravidade”… danifica o filme. Tornar subitamente uma ode à Humanidade numa espiritualidade de trazer por casa é manifestamente infeliz. É um daqueles momentos como a pirueta da mota no The Dark Knight (2008). É uma carta fora do baralho, que não estraga o filme, mas risca-lhe a pintura.
Há pelo meio algumas incongruências, como o facto de quando eles partem da Terra “o milho estar a morrer”, mas 23 anos depois continuam a ter hectares de milho a perder de vista, ou o facto de Michael Caine com 70 anos ser exactamente igual a Michael Caine com 93, com o mesmo cabelo, a mesma barba, e até a mesma roupa. Olhem que eu tenho o privilégio de conhecer algumas pessoas com mais de 90 anos, e quem lhes dera parecer o que eram aos 70.
Mas, enfim, são coisas mínimas e que não beliscam verdadeiramente o filme. Embora eu questione seriamente a necessidade omnipresente do “americanismo primário”, com a bandeirinha espetada no planeta XPTO-423. Portanto, a Humanidade está à beira da extinção, vamos enviar uma série de astronautas in extremis para outra galáxia nas missões Lazarus, essas pessoas vão provavelmente morrer abandonadas e sós num planeta alienígena, mas quando lá chegam os astronautas que se seguem, eis a bandeira americana firme e hirta a flutuar ao vento. Ainda bem que a missão do desespero final foi pensada tendo em conta as coisas absolutamente essenciais para a sobrevivência humana.
Resta-nos a parte final, quando o filme tenta entrar no modo “2001: Uma Odisseia no Espaço”, e aí é que a porca torce o rabo… Interstellar bem pode ser entendido como uma homenagem a 2001, mas está a anos-Luz de qualquer comparação possível. 2001 é um marco cinematográfico, Humano, filosófico, artístico, criativo. Interstellar é apenas um filme muito bom. Não confundamos o trigo com o joio. Qualquer discussão sobre cinema começará sempre com “Para além do 2001: Uma Odisseia no Espaço, que outros 9 filmes se incluem na lista dos 10 melhores filmes da História”? A meu ver, Interstellar não faz parte dessa lista. Visualmente é muito forte, mas não me parece superar um Gravity ou um Prometheus. Em termos narrativos é muito bom, mas não alcança um Cloud Atlas. Ao nível das interpretações, não chega sequer a um Inception. É um filme muito bom, mas a sua excepcionalidade está, curiosamente, apenas na ligação com a comunidade científica e com a capacidade de ter ajudado a ciência a representar o que poderá ser o efeito de um buraco negro (link). Tem um bom argumento, e não lhe falta o toque artístico de ter dado a conhecer ao mundo o magnífico Do not go gentle into that good night (link). Mas, no fim, falta-lhe sempre qualquer coisa para ser “aquela obra avassaladora”.
Excepto, lá está, quando se fala de Hans Zimmer. Creio já ter esgotado todas as palavras do léxico Português para qualificar o génio deste homem. Metade da grandiosidade do filme deve-se ao esmagador tema tocado no órgão de uma igreja de Londres do século XII (link). A música de Interstellar é, essa sim, uma ode ao génio humano. Já não vale a pena falar sobre Hans Zimmer. Limito-me a constatar o privilégio que é habitar este planeta no mesmo tempo que este homem. Tal como foi um privilégio para as pessoas que tomaram conhecimento das obras de Beethoven em primeira mão. Zimmer é o artista que sucessivamente se transcende a si próprio. Desde os tempos de Johann Sebastian Bach que ninguém tocava um órgão desta maneira. É arrepiante, leva-nos às lágrimas com o coração a estoirar no peito num choque convulsivo que nos asfixia. Deve ser constrangedor para os restantes compositores contemporâneos limitarem-se a apanhar as notas que Zimmer deixa cair ao chão. Já só responde perante Wagner ou Beethoven. Nada mais existe. Quando a música desperta, o filme torna-se irrelevante, um mero adereço. Zimmer é Gargantua, reduz à insignificância tudo o que o rodeia. Nem a própria Luz, a própria Física, o próprio Universo se conseguem impor ante Hans Zimmer.
A própria música é uma homenagem de Zimmer a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Ouçam o Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (que curiosamente ficou conhecida para a posterioridade como a música do 2001, Uma Odisseia no Espaço), e depois ouçam o Day One Dark. A dimensão epopeica é rigorosamente a mesma.
Julgo nada mais ter a dizer sobre Interstellar. É um grande filme, vão ver, vale bem o preço do bilhete. Tem diálogos verdadeiramente inspiradores, tem “alma própria”, tem arrojo, é a dicotomia Nolan levada ao extremo. Admito poder estar a ser excessivamente exigente com Nolan, mas faço-o precisamente por saber que é um dos poucos cineastas a quem se pode exigir para além do exigível.
Mas tenhamos noção das coisas, e não classifiquemos tudo e mais alguma coisa como “obra-prima sem precedentes”. Fazendo uma alusão directa ao filme, Interstellar correspondeu-me às expectativas em 75%. Com os restantes 25 dou por mim a pensar: daqui por dois anos é mais provável estar a ver 2001: Uma Odisseia no Espaço pela 25ª vez, do que Interstellar pela segunda.

Pelo Melhor

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Pelo Pior
Nada há de verdadeiramente mau neste filme. Há apenas aquela “carta fora do baralho” de, sem razão aparente, desligar o “modo científico” e tentar introduzir de supetão “o Amor é a força mai’ linda forever and ever”. Totalmente desprovido de sentido.