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segunda-feira, 22 de junho de 2015

"Este é o tempo"

Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner (1958)



(Parque dos Poetas – Oeiras)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Capitão Falcão




Saudações patrióticas! Esta é a segunda vez em dois anos que falo de cinema Português. Tendo em conta que nas anteriores três décadas nunca havia visto (no cinema, pelo menos) qualquer filme na mais nobre língua da Humanidade, sinto-me a transbordar de patriotismo. Mas, importa perguntar: terei eu gostado tanto de "Capitão Falcão" como gostei de "A Gaiola Dourada"?
Há já uns dois anos que ando a "ouvir coisas" deste projecto. É o que dá viver em Portugal, esta imensa aldeia onde há sempre alguém que é amigo do amigo de um amigo do realizador do filme. Inicialmente até nem estava muito atento à coisa, mas quando há cerca de um ano vi o primeiro trailer... Opá, é difícil resistir a um super-herói Português, com bigode (obviamente), a desancar em comunistas vestidos de fato-macaco armados com foices e martelos!
Pois bem, Capitão Falcão é uma delícia! Um daqueles "prazeres culpados" (este é um texto patriótico, portanto nada de utilizar estrangeirismos) que nos fazem bem à alma. Para quem foi raptado por comuninjas, e tem passado os últimos meses aprisionado numa cave escura, há que dizer que Capitão Falcão é um filme de super-heróis passado no Portugal da década de sessenta, onde o intrépido Capitão Falcão e o seu leal companheiro, Puto Perdiz, defendem Portugal e o Senhor Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, das ameaças do Comunismo e da Democracia. Sim, é uma comédia. Convém explicar isso desde já, não vá dar-se o caso de algum Espanhol estar a ler isto. Mais: é uma comédia politicamente incorrecta, e com doses de nonsense (ooops, estrangeirismo) muito ao estilo da comédia Britânica.
Há dois tipos de reacção possível ao filme: há quem delire com algo tão estapafúrdio, que tem a inteligência de não querer passar por "pseudo-humor pseudo-intelectual", e que soltará sonoras gargalhadas a cada "bolo de arroz" (não vou explicar), e há quem ache isto "uma coisa totalmente estúpida, ridícula, e sem qualquer nexo". As pessoas que se enquadram no segundo tipo são, por definição, Espanhóis.
O humor em Capitão Falcão é disparatado, absurdo, delirante, e é uma sátira hilariante que conjuga um Portugal bafiento com um "Batman Pop Anos 60". E é de chorar a rir. Há frases tão bem colocadas que ficarão na memória ao jeito de um "Why so serious?". O texto é deliciosamente inoportuno, e isso faz-me dar saltos de alegria na cadeira. Estou mais do que farto desta sociedade amorfa e borrega onde ninguém pode usar expressões que possam eventualmente ferir a susceptibilidade de qualquer indivíduo coitadinho que fique com traumas psicológicos para o resto da vida porque ouviu uma expressão feia que não se pode reproduzir. Religião? Raça? Género? Nada escapa ao mordaz argumento do filme. É, repito, um "prazer culpado".
É curioso ver que muitos dos envolvidos no filme estão de alguma forma ligados ao extraordinário "Odisseia", da RTP, de que falei na altura (link), e que foi das coisas mais brilhantes de produção nacional nos últimos anos (que infelizmente passou meio despercebido no meio da tanta bosta com que as nossas simpáticas televisões nos brindam). Pelo meio, há um sem-fim de referências a outros filmes e séries. A principal, como não poderia deixar de ser, é a série do Batman dos anos 60 (as cenas na mota com sidecar são primorosas), mas também há Guerra das Estrelas, Monty Python e o Cálice Sagrado, Power Rangers, os filmes de artes marciais do Jacky Chan e companhia.
A parte menos boa do filme será porventura a direcção de actores. Não será um problema específico do filme, mas mais uma questão com o "estilo Português". Fico sempre com a sensação que os nossos actores estão a declamar, ou então assumem uma postura mais adequada ao teatro de revista. Gonçalo Waddington (mas que raio de estrangeirismo anti-patriótico!!!) já demonstrou ser um bom actor (relembro: Odisseia), e aqui assume uma onda muito over-the-top a beber um pouco dos trejeitos de Herman José nos seus saudosos sketches. Curiosamente, o actor que me pareceu melhor em todo o filme é precisamente um dos que nem abre a boca: Luís Vicente, que faz de Lenine, o mestre do transformismo (Bolo de Arroz?). Tenho pena que Nuno Lopes tenha "passado de raspão" pelo filme (é o mítico comuninja), pois é muito provavelmente o melhor actor Português da actualidade. Haja esperança por algo mais para um Capitão Falcão 2  (há cena após os créditos que para isso aponta!).
Não se pode falar de Capitão Falcão sem falar da banda sonora. Não sei se terá sido João Leitão (o realizador) a convidar Pedro Marques para tratar da música do filme, mas ao autor da ideia só consigo dizer: MUITO OBRIGADO! Que trabalho GE-NI-AL. A inspiração "pop-Batman-60's" a imprimir um cariz vibrante e cheio de energia ao filme é um deleite. A qualidade da música é verdadeiramente fabulosa e carrega o filme às costas. Já tentei procurar por mais informações sobre Pedro Marques, mas o Google não me ajudou muito. Mas quero estar atento ao trabalho deste senhor. Tal como Spielberg disse que metade do sucesso dos seus filmes se devia à música de John Williams, também João Leitão o pode dizer em relação a Pedro Marques. Aqui, temos Duo Dinâmico!
Julgo ter dito o que havia a dizer sobre Capitão Falcão. Haverá certamente muita gente cinzenta, que se leva demasiado a sério, e que não saberá apreciar uma sátira ligeira, sem compromisso, que faz um elogio ao absurdo, e joga com um sem-fim de influências divertidas. E, mais do que tudo isto, demonstra que FAZER HUMOR não é meramente dizer dez vezes merda e mais umas quantas caralhadas, e de seguida rir de forma boçal.
Resta-me terminar este artigo brindando todos os patrióticos leitores deste blogue com um sonoro:
ÉS PORTUGUÊS OU ÉS ESPANHOL?!?!?!
ÉS PORTUGUÊS OU ÉS ESPANHOL?!?!?!


Pelo Melhor
Além da já referida extraordinária música, o genuíno talento Português de rir de nós próprios. Ser inconveniente, arriscar, procurar fazer algo fora do habitual. Vai sendo raro nos dias que correm. Fazer rir num país cada vez mais triste é obra! Obrigado.

Pelo Pior
Lembrar que os pais de D. Afonso Henriques eram Espanhóis! HERESIA! Isto é mais ofensivo do que insinuar que eram... COMUNISTAS!!!

E como neste blogue também há cenas extra após os créditos, tomem lá que vale a pena:

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha.



A História do meu país é um dos temas mais fascinantes que existem. Em tudo o que tem de bom, bem como naquilo que tem de mau. Mesmo naquele período de 60 anos que sucedeu à Dinastia de Avis, onde um trio de impostores denominados Filipes (escusado será dizer que jamais darei esse nome a um filho meu!) assentou arraiais (mais ou menos) nas margens olissiponenses.
É precisamente este enquadramento que serve de mote à magnífica exposição que o Museu Calouste Gulbenkian acolhe entre 22 de Outubro de 2014 e 25 de Janeiro de 2015. Como o nome da exposição indica, o espólio que a constitui veio essencialmente dos muitos palácios espanhóis, bem como de outros locais com peças associadas ao tema.
A organização da exposição encontra-se dividida em duas partes, uma evocativa do período que antecedeu a chegada dos Filipes, e a sua “presença”, e outra centrada nos séculos XVIII e XIX, mais ligada a Dona Isabel de Bragança, ao Museu do Prado, e a Goya.
A primeira parte da exposição é verdadeiramente fascinante. A sua própria disposição é feita de forma a acolher os visitantes num intimismo raro, onde somos bombardeados logo à entrada com quadros e armaduras capazes de nos fazer sentar e respirar fundo. Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, uma das figuras mais importantes da Europa medieval moderna (perdoem-me as imprecisões linguísticas), é quem nos abre as portas da galeria, ao lado do seu filho, Filipe II de Espanha. Duas armaduras absolutamente magníficas, pertencentes a ambos, estão expostas logo ao iniciar da viagem. Ao lado da armadura de Carlos V (cujos detalhes são de levar uma pessoa às lágrimas) encontra-se um quadro do próprio a envergá-la. A simbiose é um deleite para os olhos e para a alma. E depois, este escriba tem a sorte única de visitar museus na companhia de amigos que percebem de História “como gente grande”, e que fazem o favor de me rechear de detalhes, e estabelecer as ligações entre famílias, períodos, acontecimentos, e até chamar a atenção para o facto de Carlos V ser pintado com o colar da Ordem do Tosão de Ouro. Visitar museus é excelente. Visitá-los nesta companhia é um luxo!

 (Retrato de Carlos V armado, Juan Pantoja de la Cruz, 1608. Fonte: link)
A exposição vai dançando entre tapeçarias monumentais, pinturas dos palácios reais espanhóis, retratos de quem fez a História, como é o caso do nosso malfadado D. Sebastião, mobiliário, esculturas, e peças de joalharia. Há de tudo um pouco, sempre com o cuidado de enquadrar devidamente a presença de cada peça no espírito da exposição.
Para além das presenças obrigatórias para explicar os factos que levaram à dinastia filipina (amaldiçoado seja o seu nome para toda a eternidade), esta História Partilhada acolhe ainda obras únicas de artistas como Caravaggio e El Greco, sem esquecer os apaixonantes livros de cantigas. Esta viagem no tempo é avassaladora, e é das exposições mais bem construídas que visitei até hoje. O trabalho que faz para explicar, até mesmo ao mais leigo dos visitantes, as relações familiares entre Portugal e Espanha no século XVI é prodigioso. Ficamos com um retrato rico, completo, e de uma abrangência considerável. Não é apenas pintura, não é apenas escultura, não é apenas armaria. É História viva, que percorre todas as artes e nos deixa muito mais do que um vislumbre do que era há 500 anos o local que actualmente pisamos.
Quanto à segunda parte da exposição (situada noutro ponto do museu), prefiro não falar muito porque achei-a tão fraquinha quando comparada com a primeira… Entende-se o “sentido”. Mais associada à Dinastia Bourbon (de onde o actual rei de Espanha descende), não só as obras que apresenta são manifestamente desinteressantes na sua maioria, como o próprio espaço é muito pouco acolhedor. Nem a presença de uns quantos quadros de Goya parecem salvar aquele espaço.
Em suma, para quem gosta de História, para quem gosta de Arte, e para quem tem simplesmente bom gosto, esta A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha. é imperdível. Há que agradecer ao Museu Calouste Gulbenkian e ao Patrimonio Nacional por esta parceria que tão extraordinário resultado proporcionou. Recomendo vivamente a visita até 25 de Janeiro de 2015.
E, só para terminar “ao meu bom estilo” com uma farpa… Patriota que se preze visita a exposição na véspera do 1º de Dezembro! ;)


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Estes Últimos 4 Meses em Portugal



Imaginemos que eu era um estudante de Erasmus e que tinha vindo a Portugal para fazer um estágio. Logo à chegada a Lisboa, nos primeiros dias de Agosto, fico a saber que um banco desapareceu durante um fim-de-semana.
Pelos vistos, por agravada trafulhice, isto leva a uma série de consequências, entre as quais a insolvência de várias empresas espalhadas por esse mundo fora. Ao que tudo indica, o tal banco estava cheio de buracos, apesar de dias antes o Governo, o Presidente da República, e o Governador do Banco de Portugal assegurarem a toda a gente que podiam investir à vontade no banco, porque este era inteiramente sólido.
Não bastando o referido, a 2ª ou 3ª maior empresa do país leva um tiro no porta-aviões porque aparentemente decidiu emprestar 900 milhões de Euros ao dito banco, sem ninguém perceber exactamente porquê.
Dias depois, tomo conhecimento que há uma tempestade qualquer na Justiça, pois os tribunais “mudaram de sítio”, e uma coisa chamada Citius impede o acesso a uma catrefada de processos judiciais durante uma data de tempo.
A ministra diz que houve sabotagem.
O Ministério Público diz que não houve.
Em simultâneo, dá-se a abertura do ano lectivo. Mas afinal não se dá, porque os professores parece que não foram colocados. Ah, afinal já foram colocados. Não, pelos vistos foram agora descolocados. Esperem, agora foram colocados cem vezes em sítios diferentes.
O ministro explica. É tudo uma questão gramatical: “Mantêm-se é diferente de manter-se-ão!”
Passou-se um mês, e ainda não há aulas. Acho tudo isto absurdo, mas pode ser que os nativos estejam habituados e achem isto normal.
Decido dar um salto até à Assembleia da República. Vejo um ministro a fazer figuUUUUUURA de paAAAAARVO, e um secretário de estado quase à estalada com um deputado em acesa disputa por – imagine-se! – um microfone. Parece haver uma espécie de “inconseguimento” nesta gente eleita por este povo.
Ainda meio atordoado, fico a saber que há suspeitas de corrupção ao mais alto nível, à conta de uns tais “visto gold”, que envolvem presidentes de institutos, directores da polícia, secretarias de estado, arrasta onze pessoas aparentemente de elevada importância em instituições públicas para a prisão, e provoca a queda de um dos três ministros mais importantes do governo. Pelo meio, o vice-primeiro-ministro faz publicidade à REMAX.
Já completamente sem saber para que lado me virar, eis senão quando um ex-primeiro-ministro é detido à saída do avião, tendo as televisões cá fora a filmar a saída do aeroporto. Passam três dias de total estupefacção, com carros da polícia a entrar e a sair de garagens como se o mundo estivesse a acabar, enquanto alguns tipos agitam bandeiras do PNR. O Campus da Justiça tem a interessante particularidade de permitir às câmaras de televisão filmar os interrogatórios a partir do exterior, o que é algo deveras suis generis.
Passados três dias com uma guerra civil quase a irromper no país, é decretada a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro, estando anunciada a comunicação para as seis da tarde, que depois passa para as sete, esperem, afinal é às oito, olha está atrasada, talvez lá pelas dez e meia…
Pego nos jornais do dia seguinte para tentar perceber o que se está a passar, mas as notícias em destaque o que me dizem é que o ex-primeiro-ministro está detido na aula feminina da prisão, e que almoçou cozido à Portuguesa, tendo pedido livros de Filosofia em francês à ex-mulher.

Espera-se a qualquer momento que a Teresa Guilherme pare de dirigir este reality show em que este país mergulhou nos últimos quatro meses.

E agora, que estou prestes a terminar o meu estágio, e a voltar ao meu país de origem, apresento-vos o título da minha tese: Ainda acham estranho que os únicos que metem dinheiro neste país sejam chineses, angolanos e russos?

NOTA: Este trata-se, OBVIAMENTE, de um trabalho ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é, OBVIAMENTE, pura coincidência.



terça-feira, 15 de julho de 2014

O Mercado Medieval de Óbidos



Diz que esta coisa das Feiras Medievais está na moda… Não há terrinha para lá do Sol-posto onde não haja agora uma destas feiras. A experiência anterior que tinha não era muito convincente, dado que tinha ido a uma minifeira onde apenas havia meia-dúzia de tendas a vender “coisas”. Andava, no entanto, há já algum tempo com vontade de ir espreitar a de Óbidos (mais correctamente: o Mercado Medieval), dado ser a mais badalada. E assim, no Ano da Graça do Senhor, MMXIV, lá peguei no meu cavalo, na minha bolsa cheia de reais, e rumei à mui nobre e sempre leal Vila d’Óbidos acompanhado por um bando de ébrios peregrinos…

Aos visitantes é dada a possibilidade de pagar um pouco mais pelo bilhete e com isso alugar um traje. Obviamente, chulo capitalista como sou, vesti-me de Cavaleiro Templário. Sim, aqueles que eram conhecidos por ter dinheiro a jorros, e cobrar juros de usura, e que foram os fundadores do actual sistema bancário (já agora, uma vez que estão a ler isto, aproveitem para estudar um pouco de História – faz sempre bem! – e descobrir uma série de elementos extraordinários relacionados com a Ordem dos Templários. Por exemplo: sabem que a superstição da sexta-feira 13 está-lhes associada?).

A localização do mercado é extraordinária, pois brota em redor do castelo, que de qualquer ponto surge imponente a olhar para os visitantes. Não há muitos sítios onde a cenografia funcione tão perfeitamente. Há um cuidado grande por parte da organização em manter a tónica medieval. Nos vários sítios de “comes e bebes” não há talheres ou copos de plástico. Quase tudo é servido em louça de barro: a cerveja, as sopas, o café, a bela da ginja (!!!). O problema é que isso acaba por encarecer o produto final. Pagas o café e o copinho de barro, que depois acabas por levar para casa. É giro, mas ao fim do dia vim para casa com uma caneca de barro, um copo de shots de ginja, e uma “coisa qualquer esquisita” onde bebi o café. Tal como disse uma das nobres damas que ia no nosso grupo: “devem achar que a malta quer fazer um enxoval”. Espero que ao menos estas coisas sejam feitas para animar as fábricas de artesanato local, e que não sejam importadas da China… Senão, da próxima vez que lá for pego fogo ao castelo.
Ainda falando de comes e bebes, a comida é barata e (geralmente) boa. Paguei 6€ por uma espetada de fazer lamber as beiças, acompanhada por açorda (ou migas), azeitonas, e bem regada com jarros de cerveja!
Para além dos sítios onde se pode gastar dinheiro, há também alguma oferta de animação cultural. Temos sempre as “Brízidas Vaz” que piscam o olho aos visitantes (até aos guerreiros santificados, veja-se o desplante!), os soldados cordiais que se passeiam pelas ruas a berrar “SAIA DA FRENTE!” a quem não dá pela sua chegada, e um sem-fim de bandas que tocam música de inspiração medieval. Estas últimas, ao fim de algumas horas, tornam-se cansativas, porque tocam quase todas a mesma coisa, e são geralmente compostas por 4 ou 5 elementos, onde um ou dois tocam gaita-de-foles, e os restantes tocam tambores.
Tenho pena que a oferta musical não ofereça, por exemplo, trovadores que cantem algumas das canções da época. Temos tantos cancioneiros… Podiam, também, aumentar a oferta de teatro. Algumas peças inspiradas nos tempos medievais iam certamente ser muito bem recebidas pelo público, e é algo que não falta por aí. No dia em que lá fui, houve apenas uma encenação do confronto entre os homens de D. Sancho II e os de D. Afonso III, mas que foi verdadeiramente mais uma demonstração de luta de espadas do que propriamente teatro.
Depois há o cortejo, duas vezes ao dia, que reúne todos os figurantes num passeio pela vila, desde a zona do mercado até aos portões, atravessando aquela maravilhosa rua tão Portuguesa, de piso irregular, cheia de casas baixinhas, de cor clara, e varandas cheias de flores. Portugal é maravilhoso!
E não podiam faltar as aves de rapina. Os falcões, as águias, e os apaixonantes bufos sempre com o seu adorável ar de “tocas-me nas sobrancelhas, levas um pontapé no focinho”. Tive pena que não tivessem direito a maior destaque. Estavam apenas confinados a uma tenda onde as pessoas os podiam ver, e ao fim do dia pudemos ver uma águia de Harris a fazer uns voos rasantes sobre as cabeças dos transeuntes. Mas queria mais! Não chegou sequer a arrancar uma única orelha aos espectadores…

E como o melhor se guarda para o fim, venham os torneios! Só pelo que já referi vale a pena dedicar um dia a visitar este Mercado Medieval de Óbidos, em especial se for em boa companhia (gente que goste de cerveja e ginja – ai a ginja!!!!!), mas os torneios – liças – são a ginja em cima do bolo. Todos os dias, duas ou três vezes, são feitos torneios a cavalo com toda a pompa e circunstância. E aquele pessoal não brinca. Usam os cavalos a sério, não hesitando em fazer investidas a toda a velocidade. É um espectáculo lindo, em especial o Grande Torneio que é feito ao pôr-do-Sol. Tudo é feito com direito a cicerone que apresenta os contendentes ao som de Game of Thrones e… Transformers. Até têm um bufão para animar o pessoal, que joga muito bem com um dos cavalos que gosta de chegar ao fim de cada corrida e sentar-se no meio do chão. Muito giro.



Pelo meio há um cavaleiro negro, a fazer de mau da fita, e que trata mal o público, não tem respeito pelas regras, faz batota, usa golpes baixos… e no fim é o preferido dos miúdos! Estou assustado com a cambada de psicopatas de 10 anos que este país está a criar, que apupa os cavaleiros virtuosos, e berra que nem bezerros cada vez que entra em cena o mauzão. Já depois de terminado o torneio, os cavaleiros bonzinhos retiraram para os estábulos, e o Darth Vader medieval teve que ficar para trás porque todos os miúdos queriam tirar fotografias com ele. Fujam deste planeta enquanto podem!
Concluindo: muito giro, cheio de animação, com muito potencial para melhorar. E quem quiser saber mais: http://mercadomedievalobidos.pt/