terça-feira, 27 de setembro de 2011

Panteão: Robin Hood

Se um dia THE PSY escolhesse outros deuses para se juntarem a si no Panteão... quem escolheria?
Robin Hood!
Isto quase parece uma crise de meia-idade um tipo dar por si a pensar em quais foram aquelas personagens emblemáticas que o acompanharam desde a infância… E confesso que foi uma grande surpresa ir ter ao nome de “Robin Hood”, ou na versão da muy nobre língua de Camões “Robin dos Bosques”. E como é que esta súbita revelação surgiu? Ora, quando dei comigo a assobiar uma das músicas da minha infância, e que é um dos grandes marcos da versão Disney da lenda de Robin Hood.
     Robin Hood and Little John
     Walkin' through the forest
     Laughin' back and forth
     At what the other'ne has to say
     Reminiscin', This-'n'-thattin'
     Havin' such a good time
     Oo-de-lally, Oo-de-lally
     Golly, what a day

O filme da Disney, de 1973, continua a ser o melhor filme de todos os tempos sobre o mítico herói fora-da-lei que roubava aos ricos para dar aos pobres. Vi o filme quando tinha os meus 6 anos, e o meu pai fez-me a colecção de cromos, da também mítica Panini. Foi a minha primeira caderneta de cromos. E ainda a tenho, só não faço ideia onde.
O filme é uma das melhores obras da Disney, e tem seguramente um lugar garantido entre os filmes eternos de desenhos animados. Comprei o DVD há 2 anos, numa edição remasterizada e outras mariquices que tais. Alguma vez houve um Prince John melhor do que o de Peter Ustinov? Ou alguém conseguiu não se apaixonar pelo mirabolante Sir Hiss?
Anos mais tarde, quando eu era uma pobre criança viciada em Legos, também tinha uma horda de bonequinhos do Robin Hood e dos seus Merry Men.
Já um pouco mais crescido fui ao cinema ver o extraordinário “Robin Hood, Prince of Thieves”, com o Kevin Costner a interpretar o homem com os collants verdes mais famosos da humanidade. Felizmente no filme tiveram o bom senso de vesti-lo como homem, e o poster promocional do filme é uma das imagens mais marcantes do cinema dos anos 90, com a inesquecível pose do homem a esticar a corda do arco a segurar numa flecha em chamas e com uma pinta completamente badass. Todo o filme está, na minha divina opinião, extraordinário (nem mesmo o Bryan Adams conseguiu estragar o filme), e conta com um Senhor que na altura ainda era meio desconhecido, mas que hoje em dia dispensa apresentações: Morgan Freeman.
A personagem tem sido alvo de atenção recorrentemente ao longo dos anos. Vários foram os livros, os filmes, os jogos de computador, e até mesmo uma série de televisão recentemente (e muito fraquinha). Falando em jogos de computador, comprei há uns meses por dois euros e cinquenta um “Robin Hood – The Legend of Sherwood” que foi uma das maiores delícias que experimentei no PC até hoje. Não sei se referi que o comprei por dois euros e cinquenta cêntimos?
E com isto tudo chegamos ao mais recente Robin Hood, precisamente aquele que no ano passado chegou ao cinema pelas mãos do meu deus do cinema, Ridley Scott. Quando o filme foi anunciado não reagi com grande entusiasmo. “Mais um filme do Robin Hood? Porque carga de água?”. Vi o trailer, não me despertou grande interesse, e acabei por não ir vê-lo ao cinema. É um erro do qual me irei arrepender até ao fim dos dias. Ridley Scott tem o toque de Midas, e tudo o que sai das suas mãos é ouro (um dia escreverei sobre uma coisa chamada “Blade Runner”). O Russel Crowe até consegue fazer um Robin Hood decente, e tem a sorte de contracenar com a Senhora Cate Blanchett, que é sempre divina, como eu.
A história é uma nova interpretação da lenda de Robin Hood, bastante diferente daquela a que todos estamos habituados, mas que nada fica a dever ao folclore mais conhecido. Ridley Scott consegue alguns planos de uma beleza indescritível, à semelhança do que já fizera com “Reino dos Céus”. Há planos na floresta onde a leitura da luz é poesia visual. A música é de um tipo desconhecido, mas que faz um trabalho muito bom. Todos os actores secundários estão extraordinários, merecendo obviamente destaque o veterano Max von Sydow.
É curioso ver alguns momentos evocativos, que copiam a papel químico algumas cenas de “Gladiador”, e que parecem em certo momentos homenagear “O Resgate do Soldado Ryan” (vejam a sequência do desembarque na Normandia, e comparem com a chegada dos franceses a Inglaterra).
Está a anos-luz de um Gladiador, mas é uma obra convincente, com um argumento muito bom, com um par romântico muito inteligente e realista, e com toda a mística de uma lenda que pode ter quase tantos anos de existência como Portugal.
Rise and rise again, until lambs become lions.
Enfim, mas a ideia aqui não era falar do filme do Ridley Scott, mas sim da personagem em si. As origens de Robin Hood, tal como as origens de todas as boas lendas, são alvo de grande disputa. Há registos de baladas desde os inícios do século XV, e há um vasto conjunto de canções e poemas medievais que falam de Robin, ora colocando-o como um fora-da-lei perto de Nottinghan, ora colocando-o como um aristocrata em inúmeras cidades de Inglaterra, ao longo de vários períodos da História. Todas as lendas têm na sua génese uma boa dose de veracidade, polvilhada com folclore, e se os bardos e trovadores nos fizeram chegar até aos dias de hoje as suas aventuras, é porque Robin Hood o mereceu.
     Then Robyn goes to Notyngham,
     Hym selfe mornyng allone,
     And Litull John to mery Scherwode,
     The pathes he knew ilkone.
     (“Robin Hood and the Monk”, circa 1450)
Et voilá, aqui fica uma breve evocação ao meu mais recente colega no Olimpo, um daqueles heróis que por alguma razão nos entram na cabeça quando somos pequeninos e que ajudam a definir o nosso carácter.
Não sei se me devo assustar com o facto de o outro herói que me entrou na cabeça quando era pequenino se chamar Darth Vader… 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

“Lustrum”, de Robert Harris


Blinded by ambition. Seduced by power. Destroyed by Rome.
Este é o teaser que aparece na capa do livro “Lustrum”, do britânico Robert Harris, outro dos meus escritores-fetiche. Este teaser bastaria para me aguçar o apetite, não fosse eu um fanático pela glória do Império Romano.
Lustrum é a segunda parte da história da vida de um dos políticos mais importantes da História de Roma, Cícero. A narrativa é contada na primeira pessoa por Tiro, o escravo que serviu Cícero como secretário durante toda a sua carreira. Muito do livro é baseado nos escritos de Tiro que sobreviveram ao Tempo. Lustrum é antecedido por “Imperium”, que conta a história da ascensão política de Cícero, e que já de si havia sido uma delícia. Regra geral, no cinema tal como nos livros, as sequelas ficam aquém do original, mas isso não acontece neste caso.
Harris é verdadeiramente genial na forma como desenha o ritmo da história. É um daqueles escritores que não cria personagens perfeitas e invulneráveis. Cícero é apresentado como um político brilhante, e a forma como Harris dá vida à oratória do senador faz-nos ter vontade de estar sentados no Senado romano de outrora. Mas aos poucos, Cícero começa a toldar-se pela vaidade, e a deixar-se seduzir pelo poder. E como nos ensinaram as revistas do Homem-Aranha “com grande poder, vêm grandes responsabilidades”. Cícero oscila entre o homem íntegro que não verga perante os inimigos políticos que desejam fazer tombar toda a estrutura de Roma, e o homem verdadeiramente de natureza humana que se deixa corromper, muitas das vezes por vaidade, ou mera ambição.
A história desenvolve-se a um passo alucinante, com todas as movimentações nos bastidores da política que eram tão reais há 2000 anos como são agora. Em dois milénios não mudámos tanto na nossa natureza como pensamos.
Mas nem só de Cícero vive a história. Nomes como Júlio César e Pompeu são presenças centrais na trama. A forma como César – o maior inimigo político de Cícero – é descrito é verdadeiramente intoxicante. Como “declaração de intenções” devo dizer que sou algo suspeito a falar de César, pois é talvez a figura da História que mais me impressiona. Ele – tal como eu – foi dos poucos homens capazes de repensar o mundo recriado segundo a sua mente brilhante. Depois disso tornou-se um tirano, mas esse é um pequenino detalhe de somenos importância…
Não consigo distinguir quais as partes dos discursos e factos que se baseiam no que realmente aconteceu, e quais aqueles que saíram da imaginação do autor, mas se Roma tiver sido minimamente parecido com o que nos é apresentado em Lustrum, não estranha que tenha sido a sociedade que traçou as linhas gerais daquilo que hoje em dia somos. E quão fascinante deveria ser poder viajar no Tempo e ter poderes de invisibilidade para passear pelas ruas da cidade que foi o centro do mundo.
Cícero, o Pater Patriae imbatível na política, Pompeu, o general mais poderoso do império, e César, o génio que parece ter sido bafejado pelo toque cósmico que lhe permite fazer coisas que mais nenhum mortal ousa sequer pensar. Tudo isto constrói Lustrum, um livro que não é fácil, nem acessível a quem não tiver uma paixão forte por intriga política e pelo conflito de conceitos e ideologias. Roma no seu auge, e à beira da decadência. Os inimigos hoje, que se convertem nos aliados de amanhã. Os altruístas de ontem, que se corrompem pela sua própria vaidade. E no centro de tudo isto, o Poder. “Os Estados emergem e caem. O Poder nunca muda” é o teaser do primeiro livro. E como isto nos faz lembrar do século XXI…
Robert Harris é um dos mestres da ficção histórica, capaz de construir uma narrativa vívida, no meio de uma história polvilhada de interesse e reviravoltas. O final de Lustrum é absolutamente divino, deixando-nos a salivar pela conclusão da trilogia. É um daqueles finais que raros escritores arriscam escrever.
Já devorei três “livros romanos” de Harris: Pompeii, Imperium e Lustrum. Cada um é melhor do que o outro. Se o meu deus do cinema, Ridley Scott, ao menos pegasse em qualquer um destes livros e fizesse um filme que chegasse aos calcanhares do “Gladiador”… eu ficava tão feliz que fazia um sacrifício de 50 virgens a Júpiter…

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A primeira vez... (falo de livros, suas badalhocas)


Ainda se lembram do primeiro livro que leram na vida?
A maioria dos auto-designados intelectuais que falam sobre a sua experiência com a literatura refere o como esta foi importante na sua infância, e como constituiu a fuga à realidade, que lhes permitiu manter a sanidade através de uma infância tortuosa, como a sua grande companhia eram os grandes clássicos da literatura, blablabla.
Eu como sou um bocadinho mais genuíno confesso que só ganhei o gosto pela leitura bem perto dos vinte anos, e o livro que me lançou neste mundo foi, nada menos do que "A Noite dos Mortos-Vivos". Exacto. Esse mesmo, que deu origem ao filme de zombies do George Romero nos anos sessenta. Hilariante, não é verdade?
Não foi, obviamente, o primeiro livro que li na vida. Essa distinção pertence a "O Cavaleiro da Dinamarca", da majestosa Sophia de Mello Breyner, e que reli há três ou quatro anos. Na altura li-o por sugestão da professora, na 2ª ou 3ª classe, nos tempos em que a Escola ainda servia para nos ensinar a ler e a escrever, algo que ao que parece nos dias de hoje deixou de fazer.
Mais tarde, no ciclo, recordo-me de ter lido apenas um livro. Chamava-se "O Império Contra-ataca". Não é de estranhar, para um miúdo que viveu obcecado pel'A Guerra das Estrelas (obrigado George Lucas por teres destruída a minha vida aos 19 anos com o Jar Jar Binks).
E até chegar à faculdade, peguei apenas n'Os Lusíadas e n'Os Maias, por obrigatoriedade curricular. Lembro-me em particular d'Os Maias, pois aquele calhamaço assustava - e bem - quem não tinha hábitos de leitura, mas que era obrigado a lê-lo pelo professor de Língua Portuguesa (esse recurso em vias de extinção). Fiquei fascinado com a escrita de Eça de Queirós. O rapaz tinha jeito para a coisa...
Fast forward e chegamos a um dia em que estou numa loja na Ericeira (onde entrei contrariado), e onde agarrei nesse mágico livro "A Noite dos Mortos Vivos" e disse que o queria levar. Eu tinha esse hábito neo-intelectual de comprar livros para decorar as estantes do meu quarto. Nunca os lia, nunca pegava neles, mas queria que mos comprassem porque as estantes não podiam ter apenas pó.
Ainda nenhum de nós descobriu os "grandes mistérios da vida e do Universo", mas de facto aquele dia e aquele livro iam mudar a minha vida. Não sei porque carga de água me deu na gana começar a lê-lo. Provavelmente foi apenas para "fazer tempo" ou algo assim. Mas durante dois ou três dias os meus olhos não se levantaram daquelas páginas. Como é que é possível haver livros escritos de tal forma que nos fazem alhear do mundo que nos rodeia, e parar durante dias seguidos apenas para comer e dormir (ok, e ir à casa-de-banho)?
Devorei o livro, e fiquei "com o bichinho". Bom, mas certamente tinha sido um caso isolado, não voltaria a acontecer. Eu não ligava patavina a livros...
Na altura estava na moda falar de outro livro "mais ou menos conhecido". Dava pelo nome de "O Senhor dos Anéis", de um tal de JRR Tolkien, muitos antes de se falar em fazer um filme baseado na obra. Raios! Mas não era um livro, eram três! E cada um com trezentas e tal páginas! Alguma vez eu ia gastar 15 Euros (ou, na altura, quase três mil escudos) a comprar um livro que - esse de certeza! - não iria ler até ao fim?
Foi então que tive uma ideia brilhante! Vou antes comprar "O Hobbit", que é estreitinho, mais barato, e não tem mais dois livros a seguir ao primeiro. Afinal, era só mais um para decorar a estante...
Bolas, mas então não é que o livro foi lido de fio a pavio? Toda aquela conversa sobre tabaco halfling, anões, feiticeiros, e um dragão fazia-me água na boca. Agora tinha mesmo que comprar os tais três livros desse senhor com anéis. Já estava na faculdade, e também esses foram consumidos avidamente.
É extraordinário um tipo olhar para trás e lembrar-se que, sendo hoje um leitor compulsivo de todo o género de livros, tudo começou com um livro sobre zombies, e outro sobre "pessoas pequeninas com cabelos nos pés". Talvez esta seja uma história engraçada para contar aos ditos pseudo-intelectuais que acham que as histórias de fantasia, terror e ficção científica são um desperdício de tempo.
Outra história engraçada foi o hábito que ganhei algum tempo depois de começar a escrever em post-its os livros que ia lendo ano após ano, colocando-os na estante ao lado da cama, e onde hoje consta um longo catálogo que me recorda de todas as dezenas de livros que tive o prazer de tomar como meus até agora. Quantas pessoas é que têm uma lista de todos os livros que leram na vida?
Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Tolkien, Aristóteles, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Nietzsche, R. A. Salvatore, Mark Twain, Richard Bach, Paulo Coelho, Arturo Pérez Reverte, Ildefonso Falcones, Marion Zimmer Bradley, Robert Harris, Frank Herbert, Konsalik, George R. Martin, tantos, tantos, tantos, só porque um dia me deu para fazer birra porque queria comprar um livro de zombies...


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Porreiro, Pá!


Porreiro, Pá
É passar uma tarde a beber bejecas numa esplanada em Sintra, a fazer pouco dos cámones, e depois ir visitar o Palácio Nacional, mesmo que tristemente constate que está ao abandono, fruto da estupidez de quem não tem dimensão para tratar da koltura deste país.

Porreiro, Pá
É ir passar um fim-de-semana na costa alentejana, com quatro miúdas giras (e um gajo feio), sendo que uma dela é a minha ultra-poderosa discípula Jedi de 4 meses, que um dia vai conquistar a Galáxia!
Encher a pança na “Paparoca”, e dar cabo da “linha” a enfardar gelados e croissants na Mabi.
Pela primeira vez acampar, e acordar de madrugada com um caramelo aos berros e a partir vidros, para horas mais tarde descobrir que esse caramelo está na tenda ao lado da minha, com a mão desfeita por ter decidido partir uma janela ao murro no meio de uma discussão com outros caramelos.

Porreiro, Pá
É ver um gajo que #$&@# o dedo todo a pintar bonecos do Warhammer, e ver uma doidinha uma tarde toda aos saltos a fazer questão de me mostrar todos os vídeos que gravou dos Bon Jovi com o seu “dispositivo sem fios Blackberry”.

Porreiro, Pá
É passar uma semana de férias com um bando de geeks, passando as manhãs na praia a jogar à Sueca e ao Monopoly Go; passar as tardes a jogar D&D, Carcassone, Cave Troll, e o Monopólio original (com vinte anos, e que ainda me deixa comprar o Campo Grande por seiscentos escudos!); passar as noites a ver filmes de matar a rir por serem tão maus; fazer grelhados; empaturrarmo-nos em soja e ramen; beber sangria a qualquer hora do dia; e até mesmo comer batatas fritas com componentes tóxicos e regadas com molhos decadentes e provavelmente corrosivos; partir puzzles de madeira, e depois comprar super-cola para os arranjar.

A todos os gremlins que fizeram deste uns dos melhores verões dos últimos 2011 anos... eu “like” de vocês! ;)

O que já não é lá muito Porreiro, Pá é ter que esperar agora um ano para voltar a fazer tudo isto outra vez... :(


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Super 8 (crítica)


2011 está (pelo menos até ao momento) a ser um dos anos mais medíocres em termos de cinema (Hollywood). Depois de fiascos absolutos como “Sucker Punch” e “Transformers 3”, e desilusões como “Tron Legacy” e “Piratas das Caraíbas 4” já começa a tornar-se difícil abrir a carteira para pagar mais um bilhete de cinema. Mas quando aparece um novo filme de J. J. Abrams, produzido por Steven Spielberg, e rodeado de secretismo e suspense... uma pessoa fica com a pulga atrás da orelha. Afinal, J. J. Abrams é um dos realizadores/produtores que de momento mais crédito me merecem (então depois do colossal “reboot” de Star Trek em 2009...).
“Super 8” é essencialmente um tributo de Abrams aos primeiros filmes de Spielberg, aqueles que nos anos 70 e 80 enchiam o cinema de magia. As semelhanças com “E.T.” e “Os Goonies” são muitas, e propositadas. Não vou falar muito do filme, mas confesso que tanto secretismo em redor do mesmo acabou por resultar num “então mas afinal era só isto”? O argumento (também escrito por Adams) não é muito original, nem propriamente criativo. Tem, isso sim, uma densidade/profundidade muito enriquecedora em termos das relações humanas, que exploradas magistralmente pelos jovens actores valorizam bastante o filme. A história roda em torno de um grupo de miúdos que, no final dos anos 70, se entretém a fazer um filme de zombies. No meio desta aventura, um comboio descarrila e... meia hora depois a Força Aérea Americana chega à cidade...
A realização característica de Abrams está, como de costume, muito boa, e a forma como consegue arrastar o suspense durante mais de hora e meia é cheia de mérito. Mas, quando ao fim dessa hora e meia chega “a verdade” é difícil não ficar com a sensação de “bah, esperava-se algo menos cliché”.
A crítica tem recebido muito bem o filme, e de facto é uma das excepções ao que o ano 2011 tem oferecido em termos de cinema.
Há ainda algo em que o filme merece nota 20: os jovens actores. Não me recordo de ver um grupo de miúdos (quase todos desconhecidos) a fazer um conjunto de interpretações tão marcantes. E aqui, indiscutivelmente, o Oscar vai para Elle Fanning. A miúda é soberba, e dá lições de interpretação a muitos actores veteranos de Hollywood. O filme tem duas cenas em que ela arrasa por completo a objectiva. Uma delas, dramática até dizer “chega”, deixa uma pessoa de boca aberta a deliciar-se com o nível de perfeição da rapariga. Os três minutos que dura a cena em que ela vê uma projecção de um filme de família antigo são de bradar aos céus, e justificam bem um Oscar.
Posto isto, é um filme interessante, que não desilude, mas que também está longe de encher as medidas. Há excessos perfeitamente desnecessários, como o idiótico descarrilamento do comboio em que J. J. Abrams fez questão de fazer uma sequência explosiva para cada um dos vagões do comboio. Dá a sensação que são 10 comboios diferentes a descarrilar/explodir cada um de forma mais espectacular (no mau sentido) do que o anterior.
Somente no final, já quando os créditos estão a rodar, é que se percebe o resultado do filme dos zombies, que tem momentos e referências deliciosamente hilariantes (“Romero Chemicals” é divino).

Pelo melhor: a química esplêndida de um grupo de jovens actores com menos de 15 anos, que é coroada por mais uma confirmação do talento daquela que antigamente era conhecida apenas por “a irmã da Dakota Fanning”.

Pelo pior: o sentimento de “faltou aqui qualquer coisa”, motivado pelo mistério que os produtores quiserem criar em redor do filme.

“E.T. phone hooooooooooooome”

“I would like to thank the Academy...”

 “Eu já disse que não me chamo Frodo Baggins... e NÃO sou um hobbit!”

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Croácia e Eslovénia, Parte 1


Ora, consta que O Iluminado andou a vadiar uns dias por terras Croatas e Eslovenas (Ai, as Croatas...). Posto isto, mais vale partilhar com os comuns mortais meia-dúzia de histórias de encantar, ao jeito das Mil e Uma Noites... embora tenham sido apenas sete.
Para quem não está a ver onde se situam a Croácia e a Eslovénia (a seguir à Praça do Comércio, virar à esquerda e ir sempre em frente), referir que faziam parte da antiga Jugoslávia deve ajudar pouco. Confesso que da minha infância os meus conhecimentos a respeito da “Jugoslávia” se resumiam a uma canção dos UHF (Jugoslávia bonita, filha da Europa, fronteiras malditas que o ódio devora, Saraieeeeeeevo, ó-oh-oooooh). Mais tarde iluminei-me um pouco quando houve uma guerra por aquelas bandas, e nós enviámos soldados Portugueses para integrar uma missão de paz no Kosovo. Não querendo tornar este texto numa lição de História (embora em nada me importasse de o fazer, dado que se trata de uma das coisas que mais me fascina), creio que é importante perceber um pouco do contexto de um país que visitamos enquanto turistas. Há seis países (Croácia, Eslovénia, Bósnia, Sérvia, Montenegro e Macedónia) que se situam  geograficamente encostados e onde há vários séculos impera um ódio étnico de dimensões consideráveis (quase comparável ao ódio étnico que O Iluminado tem em relação a um certo “país vizinho”...). A seguir à Segunda Guerra Mundial foi instaurada uma ditadura que visava diluir esse ódio, e formar um grande país unificado sob a égide do comunismo, ao qual foi dado o nome Jugoslávia (“a terra dos eslavos do sul”). Durante alguns anos o sistema aguentou-se, mas quando o ditador Marechal Tito morreu, tudo colapsou. O ódio renasceu, o sistema estava corrupto, e alguns países começaram a proclamar a independência (nomeadamente a Croácia). Não tardou muito para que estoirasse uma guerra brutal em toda a região, que somente foi interrompida pelo facto de as tropas da ONU e da NATO se encontrarem desde finais dos anos 90 a manter a paz.
Falemos de coisas mais interessantes: Dubrovnik. Esta é a cidade mais conhecida da Croácia, embora não seja a capital. Situa-se mesmo na pontinha do sul, no mar adriático, na Costa Dálmata (sim, essa mesmo, dos cães às pintinhas). Dubrovnik tem uma História antiga, e rica, da qual não vou falar aqui, e é famosa pela sua cidade antiga muralhada, que se abre num porto. É uma cidadezinha bonita, com os edifícios todos da mesma cor, em pedra branca, com as janelas com portadas verde-escuro. Há mesmo legislação nesse sentido. A cidade tem um encanto particular de noite. Cheguei pelas 22h00 e TODO o comércio estava aberto. As ruas estreitas estão cheias de bares animados, cheias de iluminação e... miúdas Croatas. Eu tenho obviamente que falar das Croatas, pois estes seres divinos merecem que O Iluminado pare no meio da rua a babar-se! Bonitas, muito simples, e com a maquilhagem ideal. Nada de mulheres super-produzidas, com ar importante e com tanta maquilhagem como o Marilyn Manson. Fiquei fã das Croatas. Da próxima vez que lá for trago umas 3 ou 4 na bagagem do porão. Mas estava eu a falar de Dubrovnik... as águas que banham quer a cidade quer as mil e duzentas ilhas que existem na Costa Dalmata são de um azul-turquesa cristalino, impossível de imaginar. Aquilo não se faz com Photoshop... Falando das águas, das ilhas, e da paisagem, geralmente não fica na memória o hotel em que se permaneceu. Mas tive a sorte de ficar no Hotel Valamar que se situa numa encosta que desce até ao mar sereno. Ao contrário dos outros hotéis, em que “subimos num elevador interior”, neste “descemos num elevador exterior” (panorâmico). E o que dizer quando se acorda às sete da manhã e a vista do quarto do hotel é esta:

Só para fazer mais inveja aos comuns mortais, quando cheguei ao hotel estava um quarteto de cordas a tocar. Ou, dizendo isto mais correctamente, “estavam quatro giraças Croatas a tocar instrumentos de cordas”.
Sobre Dubrovnik, resta dizer que tem um mosteiro franciscano que alberga uma das farmácias mais antigas do mundo ainda em funcionamento (data de 1317), que revela uma fascinante História de saúde-pública e antigas políticas de prestação de cuidados de saúde e higiene à população (em contraste com certas “pessoas” que ainda saem da casa-de-banho sem lavar as mãos depois de mijar).
Seguiram-se Split, Sibenik e Zadar, três cidades igualmente com longa História, muito ligada à religião católica. Split tem um interessantíssimo labirinto de ruas no seu centro, onde existiu o palácio do Imperador Diocleciano (Séc. III), que ao longo dos tempos foi “remodelado” pelos habitantes, e incorporando uma mescla de estilos, edifícios, influências e tudo o mais.
Zadar tem um centro histórico situado numa península, mas é curiosamente pelas suas novidades que a cidade tem interesse. Em anos recentes foi construído um Orgão Marinho, junto à água, que consiste numa série de tubos por onde a água entra, e o seu movimento oscilatório produz uma sequência de sons “mais ou menos musicais”. A outra atracção é o Monumento de Saudação ao Sol, que é um círculo de painéis fotovoltaicos no chão, que durante o dia absorvem a energia, e à noite iluminam-se numa dança de cores. Muito giro.
Depois de uma série de cidadezinhas costeiras muito agradáveis, semelhantes a Cascais, a escala subiu! Plitvice é o nome da região que alberga o principal parque natural da Croácia. É um parque gigantesco, cheio de lagos e cascatas, com as tais águas-azuis-não-Photoshop. Três horas de caminhada entre cascatas, árvores, libélulas azuladas, com passeio de barco incluído... E o passeio de barco até teve direito a animação imprevista: a dada altura desata tudo a falar alto e a apontar para a água... uma cobra amarela banhava-se descaradamente nas águas.
Esta  parece ser uma boa forma de encerrar a primeira parte da viagem. A seguir: Eslovénia.
 Dubrovnik

 Plitvice

 Zadar (Monumento ao Sol)

 O iate privado d'O Iluminado, à Sua espera em Trogir

quinta-feira, 16 de junho de 2011

“Dune”, de Frank Herbert

Durante várias décadas a ficção científica e a fantasia foram considerados géneros literários menores. Entre o legado que o século vinte deixa para a História, fica o crescimento e afirmação destes géneros, embora ainda tenha sido no século anterior que surgiu aquela que talvez tenha sido a obra que mais importância teve para a ficção/fantástico: o inestimável “Drácula”, de Bram Stoker.
“Dune” foi escrito por Frank Herbert nos anos 60. É, porventura, uma das obras maiores de toda a Literatura. Creio que a sua dimensão ainda não foi inteiramente assimilada, mas estou certo que a Humanidade um dia chegará lá...
A história de Dune decorre no futuro, numa era onde existe um império galáctico, governado pelo Padisha Emperor Shaddam IV, e composto por várias Casas Nobres, povoadas por duques e barões. A base de toda a economia galáctica reside na exploração de “especiaria”, uma substância que, entre outras coisas, permite as viagens interplanetárias.
He who controls the spice, controls the Universe.
E a especiaria só existe num único planeta em todo o Universo: Arrakis, o planeta desértico também conhecido como Dune.
A história inicia-se com a chegada da Casa Atreides a Arrakis, para tomar nas suas mãos o controlo da exploração da especiaria, retirando-o à Casa Harkonnen. A densidade da intriga política que se esconde por trás desta decisão do Padisha Emperor Shaddam IV é apenas uma das múltiplas riquezas de Dune.
Política, Profecia, Ecologia e Civilização, estes são os quatro pilares que definem a saga. Raras vezes um livro se concentrou tanto na ecologia de um planeta. Arrakis é a verdadeira personagem principal da história. Todas as personagens que entram em Dune são meros figurantes, com excepção de Paul e da sua mãe, Jessica. Frank Herbert não era um escritor por aí além, mas a perfeição com que conseguiu caracterizar o planeta desértico, habitado pelas impressionantes minhocas gigantes que vivem nas areias de Dune, e pelos enigmáticos Fremen, que olham para a água como o bem mais precioso do Universo, e que têm os olhos toldados por uma névoa azul, efeito da exposição à especiaria, garante-lhe um lugar de destaque na literatura fantástica.
Toda a obra é imersa numa forte profecia, misturada por uma mitologia muito peculiar, tendo conseguido produzir algumas das frases mais marcantes da ficção científica.
Fear is the mind killer.
The sleeper has awakened!
He is the Kwisatz Haderach.
A juntar-se a este património há ainda a riqueza de termos, muitos de inspiração árabe, que povoam o livro, como desde logo “a jihad”.
Dune é filosofia, religião, ciência, mito, uma viagem profunda pela criatividade que faz dos humanos a espécie dominante, não de Arrakis, mas do planeta Terra.
Quando vos perguntarem que livro levariam convosco se fossem para uma ilha deserta, respondam “Dune”, sem hesitar. Aproveitem para levar uma garrafinha de “Water of Life”, para quando o terminarem...
 
The beginning is a very delicate time. Know then that it is the year 10191. The Known Universe is ruled by the Padishah Emperor Shaddam IV, my father. In this time, the most precious substance in the universe is the spice Melange. The spice extends life. The spice expands consciousness. The spice is vital to space travel. The Spacing Guild and its navigators, who the spice has mutated over 4,000 years, use the orange spice gas, which gives them the ability to fold space. That is, travel to any part of universe without moving.
Oh, yes. I forgot to tell you — the spice exists on only one planet in the entire universe. A desolate, dry planet with vast deserts. Hidden away within the rocks of these deserts are a people known as the Fremen, who have long held a prophecy that a man would come, a messiah who would lead them to true freedom. The planet is Arrakis, also known as Dune.
- Princess Irulan