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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha.



A História do meu país é um dos temas mais fascinantes que existem. Em tudo o que tem de bom, bem como naquilo que tem de mau. Mesmo naquele período de 60 anos que sucedeu à Dinastia de Avis, onde um trio de impostores denominados Filipes (escusado será dizer que jamais darei esse nome a um filho meu!) assentou arraiais (mais ou menos) nas margens olissiponenses.
É precisamente este enquadramento que serve de mote à magnífica exposição que o Museu Calouste Gulbenkian acolhe entre 22 de Outubro de 2014 e 25 de Janeiro de 2015. Como o nome da exposição indica, o espólio que a constitui veio essencialmente dos muitos palácios espanhóis, bem como de outros locais com peças associadas ao tema.
A organização da exposição encontra-se dividida em duas partes, uma evocativa do período que antecedeu a chegada dos Filipes, e a sua “presença”, e outra centrada nos séculos XVIII e XIX, mais ligada a Dona Isabel de Bragança, ao Museu do Prado, e a Goya.
A primeira parte da exposição é verdadeiramente fascinante. A sua própria disposição é feita de forma a acolher os visitantes num intimismo raro, onde somos bombardeados logo à entrada com quadros e armaduras capazes de nos fazer sentar e respirar fundo. Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, uma das figuras mais importantes da Europa medieval moderna (perdoem-me as imprecisões linguísticas), é quem nos abre as portas da galeria, ao lado do seu filho, Filipe II de Espanha. Duas armaduras absolutamente magníficas, pertencentes a ambos, estão expostas logo ao iniciar da viagem. Ao lado da armadura de Carlos V (cujos detalhes são de levar uma pessoa às lágrimas) encontra-se um quadro do próprio a envergá-la. A simbiose é um deleite para os olhos e para a alma. E depois, este escriba tem a sorte única de visitar museus na companhia de amigos que percebem de História “como gente grande”, e que fazem o favor de me rechear de detalhes, e estabelecer as ligações entre famílias, períodos, acontecimentos, e até chamar a atenção para o facto de Carlos V ser pintado com o colar da Ordem do Tosão de Ouro. Visitar museus é excelente. Visitá-los nesta companhia é um luxo!

 (Retrato de Carlos V armado, Juan Pantoja de la Cruz, 1608. Fonte: link)
A exposição vai dançando entre tapeçarias monumentais, pinturas dos palácios reais espanhóis, retratos de quem fez a História, como é o caso do nosso malfadado D. Sebastião, mobiliário, esculturas, e peças de joalharia. Há de tudo um pouco, sempre com o cuidado de enquadrar devidamente a presença de cada peça no espírito da exposição.
Para além das presenças obrigatórias para explicar os factos que levaram à dinastia filipina (amaldiçoado seja o seu nome para toda a eternidade), esta História Partilhada acolhe ainda obras únicas de artistas como Caravaggio e El Greco, sem esquecer os apaixonantes livros de cantigas. Esta viagem no tempo é avassaladora, e é das exposições mais bem construídas que visitei até hoje. O trabalho que faz para explicar, até mesmo ao mais leigo dos visitantes, as relações familiares entre Portugal e Espanha no século XVI é prodigioso. Ficamos com um retrato rico, completo, e de uma abrangência considerável. Não é apenas pintura, não é apenas escultura, não é apenas armaria. É História viva, que percorre todas as artes e nos deixa muito mais do que um vislumbre do que era há 500 anos o local que actualmente pisamos.
Quanto à segunda parte da exposição (situada noutro ponto do museu), prefiro não falar muito porque achei-a tão fraquinha quando comparada com a primeira… Entende-se o “sentido”. Mais associada à Dinastia Bourbon (de onde o actual rei de Espanha descende), não só as obras que apresenta são manifestamente desinteressantes na sua maioria, como o próprio espaço é muito pouco acolhedor. Nem a presença de uns quantos quadros de Goya parecem salvar aquele espaço.
Em suma, para quem gosta de História, para quem gosta de Arte, e para quem tem simplesmente bom gosto, esta A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha. é imperdível. Há que agradecer ao Museu Calouste Gulbenkian e ao Patrimonio Nacional por esta parceria que tão extraordinário resultado proporcionou. Recomendo vivamente a visita até 25 de Janeiro de 2015.
E, só para terminar “ao meu bom estilo” com uma farpa… Patriota que se preze visita a exposição na véspera do 1º de Dezembro! ;)


quarta-feira, 25 de julho de 2012

“História de Portugal” (Expresso)



A História é o tema mais fascinante que existe. E a História de Portugal é um tema mais do que fascinante. Sou apaixonado por História desde miúdo pequeno, embora me confesse um gigantesco leigo na matéria. Boa parte da culpa deve-se ao meu livro da 4ª classe sobre a História de Portugal, já não me lembro da editora, mas recordo que tinha as páginas decoradas a cor-de-laranja e na capa uma fotografia da estátua de Dom Afonso Henriques que se encontra junto ao Castelo de Guimarães. Foi esse o livro que me deu a conhecer a História de Portugal, e dos reis que atravessarem as suas três dinastias mais uma.
Já li muitos livros de História, com particular enfoque no Império Romano, o meu fétiche, mas como tenho uma memória digna de uma batata, ou de um peixinho-dourado, metade do que leio esvanece-se-me da memória...
Ora, justifica-se este pseudo-artigo a propósito da iniciativa do jornal Expresso de editar uma espécie de colecção de bolso com o livro “História de Portugal”, escrito por Rui Ramos, Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa (Esfera dos Livros, 2009). Decidi adquirir os livros um pouco com aquele espírito de “talvez um dia destes venha a ter vontade de os ler”. Interesse nunca falta, obviamente, mas convenhamos que nem sempre é fácil ler livros de História, os quais são por vezes escritos numa linguagem pouco direccionada para o comum dos mortais. Decidir ler um livro de História é um investimento considerável. Requer disposição, tempo, e na maioria dos casos disponibilidade para procurar outras fontes/elementos (seja imagens específicas, mapas, ou referências diversas).
Peguei então no primeiro volume “apenas para dar uma vista de olhos e tentar tomar o pulso ao estilo”… e ainda não o consegui largar. Há já muito tempo que não me caía nas mãos uma coisa tão bem escrita. É deslumbrante. A facilidade na escrita é desarmante, acompanhada por um ritmo estimulante, e que à medida que vai desenvolvendo “os episódios” faz alusões a outros temas cronologicamente posteriores, e que aos poucos acabam por se ir entrelaçando.
Que surpresa tão agradável.
Além de ser um tremendo estímulo à leitura, conjuga uma diversidade magnífica de áreas, aliando muitas vezes a geografia ao enquadramento religioso, e até a ciência pura e dura, ou a própria etimologia. É difícil ser mais completo. E sempre claro, objectivo, directo, e direccionando para novas fontes que têm surgido do trabalho de investigação que se tem feito no país, mas também lá fora. Um primor.
Por exemplo, ficamos a saber que “Na Península Ibérica, em média, os homens apresentam 69,6% de ascendência ibérica («nativa»), 19,8% sefardita e 10,6% berbere”. Portanto, eu tenho 1/10 de sangue berbere dentro de mim. Pensem duas vezes antes de me chamar nomes…
Nem de propósito, sendo hoje dia 25 de Julho (Batalha de Ourique), transcrevo um excerto do extraordinário texto que desvenda aquela que é a figura maior da História da nação.
“No seguimento da batalha e do triunfo nela alcançado, Afonso Henriques passou a intitular-se rei dos portugueses (portugalensium rex). Este título, que surge nos diplomas então elaborados na corte de Afonso Henriques, remete para uma soberania sobre os indivíduos que se identificavam como sendo portugueses (ou que o autoproclamado rei identificava como tal) e não tanto sobre um território perfeitamente delimitado ou já estabilizado. Antes de ser «rei de Portugal» Afonso Henriques era rei dos portugueses (…)”
Antes de ser rei de Portugal era rei dos portugueses. Uma frase destas tem peso.
Pouco mais me resta acrescentar a esta obra, excepto talvez referir o bom gosto de usar os painéis de São Vicente de Fora para capa da mesma. Trata-se, sem margem para discussão, da mais importante obra da História da pintura portuguesa.
É uma triste partida da ironia que esta colecção surja precisamente na semana em que morreu José Hermano Saraiva, um dos homens a quem este país mais deve o descobrir e partilhar da sua História.
Dito isto, para terem ideia do quão facilmente se devora este(s) livro(s) posso dizer que até na praia o tenho lido. Termino, em tom de manifesto agrado, com uma frase que quando a li me fez chorar a rir, e que transcrita aqui, fora do contexto, ainda mais piada tem.
“É provável que Portugal tenha sido um dos últimos refúgios dos neandertais”.
Yup… quanto a isso estamos de acordo!