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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Filhos da Madrugada Cantam Zeca Afonso



Portugal tem no século XX um património musical inestimável. Muitos foram os intérpretes e compositores que para tal contribuíram, desde a música tradicional ao rock, sendo Zeca Afonso porventura aquele que mais se destacou.
Toda a gente conhece o legado musical de Zeca Afonso, sejam as canções de intervenção, sejam as músicas populares. As suas letras marcaram, e continuam a marcar, a cultura nacional. Quem não conhece, pelo menos, o refrão d’Os Vampiros? Não existe música portuguesa sem Amália e Zeca Afonso.
Eu sou de uma geração posterior a Zeca Afonso, portanto já só o conheci “em segunda mão”. O que conheci em primeira mão foram as muitas bandas absolutamente geniais que Portugal viu nascer e/ou crescer nos anos 80 e 90 (quando o Q.I. global da Humanidade ainda não tinha atingido valores negativos). Madredeus, Resistência, Sitiados, Xutos & Pontapés, são apenas alguns dos nomes que fizeram parte da minha infância. E são também os nomes que vim a encontrar, por acaso, todos reunidos num CD de tributo a Zeca Afonso… que data de 1994!
Não fazia ideia que existia este “Filhos da Madrugada Cantam Zeca Afonso”, e quando o vi no “templo do consumo” do costume fiquei ainda alguns minutos de nariz torcido a pensar “hmmm, isto às tantas é capaz de ser uma grande banhada”. Mas os nomes que constavam no CD falavam por si próprios, e por seis euros…
E de repente, numa expressão popularmente portuguesa, caí de cu. O duplo-CD reuniu em 1994 (não é difícil perceber o porquê da data, basta fazer as contas e não ser completamente ignorante) alguns dos principais nomes da música nacional da altura. Para além dos que já mencionei lá em cima é ainda possível encontra GNR, Ritual Tejo, Sétima Legião, UHF, Delfins, etc. O resultado é assombroso! Épico, em alguns casos. São as canções geniais do Zeca reinterpretadas por uma nova geração de autores. Bem sei que esta onda das reinterpretações na grande maioria dos casos corre muito mal. Aqui, felizmente, não podia estar mais longe da estatística.
Desde logo, a abrir o primeiro CD, “Maio maduro Maio” no estilo brilhante dos Madredeus, ao que se seguem outras interpretações fabulosas como “A formiga no carreiro”, pelos saudosos Sitiados, e onde destaco “Canto Moço”, pelos Ritual Tejo.

O segundo CD é bastante mais fraco, embora tenha alguns temas interessantes. Na sua maioria parece que a decisão de quem organizou a colectânea foi “deixar os restos para o fim”.
Ouvir Zeca Afonso é sempre uma delícia, e ouvi-lo pelas vozes de uma geração de músicos talentosos é um prazer imenso. Estas jóias da nossa História e da nossa cultura não podem cair no esquecimento.
Resta-me falar da minha canção preferida de Zeca Afonso: “Canção de Embalar”. É uma das criações monumentais do nosso património artístico, daquelas que disputam o pódio com “A Canção do Mar” (onde, heresia, prefiro a versão da Dulce Pontes), ou “O Pastor” (sempre, sempre, sempre Madredeus). A letra d’A Canção de Embalar é um colosso. A música não lhe fica atrás. E a forma como o Zeca a cantou… é daquelas coisas que deixam uma sala em silêncio. Tendo isto em conta, era obviamente a canção que mais me “preocupava” no álbum. A interpretação era dos “Diva” (confesso o meu pecado, não os conhecia). Estaria à altura? Já tinha ouvido várias versões desta obra-prima, e a maioria justificava um processo em tribunal por crime de atentado contra o património... Caí de joelhos. Não era possível! Pegaram num tema genial e tornaram-no divino. Não há palavras depois disto. É apenas fechar os olhos.

Magistral. Conseguir descobrir uma coisa destas “perdida nos confins da História de Portugal” é um sonho. Que saudades destes tempos em que Portugal tinha bandas de uma qualidade grandiosa, por oposição aos cretinos que nos dias que correm pegam numa guitarra acústica, dizem umas banalidades com voz engonhada, e acham que são artistas.
Há que não deixar cair no esquecimento este nosso vasto património musical. Até porque – e apesar de eu ter prometido a mim próprio nunca falar de política neste blogue – as palavras de Zeca Afonso fazem cada vez mais sentido hoje em dia…

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Aurea


Há alguns dias falei por alto de Aurea, uma das revelações recentes na música nacional. Pouco depois disso decidi-me a comprar o seu álbum de estreia. Tenho andado fascinado com a miúda desde então!
Certo, ser toda gira ajuda imenso, mas para o caso falo da sua voz e da sua música. Com excepção do seu single de estreia “Busy for me” as principais rádios Portuguesas têm-lhe dado pouca atenção (continuo diariamente a ser bombardeado com Lady Gagada e uns tantos DJ supostamente da moda). Típico.
Todo o álbum é de uma qualidade surpreendente. Não é só a voz linda que ela tem, é também a variedade, a qualidade da música e até de algumas letras. A canção que – de longe – mais me apaixonou é uma daquelas que nunca vai ser conhecida, pois é demasiado arrojada. Chama-se “The Witch Song”.

A produção é deslumbrante, a capacidade vocal surpreendente, e eu quero casar-me com esta mulher! Quem lhe criou a canção (o CD diz: Ricardo Ferreira, João Pedro Matos e Rui Ribeiro) merece um prémio Nobel. Faz-me recordar algo do “The Wall” dos Pink Floyd misturado com algumas bandas sonoras de filmes da Disney compostas pelo Alan Menken.
Pois bem, a moça acaba de vencer o “Best Portuguese Act” da MTV Portugal e vai concorrer ao “Worlwide Act” dos MTV Europe Awards (seja lá isso o que for). Não me admirava que lhe acontecesse o mesmo que à Mariza: só depois de ganhar um prémio internacional é que cá dentro vão reparar nela.
Posto isto, quem anda por aí a ouvir Lady Gagada e ainda não conhece Aurea está a partir deste momento autorizado a cortar os pulsos com uma colher de pau.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A Música Portuguesa Recente


Durante os últimos 10 anos (ou mais) a Música Portuguesa definhou às mãos de uma série de “artistas” medíocres (alguns que ainda por aí andam). Longe iam os tempos dos anos 90 em que bandas como os Resistência ou os Xutos & Pontapés nos brindavam com temas inesquecíveis.
Muita gente criticou o público Português, catalogando-nos como uma espécie de ingratos que apenas ouviam o que vinha lá de fora. Os anos recentes provaram que afinal o público Português é muito mais inteligente e exigente, e não “absorve” qualquer lixo que as editoras lhe tentam impingir.
Após este longo período de marasmo, onde apenas alguns “dos velhotes” nos brindaram com canções dignas do repertório nacional (Rui Veloso, Xutos e mais um ou dois estiveram sempre presentes), eis que nos últimos dois anos surgiram uma série de artistas que aos poucos estão a reconciliar o público Português com a sua música.
Bandas como “Deolinda”, “Virgem Suta” ou aquela que ouço enquanto escrevo estas linhas, “Amor Electro” estão a encabeçar um movimento que faz prova de uma qualidade verdadeiramente assombrosa. Neste momento, temos artistas que foram recuperar as raízes da sonoridade popular Portuguesa. Os Deolinda têm um génio a escrever as letras, e uma Ana Bacalhau com uma voz apaixonante. Os Virgem Suta, num estilo mais boémio, e com uma identidade muito própria da cultura Portuguesa. Os Amor Electro apresentam uma qualidade de produção fascinante, associada à voz deslumbrante de Marisa Liz. “A Máquina (acordou)” é a prova do potencial da qualidade nacional.
Outro fenómeno curioso passou pelo renascimento de alguns estilos que se pensavam mortos, nomeadamente o Fado. Confesso que não me conto entre os grandes apreciadores de Fado. Adoro algumas coisas da Amália, algumas do Carlos do Carmo, e não passo muito disso. Mas ouvir Mariza (com Z), precisamente uma das responsáveis pelo renascer do Fado, é um prazer único. Não deixa igualmente de ser interessante ver artistas novos a recuperar canções da Amália e a actualizá-las para o público contemporâneo. Os “Amália Hoje” fizeram a canção perfeita ao pegar n’A Gaivota e colocar a voz da Sónia Tavares ao lado da música do Nuno Gonçalves. Não espanta, sendo ambos dos “The Gift”, uma das poucas bandas que foi sobrevivendo e dando cartas entre o tal período de marasmo. Que me perdoem os fanáticos da Amália Rodrigues, mas “A Gaivota” era uma música deslumbrante nas suas mãos, mas nas dos Amália Hoje tornou-se a canção perfeita.
E depois deste paleio todo chegamos “à revelação”: Aurea. Tem passado semi-despercebida nesta verde terra, o que é constrangedor. Lá fora, esta mulher estaria a discutir os tops com a Adele. Tem uma voz poderosíssima, um estilo deslumbrante, para além de ser linda de morrer e toda boa!

Sim, É PORTUGUESA!
Nota: eu não falo dos “Moonspell”, que muita gente aponta como a banda mais bem-sucedida do país, porque abomino o estilo de música deles, e é raro aguentá-la mais do que vinte segundos.
E por fim tivemos nos anos mais recentes o regresso de alguns veteranos, como o Jorge Palma que lançou o brilhante “Encosta-te a mim”. Não há muitas palavras para descrever uma canção com uma letra e uma música como esta. Divina. E o videoclip (podem vê-lo no Youtube) é um testemunho digno daquilo que é “a vida” aos olhos do Jorge Palma (que eu não conheço assim tão bem, mas que aos poucos tenho tentando descobrir).
É também justo fazer uma menção honrosa ao David Fonseca, que tem feito coisas extraordinárias.
Longe vão os tempos dos “Madredeus” e dos “Resistência”, esquecidos por mais de uma década de trampa medíocre, muita dela obscenamente promovida pelos objectivos comerciais das “novelas juvenis” e pelos programas de televisão de “gente talentosa”, que a troco das audiências causaram danos irreparáveis à música Portuguesa.
É um facto que gostos não se discutem, e que a uma série de artistas de que eu gosto muita gente torce o nariz (e vice-versa), mas fico satisfeito por ver que estamos numa altura em que “o que é nosso” tem qualidade, não nos envergonha, e até por vezes nos emociona.
Obrigado a todos os músicos Portugueses a quem “o engenho e a arte” ajudaram a erguer muito acima da comum mediocridade.

Obrigado “Xutos & Pontapés”, por mais de 30 anos a mostrar o quão bom pode ser o Rock cantado em Português. “Os Contentores”, “Não Sou o Único”, “Para Ti Maria”.
Obrigado “Rui Veloso”, por seres um Senhor, e mostrares a versatilidade de um artista que não se deixou envaidecer pelo título de “Pai do Rock Português”, e nos teres oferecido temas como “Nunca me esqueci de ti”, “A Paixão” e “Todo o Tempo do Mundo”.
Obrigado “Pedro Abrunhosa”, pois apesar de teres feito muito lixo – e de eu achar que se não procurasses tanto o mediatismo poderes ser um artista muito melhor – conseguiste coisas inesquecíveis como “Quem me leva os meus fantasmas”, “Momento” e “Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar”.
Obrigado “Madredeus” e “Pedro Ayres de Magalhães”, pois a música erudita, apesar de passar “por outros circuitos”, é também o que faz elevar o nosso orgulho.
E quanto a todos os “mais novos”… Se não se estragarem pelo caminho, agradeço-vos daqui por mais uma década. Combinado?

P.S. Se alguém estava à espera que eu falasse do Tony Carreira… está claramente a ler o blogue errado.
P.P.S. A todos os piratas que por aí andam: não pirateiem a Música Portuguesa. Não é pelo que custam os CD (comprei Deolinda por 6 Euros), e os nossos artistas merecem o nosso apoio, a menos que tenham saído das infames novelas juvenis e afins. Nesse caso merecem somente os nossos tomates podres, untados com água de demolhar bacalhau!