Música. Literatura. Cinema. Banda Desenhada. História. Portugal. Cultura. Sociedade. Uma perspectiva sobre o que a Humanidade faz de melhor. De Beethoven a Jodorowsky. De Dune a SPQR. Gnothi Seauton.
Venho pela presente declarar guerra, unilateralmente, e sem o aval das
Nações Unidas, aos outdoors das campanhas eleitorais! E, já agora, a todos os
outros. Estou à beira de me tornar uma espécie de D. Quixote e atravessá-los com
uma lança de um lado ao outro.
Todos os concelhos por onde passo estão vandalizados por estas belos
pedaços de “mobiliário urbano”. Não sei quem teve a feliz ideia de apelidar
isto de “mobiliário”, pois confesso que em casa não tenho vontade de pegar num
machado e desfazer a mobília. Em cada rotunda amontoam-se por vezes 4 ou 5 de
todas as cores, com carantonhas gigantescas, e frases que denotam um
brilhantismo único. Deve haver um catálogo com estas frases, pois são todas de
uma qualidade que os seus autores são sérios candidatos aos Prémios Camões,
Pessoa, e porventura ao Nobel da Literatura.
Até na Estrada Marginal – a mais bela do país, e uma das mais bonitas da
Europa – a cada 100 metros somos brindados com esta trampa. Vai uma pessoa a
conduzir, a olhar para o mar, e pumba!, leva com um penico daqueles nas ventas.
Se fossem todos…
E dadas as minhas claras limitações intelectuais, alguém é capaz de me
explicar em que momento da sua vida decidiu em quem é que ia votar ao olhar
para um outdoor? Confesso que não me estou a ver a dar voltas numa rotunda, a
olhar para os outdoors todos, e num súbito momento de inspiração: “Ha! É
naquele!”.
Não conseguem fazer campanha sem esta selvajaria? Sem vandalizar o espaço
público? Sem rebentar com calçadas, relvados, e inventar os sítios mais
mirabolantes para escarrapachar aquelas cagadas de Arte Moderna?
Dá vontade de arrancar com uma espécie de “compromisso secreto entre
todos os eleitores” para a malta se recusar a votar em qualquer candidato que use
outdoors.
Raios partam estes tipos! Fazem-me lembrar quando era miúdo e o circo vinha
à cidade, os prédios todos atafulhados com cartazes cheios de cor a anunciar o
circo. E depois colavam uns 10 seguidos, todos juntos, que era para terem a
certeza que a malta percebia mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, que
vinha aí circo! Enfim, mas esses ao menos anunciavam algo que nos fazia rir, e
enchia de alegria. Estes “novos artistas circenses” só nos fazem chorar…
Antigamente vigorava aquela máxima “o
cliente tem sempre razão”. Apesar de ser obviamente um exagero denotava o
cuidado e atenção que existia para com os clientes. Infelizmente, mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades, e os clientes são cada vez mais tratados como
números (ou como bichos). Falta de educação básica por parte de quem atende
está muitas vezes na origem das queixas dos clientes, mas a fraca qualidade da
prestação de um serviço não deve ser de modo algum deixada em branco.
Muitas vezes indignamo-nos com certas
atitudes, mas como somos um país de brandos costumes, acabamos quase sempre por
encolher os ombros e assumir a postura de “não vale a pena uma pessoa
chatear-se”. Errado. Quanto menos mostrarmos a nossa indignação, mais vão
abusar da nossa boa-fé.
É para isso que existe o “Livro de Reclamações”.
Infelizmente as autoridades Portuguesas nunca se preocuparam muito em informar
os cidadãos quanto aos seus direitos, e quanto ao recurso ao Livro. Limitam-se
a exigir que seja colado um poster na parede a dizer “neste estabelecimento
existe livro de reclamações”.
Um cidadão não deve hesitar ou “ter
vergonha” de exigir o Livro
de Reclamações quando confrontado com uma situação que
entenda ser lesiva para a sua dignidade, nem deve vacilar quando alguém “vai
chamar um qualquer chefe” que cheio de paleio tenta dissuadir a pessoa de
apresentar a reclamação, ou até mesmo intimidá-la. Se for esse o caso, o
cidadão até deve apresentar duas queixas distintas no Livro.
A Lei obriga a que uma reclamação seja
declarada no espaço de cinco dias úteis à autoridade competente (e que
erradamente, a meu ver, não é apenas uma autoridade, mas varia consoante o
sector). Aquando do preenchimento, este é realizado em triplicado, sendo que
uma cópia é para o queixoso, outra é para o estabelecimento/serviço sobre o
qual pende a reclamação remeter à autoridade, e a terceira cópia fica sempre no
livro, não podendo ser removida. Antes de um
cidadão preencher uma reclamação deve fazer um rascunho, enunciando claramente
os motivos da sua queixa, e deve fazê-lo num texto curto e objectivo. Devem ser
evitadas quaisquer “adjectivações feitas com a cabeça quente”, ou juízos de
valor. Posteriormente, o reclamante pode (e deve) enviar uma cópia da folha que
ficou consigo para a administração da empresa e para a autoridade competente.
Sempre que possível e necessário devem
ser guardadas todas as facturas, e anotadas todas as datas, horas, e outras
informações relevantes. Se o caso for particularmente grave, devem ser procuradas
testemunhas, ou contactado um advogado.
As autoridades competentes irão então
avaliar o caso e, se assim o entenderem, poderão multar a entidade sobre a qual
recai a reclamação.
Esta é a única forma de garantir que
somos respeitados, e que os abusos de que fomos alvo não se repetem com outras
pessoas.
Eu já apresentei reclamações relativas
a um fornecedor de energia, a uma grande superfície comercial, a um operador de
comunicações, a uma empresa pública de estacionamento, e a uma câmara municipal,
entre outros. A conclusão a que cheguei é simples: dirigir uma reclamação à
administração de pouco ou nada serve, porque não se dignam a responder, ou
fazem-no com aquelas cartas pré-formatadas onde nos garantem que “o nosso
contacto foi alvo do mais alto interesse e que nos estão gratos por
blablablablabla”. Na queixa que apresentei no referido operador de comunicações
até tiverem a “nobilíssima atitude” de mandar um desgraçado do call centre
telefonar-me, para dar resposta à minha queixa, mas onde o pobre coitado nem
sequer tinha tido acesso à carta que eu enviara, e portanto nem sabia ao certo
do que tratava o assunto. Eu agradeci-lhe a atenção, respeitando o trabalho
dele, e disse que não valia a pena continuar com o telefonema.
Moral da história: se acham que a
reclamação merece a devida atenção, peçam o livro. Mais informações a
respeito deste procedimento podem ser consultadas no site da Deco: link Para pedir
informações ou aconselhamento, pode ainda ser contactada a ASAE, autoridade que
fiscaliza boa parte dos sectores em questão.
Nota: Este blogue NÃO dispõe de Livro
de Reclamações.
Humanidade. Sociedade. Civismo. Assim mesmo, por ordem
decrescente. E cada vez mais decrescente. Vivemos cada vez mais em sociedade, e
estamos cada vez menos humanos.
Dizem os sociólogos e os antropólogos que os seres
humanos “estão formatados” para viver em comunidade, e que tal é parte da nossa
evolução natural. Resta a pergunta: o que significa isso ao certo na
mentalidade dos dias de hoje?
Já vinha há uns tempos a pensar escrever sobre disto, mas
duas notícias destes últimos dias levaram-me a fazê-lo sem mais demoras. Já
todos devem ter visto a notícia de uma menina de dois anos que foi atropelada
num mercado na China, e pela qual passaram várias pessoas que simplesmente
ignoraram. Durante quase 15 minutos. A menina chegou a ser atropelada por duas
carrinhas. Mesmo para quem tem estômago de ferro as imagens são perturbadoras.
Depois disto, no jornal Público, vejo uma notícia que dá
conta de um rapaz de 19 anos que foi morto à facada na zona de Sintra por
tentar impedir que um bando roubasse um boné a um miúdo. A notícia pode ser
vista aqui.
Muitos poderão ler isto e dizer: ora, isso são dois casos
isolados, em nada espelham o que a sociedade é. Pois, o problema é quando se
sucedem casos como estes. Recentemente vi uma reportagem (julgo que da BBC)
referente a uma experiência que fizeram, e que passava por uma pessoa dar
sinais de estar cheia de dores e cair nas escadas da mais movimentada estação
ferroviária de Londres. Dezenas de pessoas passaram, desviando o olhar, pura e
simplesmente ignorando a situação, sem sequer um simples “está a sentir-se
bem?”.
Há também pouco tempo surgiram imagens de Nova Iorque
onde um sem-abrigo impede um assalto, é esfaqueado, cai ao chão, e fica a
esvair-se em sangue até morrer durante horas, sem que uma única pessoa o venha
ajudar. Houve quem parasse para lhe tirar fotografias.
Em que ponto é que começámos a perder o nosso civismo e a
abdicar da nossa humanidade? Inúmeros são os casos de pessoas que desviam a
cara quando vêem alguém a precisar de ajuda no meio da rua.
Estes são exemplos extremos, mas o nosso quotidiano está
cheio de situações destas. Ao entrarmos nesta “mentalidade de manada”
tornamo-nos cúmplices. Quem cala, consente.
Esta degradação vem instalando-se aos poucos, ao longo
dos últimos anos. A educação tornou-se algo tão escasso como os combustíveis
fósseis. Começou com o simples acto de as pessoas deixarem de dar os “bons dias”.
Há uns anos trabalhava num desses modernaços parque tecnológicos, cheios de
empresas de informação e tecnologia. Quando passava num corredor e dizia “Bom
Dia”, fazia-se silêncio, ficavam a olhar para mim em estado de choque. No tempo
do meu avô os homens de bem davam os bons dias, tiravam o chapéu, e faziam uma
ligeira vénia. Hoje, muitas vezes, olha-se com incredulidade para quem diz “Bom
Dia!”.
Quando andava na escola, respeitávamos os professores.
Hoje os alunos berram – quando não agridem – com os professores por estes os
mandarem largar os telemóveis no meio da aula.
Pode parecer dramatismo, mas é precisamente aqui que se começa
a destruir uma sociedade. Quando nos tornamos complacentes com a ausência da
educação básica. A passividade boçal com que a maioria das pessoas
urbanas/modernas/citadinas/desenvolvidas(?) exibe um sorrisinho amarelo do “não
é nada comigo”.
Cada vez que tomamos conscientemente a decisão de nos
afastarmos, não ter trabalhos, não nos incomodarmos, não arranjar chatices,
seguir a corrente, contribuímos activamente para destruir um pouco mais aquilo
que demorámos vários milhões de anos a evoluir.
Quando vemos um velho a pedir no meio da rua desviamos o
olhar e dizemos “agora não tenho nada”. Meia hora depois estamos numa esplanada
a comer um Magnum Amêndoas. À noite, dormimos na nossa casa com o aquecimento
ligado nos 23ºC. O velho dorme num cartão no meio da rua – o mesmo que nos faz
atravessar a rua para o outro lado quando “não o vemos”. Quando passamos por
uma campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar entregamos um saco com
duas latas de salsichas “porque os tempos estão difíceis e temos todos que
poupar”. À noite, deitamos metade do jantar fora porque “já estamos cheios”.
Graças ao Banco Alimentar, nessa mesma noite, há pessoas que podem ter o luxo
de comer um iogurte.
Um homem caído no meio da rua nem sempre é um bêbedo. E
mesmo que o seja, continua a ser tão humano como nós. Por
vezes até mais.
On the
turning away
From the pale and downtrodden
And the words they say
Which we won't understand
"Don't accept that what's happening
Is just a case of others' suffering
Or you'll find that you're joining in
The turning away"
It's a sin that somehow
Light is changing to shadow
And casting it's shroud
Over all we have known
Unaware how the ranks have grown
Driven on by a heart of stone
We could find that we're all alone
In the dream of the proud
On the wings of the night
As the daytime is stirring
Where the speechless unite
In a silent accord
Using words you will find are strange
And mesmerized as they light the flame
Feel the new wind of change
On the wings of the night
No more turning away
From the weak and the weary
No more turning away
From the coldness inside
Just a world that we all must share
It's not enough just to stand and stare
Is it only a dream that there'll be
No more turning away?