Música. Literatura. Cinema. Banda Desenhada. História. Portugal. Cultura. Sociedade. Uma perspectiva sobre o que a Humanidade faz de melhor. De Beethoven a Jodorowsky. De Dune a SPQR. Gnothi Seauton.
Para diversificar os temas abordados aqui no blogue vou começar 2013 a
falar daqueles simpáticos jogos que “explodiram” no ano passado graças aos
novos telemóveis e tablets.
Muitos destes jogos (que presumo também se incluam na categoria “apps”)
são disponibilizados gratuitamente a quem tenha conta no Google, ou tenha
produtos da Apple.
Quem me conhece (gente afortunada…) sabe que nunca tive muito o bichinho
dos jogos de computador. Mesmo os jogos mais “avançados” (Skyrim ou Diablo 3)
não me seduzem muito. Por outro lado, estes jogos completamente básicos são
altamente viciantes. Angry Birds, Plants vs Zombies, e coisas do género.
Por agora, entretenho-me a falar do “Brainsss”. Fã de zombies como sou,
decidi experimentar este. É entretenimento puro, e garantido! Numa abordagem
muito cartoonesca, o jogador tem por missão andar a passear um grupo de zombies
por cenários diferentes, tendo por objectivo “converter” todos os humanos que
lhe aparecem pelo caminho. Acho lindo ver um amontoado de cartoons, de braços
esticados, a correr pelo mapa fora para zombificar as pessoazinhas
aterrorizadas. Espero que isto não faça de mim um psicopata…
Apesar de inicialmente o jogo parecer um bocadinho aborrecido e
repetitivo, com o passar dos níveis começa a tornar-se mais estimulante, com
variações nas missões, e adversários com “poderes especiais” que obrigam a
pensar um bocadinho (notem a ironia, num jogo de zombies) na estratégia a
adoptar. Pelo meio, há o “rage counter” que torna o jogo ainda mais cómico.
Basicamente, à medida que o nosso grupo de zombies vai convertendo humanos, e
derrubando os vários objectos que lhe aparece pela frente, vai aumentando o
“contador de fúria”, que quando fica cheia permite activar o “rage mode”,
tornando o ecrã todo vermelho, e pondo os zombies a fazer sprints pelo ecrã
fora, atrás das vítimas.
Simples, atraente, divertido, e despretensioso. Uma boa forma de
descontrair um bocadinho.
O ano 2012 não deixou grandes saudades. Desde a histeria colectiva em que
se viveu boa parte do ano, com as maçonarias, as reformas do Presidente da
República, e tanta outra coisa absurda, até à imposição aparentemente
definitiva do aborto ortográfico, pode dizer-se que foi o ano de “reality
check” colectivo. Descobrimos finalmente que não tínhamos dinheiro, não
tínhamos voz activa, não tínhamos peso, e que no meio de tudo isto a democracia
é uma ilusão. Bonita, mas mesmo assim uma ilusão. Assistimos a amigos a ir
embora para outros países, e a amigos e familiares a perderem o emprego,
enquanto a maralha sem moral continua a fazer o que quer e lhe apetece sem
quaisquer consequências. Não temos afinal a capacidade de mudar as coisas, como
desejaríamos. Não estamos assim tão diferentes dos tempos dos senhores feudais,
onde continuamos a sacrificar o que temos para que os nobres continuem a comer
as cerejas no topo dos bolos. Os tempos mudaram, os vícios não.
Enfim, mas centremos as nossas atenções neste blogue, que no meio disto
tudo é o que nos traz aqui. Para que 2012 fique devidamente encerrado, vamos ao
famoso BALANÇO DO ANO!
Até para este pobre blogue o ano de 2012 foi trágico. Senão, vejamos:
enquanto no ano passado chegavam aqui muitos internautas que pesquisavam por
“badalhocas no facebook”, se bem se lembram, este ano a maioria dos visitantes
chegou aqui à procura de “livro de reclamações”. O que não deixa de ser uma
enorme ironia, sendo eu um Grumpy Cat que manda vir com tudo e mais alguma coisa.
Fiquei igualmente surpreendido ao constatar que ao contrário do ano passado em
que a maioria dos visitantes vinha da Holanda, este ano… nem um! Em
compensação, parece que agora tenho uma legião de admiradores vindos da
América. Portanto, como mandam as regras da boa educação: “Dear American
visitors, if you voted for Obama, please learn Portuguese and continue to
browse the site. If not,
Grumpy Cat wishes you to choke. Have a nice day.”
Em termos de “posts mais vistos” os prémios este ano vão para: 1) “A
Glória dos Traidores”; 2) “O Hobbit”; 3) “Cloud Atlas”. O que é interessante,
porque no ano passado sempre que escrevia sobre cinema ficava a falar com os
cucos. É sempre bom mantermos a coerência.
Nas antípodas, os “posts menos vistos” foram “O Nobel da União Europeia”
e “Filhos da Madrugada Cantam Zeca Afonso”. Hmmm, portanto, quando eu falo de
hobbits e dragões vem toda a gente a correr, quando falo de coisas sérias,
ninguém liga. Conclusão: o blogue foi invadido por miúdos de seis anos. Em
2013, falar de Morangos com Açúcar!
Passemos, então, aos Prémios PSY 2012.
2012: Uma Música
O ano que passou até foi interessante em termos de música. Infelizmente
vai ficar para a História como o ano em que um intrujão coreano que roubou o
meu nome conquistou o mundo inteiro com o “Gangnan Style”.
Pela parte que me toca, podia ir buscar muitas canções para dizer “foi
esta”, e confesso que a Adele com o magnífico “Skyfall” esteve quase a ser a
eleita. No entanto, e apesar de ser praticamente desconhecida (obrigado media
nacionais por só passarem lixo), este ano o que me arrebatou (apesar de ter
sido lançado ainda em 2011) foi um tema dos magníficos Florence and the
Machine.
2012: Um Filme
Em termos cinematográficos este foi um ano “misto”, essencialmente por
ter apanhado algumas das maiores desilusões da minha vida cinéfila. Mas, acima
de tudo, foi um ano em que tomei consciência da diferença abissal que existe
entre a forma como as gerações actuais e as gerações anteriores percepcionam o
cinema. Quando fui ver os “Vingadores” pensei “ok, é um filme engraçadito”;
nunca me ocorreu ver pessoas a bradarem aos céus e a classificarem-no como um
dos melhores filmes de todos os tempos. “Prometheus” deixou-me na dúvida; é um
excelente filme de ficção científica (Riddley Scott continua a ser Deus), mas achei-o
muito aquém das expectativas enquanto filme enquadrado no universo “Alien”.
Depois houve aquele “terceiro filme da trilogia Batman do Nolan”, que eu já fiz
um esforço para apagar da minha memória, e que mais uma vez tem legiões de
amibas que o acham o melhor filme de todos os tempos. Felizmente, o último
trimestre salvou aquele que se encaminhava para ser mais um ano trágico. “Skyfall”
foi uma boa surpresa, e uma digna homenagem aos 50 anos de James Bond.
Isto tudo para dizer que, quem ainda está à espera para descobrir qual
foi o meu filme preferido entre o “Hobbit” e o “Cloud Atlas” é porque tem
andado muito distraído a ler este blogue.
2012: Um Livro
Falando em tragédias, 2012 foi a título pessoal um ano trágico em termos
de leitura, porque li menos de metade do que queria/deveria ter lido. Além de
ter tido azar na escolha de alguns livros que se revelaram um completo
desperdício de tempo, ainda houve mais uma catrefada deles que larguei a meio.
Dito isto, cabe-me falar de “The Master and Margarita”, do russo Mikhail
Bulgakov. É um colosso literário que nem depois de o ler tenho total percepção
da sua dimensão. Trata-se de uma história surrealista (o que é dizer pouco),
passada na União Soviética do início do século XX, reunindo um conjunto de
estranhas personalidades, entre as quais o próprio Satanás disfarçado de
mágico, e um gato falante que aparece na capa com uma pistola e uma garrafa de
vodka. Surrealista o suficiente? Li muito sobre a obra depois de a terminar, e
confesso que tem uma história fascinante, que não consigo acompanhar por
inteiro, dado que não sou propriamente um expert
em História da Rússia. Fiquei deslumbrado com a ousadia do livro, e todo o
ambiente literário-fantástico em redor do mesmo. Depois de conhecer o percurso
da obra ainda me tornei maior fã da mesma. Espero um dia voltar a lê-lo, de
preferência depois de conhecer mais aprofundadamente a realidade russa do
início do século XX, e assim conseguir interiorizar bastante melhor todo o
significado do livro.
2012: Um Comentário Político
2012: Um Momento
E porque porra haveria eu de escolher apenas um, quando tenho a
felicidade de ter vivido dezenas deles? A vida é demasiado boa para nos
cingirmos a apenas um momento, ou até mesmo dois, ou três! Por isso, ao bom
estilo hobbit, ergo a minha garrafa de Casal Garcia para brindar a todos os
que: partilharam comigo um chocolate quente numa esplanada em Janeiro (a morrer
de frio); beberam comigo uma Guinness num Irish Pub; me disseram na praia “Mas
como é que tu não conheces Dr. Who?!?”; trocaram comigo ovelhas por tijolos
(hehehehe); obrigaram-me a regressar a um restaurante Indiano (calma, ainda
estou vivo); foram comigo ao cinema (deixando de fora uma pessoa que me rogou
sete pragas porque eu não a convidei a ir ver o Hobbit por saber que ela ia
detestar o filme); jogaram comigo horas intermináveis de roleplay onde fazemos
Tolkien empalidecer com a nossa awesomeness; me puseram a assar castanhas
dentro de uma lareira (e a espalhar sal pelo chão da casa toda); tiraram comigo
fotos tresloucadas no meio de budas gigantes (ainda estou à espera de as ver!!!);
jogaram comigo xadrez na praia, durante um fim-de-semana onde até me pagaram o
bungalow (woohoo!!!!); ficaram a olhar para mim em estado-de-choque cada vez
que tento convencer a minha discípula jedi que todos os animais do mundo fazem
“muuuuuuuuuu”.
E que 2013 tenha três vezes mais momentos destes, onde eu continue a
fazer-vos rir, continue a rir de mim próprio, e continue a rir à gargalhada com
vocês (como, por exemplo, quando uma certa vidente confunde a garrafa de Fanta
com a de vodka).
2012: O Momento Mr. Bean do Ano
Verão. THE PSY vai a uma feira medieval com um grupo de amigos. A malta
senta-se para comer caldo verde numa
daquelas mesas grandes, com bancos compridos. Ao nosso lado está um casal de
Canadianos, metido consigo mesmo. THE PSY mete conversa, e pouco depois temos
uma mesa animada onde nos fartamos de conversar, tirar fotografias, ouvir o
Canadiano a tocar a sua harmónica, e onde obviamente THE PSY diz aos Canadianos
para visitar uma série de coisas boas em Portugal, aproveitando ainda para
dizer mal dos Espanhóis. Como exigem as regras da boa etiqueta. Passada quase
uma hora de amena cavaqueira, o gentleman
Canadiano, sentado ao meu lado, com a maior das naturalidades, inclina-se
ligeiramente para a frente, empinando o cu e soltando um tremendo peido. Não me
refiro a um mero traque, daqueles que fazem as bordas do cu bater uma na outra
como se fossem castanholas. Muito pior. Pensem mais em algo ao nível de o
Godzilla a acordar mal disposto, com uma bomba atómica a cair-lhe em cima. THE
PSY, com a sua educação muito Europeia, fica estarrecido, de olhos esbugalhados,
pálido, imóvel, em choque absoluto.
Algum tempo depois perguntam os amigos: “O que é que se passou que
estavas tão falador e de um momento para o outro ficaste tão calado?”
Percebo agora a música do South Park:
Times have changed
Our kids are getting worse
They won't obey the parents
They just want to
fart and curse!
Should
we blame the government?
Or blame
society?
Or
should we blame the images on TV?
No, blame
Canada!
Blame Canada!
Ora bem, e não posso encerrar o balanço do ano sem cumprir uma promessa
que deixei no ano anterior: a das badalhocas! Sim, para os mais esquecidos eu
prometi que iria homenagear o facto de um dos termos mais pesquisados que
trazia visitantes a este blogue ser “facebook de badalhocas”. E assim sendo,
aqui vos deixo com os votos de um Bom 2013, acompanhado de uma foto escaldante da
maior badalhoca de todos os tempos!
Peter Jackson colocou o cinema num novo patamar quando realizou a
maravilhosa trilogia “O Senhor dos Anéis”. Até Hollywood se rendeu, ao atribuir
11 Oscars ao 3º filme, e fazendo dele o maior vencedor de sempre, em ex aequo com “Ben-Hur” e “Titanic”. Uma
década mais tarde, e com muitos avanços e recuos na produção, o realizador
lança uma nova trilogia dedicada ao prelúdio da obra maior de Tolkien.
Jackson deu todas as provas que necessitava dar com a trilogia anterior,
mas confesso que me causou bastante estranheza tantas alterações anunciadas
durante a fase de produção. Primeiro não ia ser um filme, iam ser dois. Depois,
já a meio deste ano, afinal não vão ser dois, vão ser três. Bom, tento em conta
que o livro “O Hobbit” tem metade da extensão de qualquer um dos três volumes
do Senhor dos Anéis, isto é no mínimo estranho. Mas veremos. Tal como disse, o
homem já deu todas as provas que tinha a dar.
Li O Hobbit pela primeira vez há já uns quantos anos, no início da faculdade,
e voltei a lê-lo no ano passado, precisamente por o querer fazer antes de
chegar ao cinema. É um livro para crianças, onde os anões são descritos como
tipos joviais que vestem calças amarelas, botas azuis, e gorros verdes.
Portanto, bastante distante do Senhor dos Anéis, e ainda mais distante da
abordagem de Jackson no cinema. Se Jackson tivesse seguido por este caminho
corria o risco de ser arrasado pelos fãs, à semelhança do que aconteceu com
George Lucas quando lançou a segunda trilogia de A Guerra das Estrelas. Mas
nada disso. Jackson mantém o mesmo estilo, e faz uma coisa interessante:
acrescenta história. Não é muito fácil analisar este primeiro filme do Hobbit,
pois para o fazer é necessário perceber qual foi a opção do realizador. Em vez
de pegar no livro e adaptá-lo, a equipa liderada por Peter Jackson fez um
trabalho hercúleo de enaltecer todo universo Tolkienesco. À história original
foram adicionadas inúmeras cenas que provêm dos muitos apêndices que Tolkien
deixou na sua obra, e onde explica muito do mythos
de Middle Earth. Estes filmes são um trabalho de devoção. Muito mais do que uma
obra cinematográfica épica, trata-se de dar vida à enorme obra de Tolkien em
imagem real. A dedicação é considerável, e só por isso o realizador merece uma
vénia. Este é um trabalho demorado, porventura penoso, e que pode ser lido como
a forma de Jackson venerar uma das maiores criações literárias de sempre. Mas
este é, também, a meu ver, um dos pontos menos bons do filme, pois leva à
existência de cenas que se arrastam por demasiado tempo, quebras constantes no
ritmo do filme, e chega a dar a sensação de ter faltado ali uma segunda
“triagem” para melhorar o produto final.
Dito isto, tomara 99% do cinema que se faz mundialmente estar ao nível
deste primeiro Hobbit. Os cenários absolutamente de sonho voltam a deixar-nos
embevecidos. Ninguém consegue criar cenários mais deslumbrantes do que estes
tipos. Ponto final. Toda a sequência inicial que mostra a queda de Erebor é
divina. A atenção ao pormenor, e o cariz épico de cada imagem, não tem
paralelo.
Inevitavelmente, O Hobbit é inferior ao Senhor dos Anéis. Já o era em
livro, e continua a sê-lo em filme. Em parte isso deve-se à mudança de
protagonistas. Se na trilogia inicial tínhamos um conjunto fabuloso de actores,
e um Elijah Wood que – sendo um actor com muito low-profile – conseguiu criar um Frodo que nos cativou com a sua
inocência, neste Hobbit há uma quebra visível. Martin Freeman não me convenceu
minimamente como Bilbo. Não cria qualquer empatia com o espectador. Sendo a
personagem principal da história, acaba por ser quem mais passa despercebido
nela. Não aquece, nem arrefece. É totalmente insípido, chegando ao ponto de nem
se perceber muito bem o que anda ali a fazer. Felizmente, Richard Armitage faz
um Thorin Oakenshield muito bom, e tem a sorte de se fazer acompanhar por
actores poucos conhecidos, mas que criam uma companhia de anões extraordinária,
com destaque para Ken Stott (Balin) e Graham McTavish (Dwalin), que ficam muito
próximos do insuperável John Rhys-Davies, na pele de Gimli na trilogia inicial.
Ian McKellen é Ian McKellen, e mais não é preciso dizer.
Howard Shore tinha composto as melhores bandas sonoras de todos os tempos
para a trilogia inicial. São obras musicais que ultrapassam tudo e todos e que
não podem ser sequer comparadas ao resto dos comuns mortais. Nem John Williams
ou Hans Zimmer, por mais geniais que sejam, chegam sequer ao nível daqueles
três álbuns. Mas, para O Hobbit, fiquei com a sensação que Shore seguiu o
caminho da preguiça, limitando-se a usar os temas icónicos do Senhor dos Anéis.
Pouca coisa nova consegui identificar no filme, destacando obviamente a canção
dos anões, que é inclusive um dos momentos mais bonitos e marcantes do filme.
Dá-me a sensação que podia ter ousado algo mais. Mas não quero ser injusto, e
enquanto não ouvir o álbum “com olhos de ver”, dou o benefício da dúvida.
E de resto há “bonecada digital”, que se nos filmes anteriores
surpreendiam pelo avanço tecnológico, actualmente já me fazem olhar para eles
com alguma indiferença. O excesso de digital e abuso de coloração em algumas
coisas tornam-nas demasiado exageradas. E quando a isso se junta o excesso de
cenas com goblins e wargs, que parecem estar ali apenas para agitar um
bocadinho as cenas mais serenas… acho que aqui faltava a tal triagem que referi
anteriormente.
Quem ler esta crítica é capaz de ficar com a sensação de eu estar a dizer
mal do filme. Nada disso. O Hobbit é um filme de excelência, fruto de um
trabalho extraordinário de dedicação ao culto de Tokien. Nem tudo no filme é
perfeito, e mantenho que o acho inferior a qualquer um da trilogia anterior,
pelas razões enunciadas. Mas tomara eu que todos os filmes que eu pago para ver
no cinema chegassem aos calcanhares deste.
Posto isto, fico com o bichinho para ver o que nos espera nos dois
próximos filmes, até porque cerca de 70% da história já foi “despachada” neste
primeiro filme, o que faz antever que Jackson vai dar ainda mais ênfase aos
elementos externos à história original.
Pelo Melhor:
A caracterização dos anões. A dedicação apaixonante de Peter Jackson a
dar vida ao universo Tokienesco. A oportunidade de ter fantasia de elevadíssima
qualidade em cinema. A música “Misty Mountains” cantada pelos anões.
Pelo Pior:
Martin Freeman que pouco mais aparenta ser do que um pãozinho sem sal, e
que relega o protagonista da história para um mero apontamento de rodapé. E
pelas mesmas razões, os dois anões mais novos que mais parecem adolescentes
americanos numa fila para a Loja Apple à espera do novo i-phone, e que têm
tanto de anões como eu tenho de elfo. E toda a gente sabe que odeio elfos.
Se me perguntassem há 10 anos, responderia sem hesitações que era um
europeísta convicto. Desde muito novo guardo memórias do deslumbramento que
sentia com o facto de pertencermos à CEE, que posteriormente evoluiu (não necessariamente
de forma positiva) para a União Europeia (UE). Os valores que esta União
defendia eram tudo aquilo em que eu acreditava enquanto cidadão. Um conjunto de
países diferentes, todos com uma rica e extraordinária História, unidos para
partilhar conhecimento e responsabilidades comuns. Cooperarem a nível
científico, em termos de cidadania, na defesa do território Comunitário. A
Europa era o espaço de excelência do mundo. Éramos a vanguarda de tudo o que
era “bom”.
Igualmente, sentia um interesse particular pela atribuição dos Prémios
Nobel. Toda a gente olhava com respeito e expectativa para, pelo menos, dois
deles. Aqueles que, provavelmente, mais diziam do ponto de vista social: o
Nobel da Paz e o Nobel da Literatura. As outras categorias, mais científicas,
sempre foram um pouco mais alienígenas ao conhecimento geral.
Se por um lado o Nobel da Literatura é sempre mais ou menos pacífico –
gostos pessoais à parte, pois felizmente o que não falta no mundo são
escritores cheios de talento – já o Nobel da Paz, de quando em vez, reserva-nos
alguns narizes torcidos. Cada Prémio Nobel é atribuído por uma entidade
diferente. Já ficaram a saber uma coisa nova só por lerem este artigo, gente
sortuda! No caso do Nobel da Paz, a responsabilidade cai num comité eleito pelo
Parlamento Norueguês. Há que reconhecer (e congratular) que este comité está
sempre bastante atento aos temas da actualidade mundial, o que leva muitas
vezes ao risco de gerar grandes controvérsias aquando da atribuição do prémio.
Recordo-me quando, há uns anos, a distinção foi atribuída a Al Gore e,
genericamente, aos cientistas que trabalhavam o tema das Alterações Climáticas.
Muita gente achou a ideia absurda, mas poucos têm a noção das razões – mais do
que lógicas e sérias – por trás desta atitude. Esta era uma forma de o Prémio
Nobel se associar a um tema da maior importância, que infelizmente tem sido
alvo de muita incúria e demagogia reles. Já associar o nome de Al Gore à
questão, confesso que me causou alguma comichão. Ele foi de facto um motor
importante para a mediatização do tema, mas também houve uma banalização
provocada por isso. Lembro-me de quando ele andou em périplos por vários países
do mundo, nas suas célebres conferências, onde certamente era bem pago para
dizer coisas sobre as quais qualquer professor universitário sabia muito mais
do que ele. Cá em Lisboa também houve uma dessas célebres conferências, no
Museu da Electricidade, para onde correu toda a fantocharia política. Não houve
um “intelectual” do nosso Parlamento que não tivesse ido a correr para se
associar ao evento, e aparecer na televisão. Uma histeria idiota, para mais num
país que tem pessoas da área da ciência que são referências em termos do estudo
das alterações climáticas, nomeadamente da FCT. Nem de propósito, no jornal
Público vem um artigo do Professor Filipe Duarte Santos (link).
Seguiu-se o “estranho caso” de Barack Obama, que ainda nem tinha aquecido
o assento da cadeira presidencial e já era galardoado com o prémio. Percebeu-se
a “mensagem política”, mas pergunto eu: um prémio não é algo que se atribuiu a
alguém pelo mérito de um trabalho feito? Atribuir o Prémio Nobel da Paz ao
presidente de um país que estava envolvido em várias guerras por esse mundo
fora, e cujo orçamento anual gasto na indústria militar daria para sustentar
dezenas de países… só como gesto de sarcasmo. E são este tipo de atitudes que
minam por completo a credibilidade de algo tão importante como um Prémio Nobel
da Paz. Não pode ser encarado como uma espécie de “Recomendação da Assembleia
da República”, onde os deputados aconselham o governo a legislar sobre um
assunto, ou a tomar atenção a uma matéria. Um prémio é o reconhecimento por
algum feito alcançado. Banalizá-lo é coloca-lo ao nível de uma cerimónia estilo
“Miss Praia da Nazaré 2012”.
Chegamos por fim ao Nobel atribuído este ano à União Europeia. A meu ver,
a UE é um dos maiores feitos da Humanidade. Em teoria, pelo menos, já que
prática há demasiadas questões para que uma afirmação destas seja feita de
ânimo leve. Aqui se fez a Paz, derrubaram-se barreiras, partilharam-se
culturas, misturaram-se populações, desfizeram-se fobias, trabalhou-se no
sentido de garantir prosperidade, dignidade, e saber, a mais de 500 milhões de
seres humanos. Aqui se decidiu adoptar o “Hino à Alegria”, versão instrumental,
como hino comunitário. E, portanto, atribuir este prémio na altura em que boa
parte de tudo isto se está a destruir é, novamente, caricato.
Em pouco mais de um ano, boa parte dos líderes europeus foram varridos
pelos seus povos. Os países mais fortes mostram um total desprezo pelos mais
fracos, dando-se ao luxo de mandar bocas na comunicação social. Ver ministros
das finanças de uns países a insultar o povo do país vizinho não é propriamente
normal na Europa. Ou ver o Presidente do Parlamento Europeu, que foi um dos
“três estarolas” que recebeu o prémio nas mãos, a atacar Portugal por ter
negócios com Angola. Testemunhámos, inclusive, aquela bonita atitude “nós não
somos a Grécia”, seguido de “nós não somos Portugal”, “nós não somos a
Irlanda”, “não somos a Espanha”… A xenofobia corre livre. Na Grécia, os
neonazis ocupam 20 lugares no parlamento, enquanto a BBC revela notícias de
“raides” nocturnos que os mesmos fazem, em conivência com a polícia, para
atacar imigrantes, e em alguns casos torturá-los violentamente.
É esta a Europa do Prémio Nobel da Paz? Onde milhares de pessoas passam
fome? Onde centenas de pessoas cometeram suicídio por perderem as suas casas,
perante a passividade das autoridades? Onde os cidadãos são alvo de violentas
cargas policiais por manifestarem o seu descontentamento pela destruição de
parte daquilo por que lutaram os seus pais e avós? Onde meia-dúzia de
“senadores” se acham no direito de humilhar os povos dos países vizinhos,
tratando-os como se fossem gente pestilenta e sem quaisquer direitos? Onde se
queimam bandeiras da Alemanha, e da própria UE, em manifestações de rua?
E, como cereja no topo do bolo, temos Barroso, Rompuy e Schulz a
receberem o prémio em nome dos 27. Faz sentido, são o espelho perfeito da
inépcia total e absoluta a que estão entregues os destinos da Europa
presentemente, onde se fazem duas dezenas de cimeiras para, em cada uma delas,
se anular tudo o que foi decidido na anterior, e alvitrar novas directrizes,
que geralmente duram 48 horas até caírem por terra.
Novamente, percebe-se a mensagem por detrás da atribuição do prémio neste
momento, mas como “proposta de reflexão” termino questionando: estamos a
colocar estas pessoas na mesma lista de Nelson Mandela?
Em 1999 os irmãos Wachowski revolucionaram a História do cinema com o
deslumbrante Matrix. Goste-se ou não do género, certo é que Matrix foi um
daqueles filmes que empurraram o cinema para uma nova fase, nem que fosse
somente pelos inovadores e irreverentes efeitos especiais, aliados ao estilo e
visual do ambiente que foi posteriormente copiado até à exaustão.
Nos 10 anos que se seguiram, os Wachowski desapareceram praticamente de
cena. Em 2012 regressam com “Cloud Atlas”. Em boa hora o fizeram. É uma das
maiores obras-primas, a todos os níveis, desde que outros irmãos (franceses)
inventaram a Sétima Arte.
Cloud Atlas não é um filme. É um prodígio do cinema.
Há muito poucos filmes que partilham o panteão em que Cloud Atlas se
inclui (é o caso de “2001, Uma Odisseia no Espaço”).
São seis filmes dentro de um. Seis histórias, todas elas magníficas: uma
viagem a bordo de um navio no século XIX; um jovem compositor que luta para
compor uma sinfonia entre as duas Guerras Mundiais; um thriller em redor de uma investigação nos anos 70 em torno de uma
central nuclear; um velho editor que em 2012 se vê aprisionado num lar para
idosos; uma luta pelos direitos humanos no século XXII; e um cenário
pós-apocalíptico onde duas sociedades humanas distintas encontram uma
inesperada simbiose. E depois, o “toque”: todas as histórias estão interligadas,
e as personagens de cada uma dessas histórias são interpretadas pelo mesmo
conjunto de nove actores. Cada história é uma ode à tolerância, à coragem, à
resiliência, à quebra do preconceito.
Comecemos pelos actores. Nunca uma direcção de actores foi tão longe. Tom Hanks, Hugh Grant, Halle Berry,
Hugo Weaving, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Doona Bae, James D’Arcy e Ben
Whishaw. Todos eles magistrais. A plasticidade de Tom Hanks é, como já
nos habituámos, tremenda. Hugo Weaving arrisca um pouco mais neste filme do que
é habitual, em particular com a personagem “Old Georgie”. Weaving é
particularmente reconhecido pela sua voz fabulosa, associada a uma dicção
notável. Mas aqui demonstra – para quem ainda tinha dúvidas – que quando é
necessário brilhar na interpretação, ele está à altura. Não vou falar de todos
os actores, mas quero focar-me em Jim Broadbent. É porventura o menos conhecido
do elenco, e é surpreendente ao ponto de me pôr a desejar que lhe atribuam um
Oscar (algo a que ligo muito pouco). Broadbent cria as personagens mais
marcantes do filme: o velho compositor rezingão e mesquinho, e o apaixonante e
aluado editor que se vê encarcerado num lar para idosos. Extraordinário. Ambos
comoventes na reflexão sobre a condição humana.
Cloud Atlas é um filme de emoções. Há já muito tempo que não me ria tanto
num filme. Há momentos de comicidade de génio absoluto. Em igual quantidade há
momentos de drama, que nos deixam com o olhar tenso. E há momentos épicos, inspiradores,
que nos põem literalmente nas nuvens. Alguns dos diálogos são fortíssimos.
Depois temos os cenários, a caracterização, a fotografia… Tudo perfeito.
Não há uma cena em três horas de filme que não seja magnífica. A caracterização
ultrapassa qualquer coisa até hoje vista. Alguns dos vários papéis que os
diversos actores interpretam só são reconhecidos no genérico final, quando nos
é revelado quem faz de quem ao longo do filme. E nesse momento é ver a
audiência a fazer “aaah!”, uns atrás dos outros.
Do que me falta falar? Da música. Igualmente divina, e dos aspectos a que
geralmente tomo mais atenção nos filmes. Não vem das mãos de nenhum dos “pesos
pesados” de Hollywoood, mas é curioso verificar que um dos temas mais tocados
ao longo do filme é visivelmente inspirado
no “Dark Knight” de Hans Zimmer (que se tornou uma das bandas sonoras mais
influentes do cinema contemporâneo). A obra, como um todo, é deslumbrante.
Basta pesquisar “Cloud Atlas Sextet” no Youtube. A dimensão da música assenta
que nem uma luva no ambiente do filme. E quando chegamos ao “All Boundaries Are
Conventions”, o mundo desmorona ao nosso redor.
Em suma, estamos perante a perfeição cinematográfica. Um daqueles raros
filmes que muita gente vai criticar por nem sequer ter a capacidade intelectual
para perceber o que tem perante si. A realização dos Wachowski e de Tom Tykwer
é excelente, a adaptação do argumento não tem falhas, em momento algum o
espectador se sente perdido em qualquer uma das seis histórias que se
desenrolam simultaneamente. O conjunto de actores, e os diversos desempenhos
que alcançaram, é ímpar. A música é intimista, bonita, simples, profundamente
adequada. Cloud Atlas é, como disse, um prodígio do cinema, mas acima disso, um
hino ao Ser Humano.
Enternecedor. Épico. Memorável. Profundo. Complexo. Inesquecível. Três
horas absolutamente imperdíveis que conto repetir ainda antes de o filme sair
das salas de cinema.
Pelo Melhor:
O argumento. A realização. As interpretações. A música. A caracterização.
O guarda-roupa. A fotografia. A montagem. Os efeitos especiais. A direcção
artística. O som.
Pelo Pior:
A decisão imperdoável de terem feito um filme de três horas, em vez de um
filme de seis ou sete…