domingo, 18 de março de 2012

John Carter (crítica)


Ora, se bem me lembro tinha prometido não voltar a falar de cinema, mas como qualquer político que se preze tratarei de violar essa promessa à primeira oportunidade. A culpa é da tontinha do Blackberry…
Falemos então de “John Carter”, o novo filme da Disney que tem tudo para seduzir os choninhas que gostam de Star Wars (coisa que nada tem a ver comigo). John Carter é um dos primeiros heróis da ficção-científica, criado por Edgar Rice Burroughs, o mesmo que criou Tarzan, em 1912. Não é tão famoso entre as não-elites de sci-fi porque nunca foi adaptado ao cinema, mas a Disney tratou de corrigir essa lacuna precisamente este ano: cem anos depois de a história ter sido escrita. Confesso que é difícil dissertar sobre a história, pois a genialidade da mesma é avassaladora, se tivermos em conta que foi escrita numa altura em que Portugal estava a acabar de sair da monarquia, e que tem conceitos tão avançados em termos de criatividade no seio da ficção-científica que eu julgo que era mesmo necessário recuar no tempo para conseguir medir/avaliar o impacte que uma história destas teve verdadeiramente.
Não sei quão fiel é a adaptação da história original ao filme. Resumindo, algures na Virginia, ainda no tempo dos índios e dos cowboys, o Capitão John Carter é acidentalmente teleportado para Marte, onde trava conhecimento com uma tribo de marcianos verdes, com quatro braços, presas maiores do que as de um javali e que vivem afastados da guerra que é travada entre os habitantes de Zodanga e os de Helium, duas cidades/nações poderosas. Pelo caminho, Carter apaixona-se pela princesa de uma das cidades, que lhe pede ajuda na guerra, e acabam nos braços um do outro, “e viveram felizes para sempre”.
Obviamente a história não é tão simples como isto, e inclusive tem alguns pontos muito bem explorados em termos de misticismo e astronomia, e o final tem um agradável toque de surpresa. Não obstante, é visível que faltou uma ou outra mãozinha mais talentosa para aprofundar um pouco melhor o argumento. Há personagens que praticamente não têm qualquer palco no meio da história, e supostamente são importantes. O próprio vilão parece um bocadinho apagado. E nem sei muito bem o que dizer do pai da princesa e do irmão (?) ou guarda-costas (?) – desperdiçando o talentoso James Purefoy no papel. Mas a Disney é um bocadinho assim, garante sempre filmes de qualidade, mas que raras vezes arriscam muito, preferindo seguir uma fórmula mais simples e que dê garantias. O elenco é essencialmente composto por actores não muito conhecidos, o que é bom pois ajuda a arejar um bocadinho o ecrã. Se por um lado Taylor Kitsch consegue fazer um John Carter convincente, já Lynn Collins deixa muito a desejar como princesa de Helium. Se estabelecermos o paralelismo inevitável com a princesa Leia, esta coitadinha não tem ponta por onde se lhe pegue. Nos dias que correm não basta ter coxas bem torneadas, seios 3D, olhos bonitos e andar seminua durante o filme todo. Longe de mim dizer que isso não é bom! Simplesmente, um bocadinho de carisma não lhe fazia mal nenhum.
Os paralelismos com Star Wars são bastantes, quer em termos dos cenários digitais, onde mais uma vez é notória a influência que a nova trilogia teve no cinema sci-fi (continuo a dizer que como filmes da saga Star Wars são péssimos, mas como filmes de ficção-científica são muito bons), quer em termos da nomenclatura. Lá está, sem ler o livro original não sei o que consta nele, e o que é fruto da adaptação cinematográfica, mas termos com jeddak, padwar e banth são demasiado familiares, portanto das duas, uma: ou o Lucas se inspirou em Burroughs, ou esta malta nova se inspirou no Lucas.
Há alguns momentos de humor muito bem conseguidos, muitos deles graças a um cão marciano de seis patas que corre à velocidade do Speedy Gonzales, e à repetição ad nauseam de “Vorginia” – que eu não vou explicar aqui!
Em suma, John Carter é um interessante filme de ficção-científica, mas que não deslumbra. Cumpre os requisitos, mas o facto de ter jogado pelo seguro parece ter sido o que o amarrou e não deixou crescer ao nível do que a obra original merecia, tratando-se de um marco na História da ficção universal, e que inspirou os grandes criadores do século XX, onde se incluem os principais ilustradores do “fantástico” como Frank Frazetta e Boris Vallejo. O filme não se pode dizer que seja memorável, e a Disney tem consciência disso pois é visível o esforço publicitário que tem feito, quando ainda por cima pretende fazer disto uma trilogia. Mas uma coisa é certa: deixou-me com vontade de ler os originais de Edgar Rice Burroughs. E qualquer filme que consiga uma proeza dessas é por si só digno de respeito.

Pelo Pior:
A ausência de audácia. O limitar-se a ser um blockbuster para ter bons resultados de bilheteiras. As personagens secundárias completamente unidimensionais e que suscitam tanto interesse como um calhau numa paisagem marciana.

Pelo Melhor:
As extraordinárias naves movidas a painéis solares que proporcionam momentos muito inspirados e cheios de acção. O cão marciano de seis patas.

 “Mim Tarzan. Tu Jane?”

 “Yup, eu sou um cão marciano de seis patas e consigo ter mais carisma do que a maioria dos actores que entram no filme!”

 “Ah, bom! Agora a TAP tem voos directos para Marte…”


quinta-feira, 1 de março de 2012

“Imaginaerum” - Nightwish



Eu comprar um álbum de Metal??? LOL Nunca na vida! Eu odeio Metal!
E de repente: Mother of God… I am speechless!
O que é que pode levar uma pessoa culta e com bom gosto musical como THE PSY a comprar um álbum de Metal? Hum… Comecemos, tal como em todas as boas histórias, pelo princípio.
Os “Nightwish” são uma banda finlandesa de “Metal Sinfónico”. Seja lá isso o que for. Reza a lenda que a “etiqueta” que lhes foi colocada deve-se ao facto de originalmente a banda ter sido formada como um grupo de Metal, mas com uma vocalista que era… uma soprano! Estranhamente, o que tinha todos os elementos para ser mais um acidente ferroviário e descambar no esterco do costume (entenda-se: as bandas de Metal Gótico e do buhuhu o mundo é uma tragédia, vamos todos cortar os pulsos e morrer – sim, por favor, façam-no e parem de respirar o mesmo ar que eu!) acabou por resultar em algo único e com um toque cultural muito próprio, e deveras fascinante.
A primeira década de Nightwish produziu uma série de canções muito boas, misturando as tais influências de Metal com elementos de ópera, algumas baladas acústicas e um toque noir bem doseado. Até que em 2005 o mundo praticamente decretou o fim da banda quando decidiram fazer o impensável: despedir a vocalista! Tarja Turunen é o nome da menina, que tem uma voz deslumbrante, e uma intensidade desarmante. Era a alma da banda. Não vou perder tempo a falar aqui de histórias da carochinha, e quem quiser saber o que se passou pesquise na net. Bastará dizer que a banda contratou uma vocalista nova, que nada tem a ver com a anterior, e que foi muito mal recebida pelos fãs. Tendo em conta a devoção que a legião de criaturas cabeludas tinha pela Tarja outra coisa não seria de esperar.
Avancemos meia-dúzia de anos, e eis que chega “Imaginaerum”. O álbum é uma ideia do criativo da banda, um tipo feio chamado Tuomas e que se parece com o Capitão Jack Sparrow, esse mesmo, d’Os Piratas das Caraíbas. Tuomas preparou uma concepção única, querendo fazer um álbum inovador, juntamente com um filme. A ideia é contar a história da vida de um compositor e do seu mundo fantástico de sonhos.
Mesmo no crepúsculo de 2011 a banda lança o single de promoção do novo álbum. “Storytime” é tudo o que uma canção épica deve ser. A orquestração é de cortar a respiração, a interpretação é vibrante ao nível do Big Bang, e a sonoridade é uma tempestade arrebatadora. O videoclip não lhe fica atrás. É uma espécie de Branca de Neve tenebrae encontra o Cirque du Soleil e dá-se o tal Big Bang. Quando o single foi lançado apanhei-o partilhado por alguém no Facebook, mas deixei o vídeo a correr enquanto continuei a ver as fotos de gatos parvos, e aquelas coisas simpáticas do “se não partilhares esta foto desta menina sem braços, sem pernas e sem cabeça és um péssimo ser humano”. Escusado será dizer que no meio destas pérolas “Storytime” passou-me completamente ao lado. Felizmente, algumas semanas depois voltei a descobri-lo no youtube. Quando dei por mim a ver o vídeo seis vezes consecutivas apercebi-me que algo estranho se estava a passar…
 "Nightwish - Storytime"
Bom, mas depois de ouvir “Storytime” oitenta vezes dei comigo a pensar “ok, a canção é absolutamente fenomenal, mas também deve ser a única de jeito do álbum”. A maior parte das bandas investe tudo numa ou duas canções e depois enche o álbum com lixo.
THE PSY was wrong.
Aos poucos o youtube foi-me desvendando as outras canções que integravam Imaginaerum, e com cada uma eu ia ficando ainda mais fascinado. Não vou aqui falar delas todas, mas há pelo menos mais duas ou três que merecem que percamos alguns minutos a perceber por que razão eu já não me sentia tão empolgado com um álbum desde que assisti ao vivo ao lançamento da 7ª do Tio Ludovico, no dia 8 de Dezembro 1813. Sim, eu estava lá.
Imaginaerum tem uma presença orquestral muito forte, tanto pela orquestra que acompanha os membros da banda, como pelos dois coros que enfatizam muitas das músicas. Há partes do álbum que parecem directamente tiradas das bandas sonoras de Hollywood, vindas das mãos de Hans Zimmer ou de Bear McCreary. É o caso de “Arabesque”, uma música de sonho, inteiramente instrumental, que demonstra por que razão a música de orquestra é, sempre foi, e será sempre o mais nobre que a Arte Humana consegue criar. “Arabesque” tem a força dos exércitos de Alexandre, O Grande. Não estranharia que Tuomas tivesse passado várias horas a ouvir as bandas sonoras da série “Battlestar Galactica” enquanto compunha esta música. O que é que leva uma banda de Metal a colocar uma música sinfónica no meio do álbum? Simples: génio puro. Trata-se da mesma banda que já havia usado uma parte d’A Flauta Mágica de Mozart numa das suas músicas, e que conseguiu fazer uma versão Metal d’O Fantasma da Ópera, de Lloyd Webber. Há compositores que trabalham há anos com os grandes realizadores de cinema e que não têm no seu repertório uma obra como “Arabesque”.
E como é que se faz um filme de terror com uma canção? É simples, faz-se “Scaretale”. Peguem num daqueles filmes negros de Tim Burton, com música de Danny Elfman, e transformem-no numa canção de Metal, com um coro de criancinhas fantasmagóricas, e sai “Scaretale”. Esta canção arrepia ao evocar os filmes de terror a sério (e não aquelas porcarias com tripas, e sangue e louras burras), arrancando de seguida para uma sequência de riffs de Metal puro, com Anette Olzen, a vocalista, a fazer uma interpretação alucinante, retirada integralmente do manicómio de onde ela certamente fugiu. E de repente chegamos a uma passagem ao estilo filme da Disney, numa onda muito O Corcunda de Notre Dame. A quantidade de elementos musicais que esta canção cobre é verdadeiramente ridícula. Pelo meio, até chega ao ponto de ter a vocalista a gritar “squeeealing piiiiiigs”.
Já agora, lembram-se do Braveheart? Exacto, esse mesmo, o do tipo com a cara pintada de azul a gritar “LIBEDADIIIIIII”. Gostam de gaita-de-foles? Então juntem-na com uma guitarra eléctrica e sai “I Want My Tears Back”. Outra das canções surpreendentes do álbum. Começa como “meh-mais-uma-daquelas-tretas-para-gajas-góticas-que-gostam-de-choramingar-por-a-vida-ser-tão-feia-e-a-morte-tão-bonita” (a sério, morram mesmo de uma vez por todas e parem de consumir o meu oxigénio), e sem nos darmos conta temos um duelo entre gaita-de-foles e guitarra eléctrica que quase nos faz querer dançar como os Irlandeses. Tomem lá na fuça chavalas góticas! Agora levantem a saia e comecem a fazer sapateado ao estilo Riverdance!
Em suma, já deixei uma boa ideia do quão surpreendente este Imaginaerum é. O resto das canções ficam para quem as quiser descobrir. A propósito, há uma canção de Blues no meio do álbum… A maturidade musical que os Nightwish atingiram é divina. Há bandas que tocam por 30 anos, com sucesso, e nunca arriscam, mantendo-se sempre no mesmo registo. Os Nightwish arriscam, e tocam as estrelas. Este é de longe o melhor álbum da banda, e quase certamente não vão voltar a fazer um tão bom. É provável que os fãs hardcore acabem por não gostar tanto deste álbum, dada a sua complexidade, o seu espectro de abrangência e a diversidade inesperada, mas também os fãs hardcore são gente que gosta de Metal, e gente que gosta de Metal não tem direito à água que bebe.
Não querendo entrar no campo da heresia, arrisco mesmo dizer que para esta geração “Imaginaerum” é o equivalente a um “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, dos Beetles, ou a um “The Wall”, dos Pink Floyd, álbuns que no seu tempo marcaram o expoente da criação musical. E já que estamos numa de heresias, devo acrescentar que apesar da voz da Tarja Turunen ser 7 milhões de vezes superior à da Anette Olzon, tenho algumas dúvidas que ela conseguisse enquadrar-se neste álbum e ter a elasticidade necessária para o mesmo.
Já agora, pela piada, eu comprei a edição limitada que traz um CD com o álbum todo em versão instrumental, o que parece ser uma forma sarcástica do Tuomas dizer: Ok, quem não gostar de ouvir a Anette tem aqui o álbum todo sem ela abrir a boca!
Coloco este artigo aqui no blogue precisamente hoje, 1 de Março de 2012, na véspera do dia que foi escolhido para o lançamento do segundo single, “The Crow, the Owl and the Dove”. Não percebo por que foi escolhida para ser o segundo single a ser lançado, pois parece-me um dos temas menos impressionantes do álbum, mas lá está, presumo que seja necessário alimentar as chavalas góticas…
Enfim, aqui ficam estas palavras para quem quiser aproveitar o meu bom gosto, e dar uma espreitadela a este magnífico “Imaginaerum”, uma obra-prima que corre o risco de passar completamente despercebida, injustamente, num mundo que parece só ter lugar para Lady Gagadas, e outras aberrações que nos são impingidas diariamente pela MTV. Imaginaerum não é Bear McCreary, não é Danny Elfman, não é Pink Floyd, não é Cirque du Soleil, nem é o Fantasma da Ópera. É tudo isto junto, numa criação maravilhosa, de uma complexidade erudita, num álbum intimista que nos leva desde um sussurro numa sinistra ruela escura até ao pico de uma montanha onde bradamos a plenos pulmões.

 "Nightwish - Arabesque"

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

“O Segredo de Afonso III”, de Maria Antonieta Costa

- Vou então começar pela minha vinda para o Paço Real de Enxobregas. Sou descendente, por via paterna, do califado dos abássidas. Quando Afonso III conquistou todo o Algarve, Aloandro Bem Bekar, que governava o Castelo de Faro e de quem sou filha, submeteu-se ao seu poder e, para provar que estava de boa-fé, ofereceu-me ao rei, que me trouxe para a Corte. Contava quinze anos quando isso aconteceu e fiquei privada dos mimos da minha mãe, que nunca mais vi.



Na última década o género da ficção histórica ganhou uma expressividade que não pode ser menosprezada. É uma fórmula de sucesso, pois brinca com o nosso imaginário, e leva-nos a olhar para as nossas referências históricas e pensar nos vários “ses”.

Intelectual brilhante como sou, já li diversos livros do género, e quando deparei numa livraria com uma obra de uma autora Portuguesa, a ficcionar em redor de um mistério na corte do quinto Rei da minha Pátria, pensei “porque não”?

O Segredo de Afonso III é talvez o livro mais difícil sobre o qual opinar que já me passou pelas mãos. Adoro-o ao mesmo tempo que o detesto. Vamos lá por partes… A história passa-se em dois momentos: Lisboa, ano 1279, e Roma, na actualidade. Ou seja, as duas cidades mais importantes da História da Humanidade. A arquitectura do livro está organizada de forma a os capítulos irem alternando entre si, e portanto decorrendo em simultâneo nas duas épocas. A fórmula é bem conseguida, e Maria Antonieta Costa consegue fazer uma coisa extraordinária que é “escrever de forma diferente em cada uma das épocas”. É difícil explicar isto aqui, mas digamos que a escolha de palavras e a narração na primeira pessoa vs narração na terceira pessoa é uma forma muito inteligente de permitir distinguir na perfeição o momento em que estamos em cada capítulo. E é aqui que começa a controvérsia, porque parece que o livro foi escrito não por uma, mas por duas pessoas diferentes. Toda a narrativa que decorre no século XIII é brilhante, numa escrita estupenda, com a utilização de vocabulário muito cuidado e apropriado (a autora é formada em História e Cultura Medieval), com frases em latim, e uma quantidade considerável de designações adequadas à época. Por oposição, toda a narrativa que decorre na actualidade é um desastre absoluto, com personagens sem qualquer interesse, cheias de clichés, e – devo acrescentar – de uma mediocridade confrangedora.

Este livro é também uma tentativa de escrever o “Código Da Vinci” Português, pois está envolto em mistérios e enigmas históricos que nos dias actuais vão sendo desvendados pelas personagens nossas contemporâneas. Mas a autora, que se nota estar perfeitamente à vontade na parte que diz respeito à História, é de fugir a sete pés no que concerne ao “romance moderno”. São capítulos inteiros dignos de uma Margarida Rebelo Pinto. Para os mais distraídos, acabei de ofender a autora até à quadragésima geração… A pimbalhice pseudo-romântica que polui toda a acção que se desenrola em Roma é de cortar os pulsos com uma colher de pau romba!

A personagem central é Eunice Bacelar, uma historiadora que decide pesquisar nos arquivos do Vaticano para escrever uma obra sobre o nepotismo dentro da Igreja Católica. É nesse processo que descobre um pergaminho que conta a história de Madragana, uma barregã moura de D. Afonso III. Ora, como 99% dos meus caros amigos que estão a ler isto não fazem a mais pequena ideia do que significa barregã, tal como eu não fazia, desatem todos a correr até ao dicionário mais próximo. Se este livro não tiver servido para mais nada, ao menos já me ensinou uma palavra nova para insultar de forma intelectual as pessoazinhas que me chateiam.

O livro oscila entre momentos de grande inspiração, em particular com um enfoque muito grande na parte da alquimia, e que me levou durante muitos capítulos a pensar que ia sair daqui uma coisa diferente e interessante, e momentos de pasmaceira total e absoluta, caindo no ridículo das conspirações clichés e de um absurdo tão grande que as histórias do Tom & Jerry parecem mais verosímeis.

Quanto ao cerne do livro, o tal “segredo do Rei”, é uma desilusão tremenda, perfeitamente banal, e meramente fruto do mediatismo cor-de-rosa contemporâneo. Não vou “revelar” qual o segredo, por respeito a quem eventualmente o ler, mas qualquer pessoa com um QI minimamente aceitável já deve ter ficado com uma boa ideia do que se trata.

E é isto a bipolaridade que me provocou a leitura do livro. Por um lado os rasgos de espectacularidade em redor do ambiente medieval, perfeitamente caracterizado, interessante, exaustivo, e sedutor, por outro lado a total banalidade sem qualquer interesse que tenta encostar a história moderna a um Dan-Brown-meets-Margarita-Rebelo-Littlechicken-and-fails-utterly. O meu conselho: quem pegar no livro arranque todos os capítulos passados na “actualidade” e leia a parte baseada na História.

Sendo um primeiro romance da autora, é de elogiar um bom trabalho na parte “ficção histórica”, e estou certo que se ela escrever mais livros focados unicamente neste aspecto terá em mim um fiel leitor. Se optar pela veia Margarítica, usarei os meus dotes alquímicos para lhe despejar H2SO4 pela garganta abaixo.

Como nota final, é de referir que a autora colocou no final do livro um quadro onde faz o contraste entre o que é “baseado em factos reais” e o que resulta da imaginação da autora. É uma forma interessante de acabar o livro, na minha opinião.

Para terminar, e para “something completely different”, depois de ler o livro fiquei com curiosidade de pesquisar um pouco mais por El-Rei “O Bolonhês” (ainda se lembram das aulas da 4ª classe?). Descobri algo fascinante graças à Wikipedia. A Biblioteca Nacional de Portugal disponibiliza versões digitais no seu site de alguns documentos históricos. Foi aí que descobri a “Chronica do muito alto e muito esclarecido principe D. Afonso III, quinto rey de Portugal” da autoria de Rui de Pina. Trata-se de um documento do século XV, copiado no século XVIII nesta versão disponibilizada online. Pode para muitos parecer algo sem grande interesse, mas para um apaixonado por História, isto é algo de me levar às lágrimas. Obrigado Biblioteca Nacional de Portugal.




Segundo a lenda cristã, os segredos da natureza tinham sido divulgados por anjos que se haviam apaixonado por mulheres terrenas. Estas terão sido as primeiras feiticeiras e bruxas, com longos cabelos soltos e em desordem, assim como Medeia ou como Canídia que, ainda por cima, os adornava com pequenas serpentes. A alquimia era, antes de mais, apresentada como um sistema de autotransformação em que a transmutação ocorria livre na natureza, intrigando os pesquisadores.


O Segredo de Afonso III, Maria Antonieta Costa, Clube do Autor, 2011

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

“Lankhmar”, de Fritz Leiber

The seven glows faded altogether. So faintly the two men could barely hear it – yet hear it each did – the fluty voice inquired. “Are you afraid?” Then they heard a grating of rock, a very faint sound, yet somehow ponderous.

So ended the first encounter of Fafhrd and his comrade with Ningauble of the Seven Eyes.



Não é segredo para ninguém que O Magnífico é um grande apreciador de literatura de fantasia. Apesar de nos dias que correm ser um dos estilos mais prolíferos que as editoras levam ao mercado, não menos verdade é que grande parte da boa literatura de fantasia já foi escrita há muito, e que actualmente são lançados todos os dias nas livrarias clones mal sucedidos de Tolkien e companhia.

Fritz Leiber e a sua série “Lankhmar” são pouco conhecidos fora do circuito mais elitista dos aficionados de fantasia. Leiber criou duas personagens que dão pelo nome de Fafhrd e Gray Mouser. Enquanto o primeiro é um bárbaro Nortenho, o segundo é um ladrão cosmopolita. Tornam-se inseparáveis nas suas aventuras depois de se conhecerem na mítica cidade de Lankhmar, a mais esplendorosa do mundo. Ao contrário do que acontece na maioria da literatura fantástica, Fafhrd e Gray Mouser não têm como missão “partir numa demanda épica para salvar o mundo dos Senhores das Trevas”. Pelo contrário. São dois ladrões a quem apenas interessa chegar ao fim do dia com o saque necessário para pagar umas canecas de cerveja numa das tabernas da cidade. E a vida de ambos é repleta de aventuras, todas elas exóticas e muito imaginativas.

A série Lankhmar é composta por vários títulos, constituídos na sua maioria por histórias curtas, que geralmente não estão interligadas. A escrita de Leiber é fluida e bastante cuidada, chegando por vezes a ter um toque de inspiração quasi-Shakespeareana, mas não é uma leitura fácil, em especial quando o autor obriga os leitores a estarem atentos à acção, que pode mudar de uma linha para a outra sem qualquer aviso prévio. Num parágrafo Fafhrd e Gray Mouser podem estar a decidir ir investigar uma torre no meio de uma floresta, e no parágrafo seguinte já estão de regresso.

O que torna as duas personagens interessantes é a sua fragilidade. A maioria das histórias envolve ter os dois a fugir desesperadamente de inimigos consideravelmente mais fortes e numerosos, levando-os muitas vezes a terem que se esconder para evitar levar uma surra ainda maior. Existe uma grande semelhança entre esta série e o “Conan” de Robert E. Howard. Estas duas obras foram o que criou o sub-estilo “Swords & Sorcery”.

Para quem gosta de aventuras simples, descomprometidas, originais e repletas de detalhes deliciosos, a série Lankhmar é uma aposta segura.



And then Fafhrd’s words froze in his throat. His final argument, which had to do with his own release, remained unspoken. For, suspended in the air immediately in front of the black draperies of the alcove, was the skull of Ohmphal, its jeweled eyes glittering with light that was more than reflection. The eyes of the thieves followed those of Fafhrd, and the air whistled with intaken breaths of fear, fear so intense that it momentarily precluded panic. A fear such as they felt toward their living master, but magnified many times.

And then a high wailing voice spoke from the skull, “Move not, oh you craven thieves of today! Tremble and be silent. It is your ancient master who speaks. Behold, I am Ohmphal!”



Lankhmar, Fritz Leiber, Orion Publishing, 2008

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

“Kanikosen – O Navio dos Homens”, de Takiji Kobayashi


O patrão estava furioso. Ia e vinha sem parar do compartimento dos pescadores enquanto eles o seguiam em silêncio, os olhos cheios de ódio como se o fossem matar.
No dia seguinte, decidiu-se que o barco iria prosseguir na sua rota, em parte para apanhar mais caranguejos e em parte para procurar os botes desaparecidos. «Perder cinco ou seis homens não tem qualquer importância, mas seria uma pena perder os botes.»

Há livros que provavelmente nunca leriamos na vida se não nos fossem oferecidos. É bem provável que isso me acontecesse com “Kanikosen – O Navio dos Homens”. Acrescento que tal seria uma pena.
A história narrada no livro é bastante simples e interessante, mas muito mais importante é a História (assim mesmo, com “h” grande) do próprio livro. Kanikosen foi escrito na clandestinidade no Japão em 1929 (dez anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, que alterou por completo o rumo do país.
Mas comecemos pela história que o livro conta. É bastante pequena e foca-se num grupo de homens que trabalha num barco-fábrica de pesca de caranguejo em alto mar. O que chama a atenção no livro é perceber as condições desumanas em que os homens trabalham. Isto não se trata de mera ficção. Nos dias de hoje poucos de nós conseguiremos percepcionar o que foram os abusos sofridos pelos trabalhadores no início do século XX. Os operários do navio passam frio, trabalham horas a fio, dias seguidos, em alto mar, padecem de doenças, e são espancados brutalmente pelo patrão quando este acha que eles estão a “mandriar”. A curta história desenrola-se calmamente, atentando nos desejos dos homens, na saudade das famílias, e na tortura que é viver aquela situação. “- Vamos até ao Inferno.”, é a frase que abre o livro. Doentes, cansados, famintos, assim passam até ao momento em que compreendem que é chegada a hora de lutar pelos seus direitos. Não será necessário ser grande entendido em História para ter a noção do efeito que esta “propaganda vermelha” teve num país fechado como o Japão imperial do início do século XX.
Passemos então à História do livro. O seu autor, Takiji Kobayashi, tinha 26 anos quando o escreveu. Desde então, foi alvo de perseguições e discriminação, até que em 1933 foi capturado pela Polícia Secreta, espancado brutalmente, e acabando por morrer. Tinha 30 anos.
É difícil nos dias de hoje ter sensibilidade suficiente para perceber o quanto algumas pessoas sacrificaram para lutar pelos direitos de dignidade mínima, e para combater as injustiças sociais. Felizmente o século XX fez-nos avançar muito.
Mas eis-nos chegados ao século XXI, quando as condições laborais começam a dar sinais fortes de degradação, quando algumas pessoas sentem que são exploradas para que alguns patrões (como os do livro) enriqueçam. O livro, passados 80 anos da sua publicação, torna a conquistar um lugar central na atenção de vários públicos, tornando-se um bestseller inesperado em vários países. Ajuda-nos a perceber algo que muitas vezes esquecemos: certas coisas na vida são cíclicas, e convém estarmos atentos ao mundo que nos rodeia para não cometermos os mesmos erros.
A título de curiosidade, o nome do navio onde decorre a história é Hakko Maru. Se juntarmos a isto parte do nome do autor, obtemos “Kobayashi Maru”, algo que não será estranho aos fãs de Star Trek. Coincidência? Não creio. O Kobayashi Maru era o teste que a Starfleet impunha aos seus cadetes e que era impossível de vencer, uma “no win situation”, as o qual o Capitão Kirk conseguiu ultrapassar de forma inesperada.
A escrita de Kanikosen é pesada, violenta, e pouco aconselhada a leitores mais convencionais (tias de Cascais, e leitores assíduos de Paula Bobone e companhia). Propaganda Comuna chamar-lhe-ão alguns; Oportunismo Mediático dirão outros. Quanto ao Grande Crítico Literário THE PSY, este limitar-se-á a citar algo que estamos fartos de ouvir nos filmes: History repeats itself.

Cada carril de cada via-férrea de Hokkaido correspondia, literalmente, ao cadáver de um jornaleiro. E os blocos de betão armado para construir os portos eram os corpos dos operários enterrados em vida, como «colunas humanas». Aqueles trabalhadores de Hokkaido eram conhecidos como «polvos». O polvo, para sobreviver, come os próprios tentáculos. Eram exactamente isso! Assim surgiu essa classe de exploração primitiva que não temia nada. Os patrões recolhiam benefícios às pazadas. E racionalizaram-nos habilmente, associando-os a frases como «desenvolvimento da riqueza nacional». Os capitalistas eram muito astuciosos. Os trabalhadores morriam à fome, ou eram espancados até à morte «em nome da nação».

O Navio dos Homens, Takiji Kobayashi, Clube do Autor, 2010