Música. Literatura. Cinema. Banda Desenhada. História. Portugal. Cultura. Sociedade. Uma perspectiva sobre o que a Humanidade faz de melhor. De Beethoven a Jodorowsky. De Dune a SPQR. Gnothi Seauton.
domingo, 7 de julho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Sabem quem faz hoje 90 anos?
A MINHA AVÓ! :)
É verdade, a minha velha safada de olhos azuis provocadores celebra hoje
nove décadas. É a única avó que conheci, já que a outra avó e ambos os avôs
faleceram antes sequer de eu nascer.
Foi a esta avó que fui buscar o meu mau feitio, a minha ruindade, e o meu
irresistível carisma. Ah, e a modéstia, também!
Portanto, hoje eu estou de parabéns, pois recordo todos estes anos de
sacanice partilhada, bem como as inúmeras memórias, como o facto de ter sido
ela a ensinar-me todos os Reis da História de Portugal, ainda muito antes da 4ª
classe (foi, basicamente, estudar a minha árvore genealógica...).
terça-feira, 18 de junho de 2013
Guerra aos Outdoors
Venho pela presente declarar guerra, unilateralmente, e sem o aval das
Nações Unidas, aos outdoors das campanhas eleitorais! E, já agora, a todos os
outros. Estou à beira de me tornar uma espécie de D. Quixote e atravessá-los com
uma lança de um lado ao outro.
Todos os concelhos por onde passo estão vandalizados por estas belos
pedaços de “mobiliário urbano”. Não sei quem teve a feliz ideia de apelidar
isto de “mobiliário”, pois confesso que em casa não tenho vontade de pegar num
machado e desfazer a mobília. Em cada rotunda amontoam-se por vezes 4 ou 5 de
todas as cores, com carantonhas gigantescas, e frases que denotam um
brilhantismo único. Deve haver um catálogo com estas frases, pois são todas de
uma qualidade que os seus autores são sérios candidatos aos Prémios Camões,
Pessoa, e porventura ao Nobel da Literatura.
Até na Estrada Marginal – a mais bela do país, e uma das mais bonitas da
Europa – a cada 100 metros somos brindados com esta trampa. Vai uma pessoa a
conduzir, a olhar para o mar, e pumba!, leva com um penico daqueles nas ventas.
Se fossem todos…
E dadas as minhas claras limitações intelectuais, alguém é capaz de me
explicar em que momento da sua vida decidiu em quem é que ia votar ao olhar
para um outdoor? Confesso que não me estou a ver a dar voltas numa rotunda, a
olhar para os outdoors todos, e num súbito momento de inspiração: “Ha! É
naquele!”.
Não conseguem fazer campanha sem esta selvajaria? Sem vandalizar o espaço
público? Sem rebentar com calçadas, relvados, e inventar os sítios mais
mirabolantes para escarrapachar aquelas cagadas de Arte Moderna?
Dá vontade de arrancar com uma espécie de “compromisso secreto entre
todos os eleitores” para a malta se recusar a votar em qualquer candidato que use
outdoors.
Raios partam estes tipos! Fazem-me lembrar quando era miúdo e o circo vinha
à cidade, os prédios todos atafulhados com cartazes cheios de cor a anunciar o
circo. E depois colavam uns 10 seguidos, todos juntos, que era para terem a
certeza que a malta percebia mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, que
vinha aí circo! Enfim, mas esses ao menos anunciavam algo que nos fazia rir, e
enchia de alegria. Estes “novos artistas circenses” só nos fazem chorar…
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Star Trek – Além da Escuridão
As expectativas para a sequela do filme eram elevadas, como é natural.
Foram cumpridas? Hmmm… Em parte sim, em parte não. Este “Into Darkness” tem a
matriz genética de J. J. Abrams. É fabuloso do ponto de vista visual, técnico,
épico, e tudo aquilo que nos leva ao cinema. Mas isso para mim não chega. Bem
sei que o cinema hoje-em-dia é feito para um amontoado de gente acéfala sem
capacidade intelectual para distinguir a mão direita da mão esquerda, mas isso
não é desculpa para cada vez mais se desinvestir no argumento dos filmes. Os
escritores são os mesmos do filme anterior, mas a história fica a anos-luz do
mesmo. Alguns dos diálogos são manifestamente maus, ao ponto de termos cenas em
que o Capitão Kirk, armado em sopeira, se dá ao trabalho de discutir os
problemas no namoro entre Spock e Uhura…
A história está repleta de incoerências, daquelas que um miúdo de 8 anos
com um Q.I. médio detecta sem se esforçar muito. E a maioria delas são feitas
propositadamente apenas para justificar “mais um cenário uaaaaau”. E isso é uma
boa parte da razão do que mancha este filme. A maioria das cenas é arrastada
até à exaustão, quase como um livro onde 75% das páginas são palha. Começando
logo pela cena de abertura. Não vou fazer qualquer spoiler, dado que é algo que surge logo nos trailers. Em vez de optar por “BAM, houve um atentado”, perdem
alguns 20 minutos a filmar um criancinha no hospital, que está doente, e os
pais estão desesperados, e então aparece o mau da fita, a oferecer-lhes uma
salvação miraculosa para a filha, mas que em troco disso o pai terá que
rebentar uma bomba matando não sei quantas dezenas de pessoas, blábláblá,
melodrama completamente estúpido, blábláblá, passaram-se 20 minutos. E o resto
do filme cai repetidas vezes neste ciclo. Cada cena de porrada demora
três-quartos-de-hora, sendo necessário filmar cada tiro, cada explosão, cada
salto, cada “ai-meu-Deus-do-céu-vou-morrer-vou-morrer-olha-afinal-não-vou”. O
filme, com mais de duas horas, tem basicamente quatro cenas. Agora é só “preencher
os espaços em branco”.
Depois há a questão Kirk vs Spock. Estamos a falar de duas das
personagens mais míticas do folclore pop
do século XX. No Star Trek original o Capitão Kirk era um rebelde ousado, capaz
de arriscar aquilo que os outros mais temiam. No filme anterior, Chris Pine fez
um trabalho extraordinário em recriar Kirk, mas não sei por que carga de água
alguém se lembrou de “re-imaginar” este novo Kirk como uma espécie de puto
lunático e de birras que só faz asneiras sem pensar. É frustrante. Uma coisa é
alguém irreverente, que desafia as regras, e a quem nós não hesitaríamos em
seguir, outra coisa é um puto idiota que gosta de se armar em Justin Bieber e “siga
pra bingo”. Mau. Por outro lado, Spock, sendo de longe a personagem mais
popular de Star Trek, continua a estar em alta. Mérito de Zachary Quinto, que
tem feito um trabalho excepcional, e que mesmo a ter que aturar estupidez
melodramática e “discussões amorosas com a namorada a meio de uma batalha”,
continua a ser a principal âncora do filme.
Mas calma, isto não acaba aqui. Ainda tenho que dar porrada no Simon
Pegg, vulgo Scotty. Toda a gente se lembra do engenheiro rezingão Escocês. Como
é que isso degenera nesta nova versão “escocês histérico saído de um filme de
comédia que corre de um lado para o outro a esbracejar como um Zé Castelo
Branco com o período”? Mau. Mau. Mau. No primeiro filme a coisa ainda passava.
Neste… ugh! Safa-se o Karl Urban, que faz um Bones à altura, embora tenha sido
relegado para segundo plano, já que os novos autores decidiram destruir a
trindade original Kirk-Spock-Bones, alterando-a para a trindade
Kirk-Spock-Uhura. E, convenhamos, que se a Zoe Saldana interpreta uma mulher
inteligente e decidida no primeiro filme, neste serve apenas como babe-para-fazer-os-homens-babar.
Falando em babes, alguém teve a
brilhante ideia de introduzir uma louraça bombástica, cuja única função no
filme é pousar de mão na anca, em lingerie,
em frente ao Kirk. Tal e qual, como num catálogo da Victoria’s Secret. Esta
cena é de tal forma estúpida, que qualquer pessoa que tenha dois neurónios só
pode fazer um facepalm em velocidade warp. As gajas boas em escassas vestes
sempre foram uma constante em Star Trek (o que a malta só tem a agradecer), mas
chegar a um ponto tão ridículo… não! Além do mais, a menina interpreta a
Doutora Carol Marcus. Para os mais desconhecedores do lore Trekiano, é com esta moçoila com quem o Kirk vai ter um filho
(se seguirem minimamente a história original). Por fim, embora a esta Alice Eve
eu desse um 10 em 10 num catálogo da Victoria’s Secret, enquanto actriz
confesso que nem a metade da escala chegaria…
Costuma dizer-se que o melhor guarda-se para o fim, e era isso que eu
esperava fazer com o vilão. Lembram-se de eu ter falado de Benedict Cumberbatch
(o Sherlock, do último post)? Pois
bem, foi a ele que coube a tarefa de interpretar o papel de Khan. Infelizmente,
a capacidade de os argumentistas trabalharem a história com pés e cabeça foi
tão reduzida, que Cumberbatch nem teve grande oportunidade de dar vida à
personagem. Tem direito a meia-dúzia de cenas, e pouco mais do que isso. Um
desperdício absoluto. Mesmo assim, faz um trabalho extraordinário, literalmente
fazendo omeletas sem ovos. Mas, na comparação com o Nero do filme anterior… nem
há comparação possível. Chegamos ao fim do filme com a sensação de que é um
tipo muito forte, que leva uns socos e aguenta-se em pé, e pouco mais.
E é em Khan que se centra a grande falha do filme. Ou, aliás, na
tentativa de o recriar. O filme “A Ira de Khan” (1982) é uma espécie de vaca
sagrada para os fãs de Star Trek. É o supra-sumo do franchise. E este novo filme é uma pálida tentativa de fazer um remake do original.
Bom, momentaneamente vou entrar em “modo spoilers”, portanto quem ainda não viu o filme, passe à frente, se
faz favor.
ALERTA DE SPOILERS
Pois bem, “A Ira de Khan” é o momento mais alto do Star Trek original,
não só por ser um excelente filme, com um tremendo vilão, mas essencialmente
porque é o filme onde se aprofunda a tensão dramática, e se explora a amizade
entre Kirk e Spock. Nesta nova era, a relação entre ambos é manifestamente
pouco convincente. Passamos mais de metade do tempo a tentar perceber por que
razão é que não se matam um ao outro, do que propriamente a assimilar a
profunda amizade e confiança cega entre ambos. O filme original é de uma
importância imensa porque, entre outras coisas, termina com a morte dramática
de Spock. É um momento de
excelência cinematográfica. I have been –
and always shall be – your friend. (link) Mas neste universo alternativo, para além de copiarem metade das frases
emblemáticas, lembraram-se de fazer a coisa ao contrário. “Então e se desta vez
fosse o Kirk a morrer, e o Spock a berrar: KHAAAAAAN!”. Lamento, está longe de
ser uma ideia genial. E quando comparado lado-a-lado com o original… yuck!
E depois temos os orcs. Ou, perdão, os klingons. Sim, os famosos mauzões
de Star Trek. Aparecem aqui pela primeira vez. Mas há um ligeiro problema,
quanto a mim… Digamos que “apareceram no livro errado”. Alguém deve ter achado
que estavam a filmar mais um “Senhor dos Anéis”, e então os novos klingons são
basicamente orcs de olhos azuis com anéis na testa.
(momento de pausa
prolongada)
FIM DE SPOILERS
Enfim, já vou com 4 páginas de texto, e ainda nem apontei metade dos
erros grosseiros que o filme tem. Eu não queria deixar a sensação que se trata
de um mau filme, mas há coisas tão básicas como o facto de a Enterprise estar sob ataque, a
desfazer-se aos bocados, e metade dos figurantes continua a desfilar pelos
corredores da nave como se estivesse a passear num centro comercial (é para
estes pormenores que existe um Director Artístico para dar uns tabefes no
realizador quando necessário).
Resumindo, quem for com a ideia de ver um bom filme de entretenimento,
com excelentes cenários, e um ritmo muito bem conseguido, não vai certamente
queixar-se. Quem, por outro lado, for com expectativas de ver um filme digno da
chancela Star Trek, e começar a compará-lo com outro filme que foi realizado há
precisamente 31 anos… sai do cinema a berrar tosh gahk naborrrrkkhhh ptui!
Que em klingon quer basicamente dizer: tirem-me deste filme.
Pelo Melhor:
Os cenários sempre fabulosos. O ritmo frenético do filme, sempre muito
bem marcado, e nunca dando espaço para adormecer.
Pelo Pior:
A incapacidade de escrever um argumento sólido. O popularismo pimba que
visa a piadinha fácil para adolescente americano perceber. A opção por explorar
(mal) a nostalgia, como “receita garantida”, em vez de apostar em novos rumos,
e novas ideias, o que aliás é o espírito original de Star Trek: to boldly go where no man has gone before.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Sherlock
Quando eu era pequenino – não, não
me vou pôr a cantar Quinta do Bill – li as aventuras do inimitável
detective criado por Sir Arthur Conan Doyle. Recomendo vivamente (bem como
Agatha Christie, já agora).
Ao longo dos anos, Sherlock Holmes tem sido presença habitual no cinema e
na televisão, com dezenas de séries e filmes baseados na mítica personagem, que
aliás volta a estar na moda graças aos filmes com Robert Downey Jr. No entanto,
o que nos traz aqui é a mini-série “Sherlock”, produzida com a habitual
qualidade inquestionável da BBC. Já leva duas temporadas, num total de seis
episódios, cada um com a duração de uma hora e meia (portanto, cada episódio é
um filme em si).
E por que razão é esta nova mini-série digna de registo? Para começar,
como referido, por ter o selo da BBC, mas acima de tudo por ser uma adaptação
das histórias originais aos dias de hoje. Ora, eu geralmente torço o nariz a
estas “reinterpretações”. Na grande maioria dos casos são uma tremenda banhada
que serve somente para envergonhar a qualidade do trabalho original. Pois, mas
aqui estamos a falar da BBC. A série transporta Sherlock e o Dr. Watson para a
Londres quotidiana, onde o detective amador usa o seu método invulgar para
resolver os crimes que não estão ao alcance das mentes comuns.
Logo para começar há que colocar os holofotes em Benedict Cumberbatch (um
gajo com um nome destes devia ser obrigado a usar um nome artístico). O actor
que interpreta Sherlock é tão genial como a própria personagem. Nunca tinha
ouvido falar da criatura antes de ver esta série, e fiquei boquiaberto com este
Sherlock. Esqueçam o detective convencional, de cachimbo na boca, capote sobre
os ombros e chapéu de caçar veados. Este é o Sherlock do século XXI, que usa
smartphones, e tem uma personalidade a roçar o transcendental. Cumberbatch é
verdadeiramente inspirador. O trabalho de re-imaginação de Sherlock é algo de
fazer voar o chapéu de caçar veados das nossas cabeças.
Ao lado de Cumberbatch está Martin Freeman, do qual eu não me mostrei grande
fã n’O Hobbit, mas que aqui faz um
Dr. Watson extraordinário, e num contraste absoluto com Sherlock. Todo o
ambiente que rodeia o apartamento partilhado pelos dois, constantemente
“invadido” pela senhoria, é digno de registo. Os diálogos estão muito bem
conseguidos, e a interpretação esquizofrénica de Sherlock mantém um registo
intenso em cada episódio. Ligando isto ao “método de observação” de Holmes,
torna cada episódio numa delícia.
Até agora, o melhor episódio é o primeiro da segunda série, “A Scandal in
Belgravia”. O próprio título demonstra como esta reinterpretação não é apenas
um “pegar nas histórias que se passam no século XIX, e adicionar automóveis novos
e internet”.
Há, contudo, uma nota negativa na série. Não é a realização (que é
fabulosa), não é a música (que é estupenda), mas sim a “reconstrução” da
personagem do Professor Moriarty, o nemesis
de Sherlock. É abominável. O mastermind
do crime surge aqui como um maluquinho exótico, com tiradas histéricas, e que
mais parece um Joker de segunda
categoria retirado do Batman dos anos
70. O problema não está no actor, que claramente mostra que tem categoria, mas
sim na personagem perfeitamente estúpida, que destrói por completo qualquer
tentativa de mostrar Moriarty como um par de Holmes. Enfim, no melhor pano cai
a nódoa…
«ALERTA DE SPOILERS»
Existe ainda uma nota digna de registo, e que comprova novamente a
capacidade que a BBC tem de ir buscar gente de qualidade. Na realidade, Conan
Doyle matou Sherlock Holmes na sua última história, sendo que este e Moriarty
morrem ao mesmo tempo, num derradeiro confronto. No entanto, à altura (1893), a
personagem tinha atingido uma popularidade tão elevada que os fãs protestaram
veementemente com o autor. Esta ideia, por si só, é fascinante. Estamos a falar
do final do século XIX. Não havia televisão, não havia internet, não havia
redes sociais com hordas de mentecaptos aos berros. Havia, isso sim, legiões de
fãs da obra. A pressão foi tanta, que Conan Doyle viu-se (anos mais tarde)
forçado a mudar os contornos da história, e a mostrar que afinal Sherlock
estava vivo. Ora, no último episódio da segunda série acontece precisamente o
mesmo. Sherlock morre no confronto final com Moriarty, mas na última cena vemos
o detective escondido entre as árvores a olhar para o seu amigo Watson a chorar
em frente ao seu túmulo. São estes pequeninos detalhes que fazem as delícias
dos fãs!
«FIM DE SPOILERS»
Tendo tudo dito, resta-me dizer que largarem tudo o que estão a fazer, e
irem a correr ver a série é… elementar,
meu caro Watson.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Oblivion
Are you an effective team?
Pois, é preciso ver o filme para reconhecer a frase. Então e o que me
leva a falar de “Oblivion” quase um mês depois de o ter visto? Basicamente a
preguiça que me deu nas semanas anteriores para o fazer mais cedo.
Oblivion é um filme de
ficção-científica protagonizado por Tom Cruise. E este foi talvez um dos
motivos que me levou a ir ao cinema. Eu não sou particularmente fã do Tom
Cruise. Mas já repararam que ele não costuma entrar em barretadas
cinematográficas? É dos actores mais inteligentes a escolher os papéis que
assume. Pena é que tenha criado o “estilo Tom Cruise” e nunca saia do mesmo
papel. Pena, acima de tudo, porque ele é de facto um grande actor, como
comprovou há muitos anos com o genial Lestat em “Entrevista Com o Vampiro”. Mas
prefere refugiar-se no seu estilo próprio e não arriscar. E é por isso que este
Jack Harper é na realidade o Ethan Hunt de “Missão Impossível”, que por sua vez
também é o tipo que entra no “Relatório Minoritário” ou na “Guerra dos Mundos”
(oops, e eu a dizer que o Cruise nunca entrava em barretadas…).
Mas adiante. O filme é realizado por Joseph Kosinski, um novato por estas
andanças, e que só conta com “Tron Legacy” no currículo (e convenhamos que isso
não é grande currículo). Mas este Oblivion é de se lhe tirar o chapéu. É um
filme com uma identidade muito própria. Especialmente em termos de fotografia
(num trabalho deslumbrante do chileno Claudio Miranda – que curiosamente ganhou
o Oscar por “Life of Pi” na última cerimónia – cujas paisagens
pós-apocalípticas são inspiradoras, e cheias de elementos quase poéticos do
ponto de vista visual. As comparações com “Prometheus” são quase inevitáveis,
embora o estilo mais zen deste filme me tenha agradado mais.
A história é ficção-científica pura, genuína, e com alguns twists engraçados, e com muitas
referências de homenagem a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Parte de uma
premissa simples: a Terra foi praticamente destruída no futuro, e há uma equipa
composta pelo protagonista e pela sua esposa que estão a ajudar umas máquinas
gigantescas a filtrar a água dos oceanos para a levar para as colónias
além-espaço, onde os sobreviventes humanos se refugiaram. Existe uma química
espantosa entre Cruise e Andrea Riseborough, que dá um toque de classe notável
ao filme. Até ao momento em que entra em cena Olga Kurylenko, que é basicamente
uma menina bonita e podre de boa, mas que a meu ver serve mesmo só para “fazer
de Bondgirl”.
Pelo meio também entram em acção os “scavengers”, os maus da fita, e que
são o piorzinho do filme, particularmente em termos visuais, entrando em de-sintonia
com tudo o resto no filme. Até compreendo, tendo em conta que o ponto de
partida do filme foi uma graphic novel
idealizada pelo realizador, mas acaba por parecer algo demasiado à margem de tudo
o resto…
E é aqui que entra o restante elenco, que também não é de ir por aí além.
Morgan Freeman limita-se a fazer de Morgan Freeman, e o “Jaime Lannister de
Game of Thrones” limita-se a fazer de… “Jaime Lannister de Game of Thrones”.
Guardei o principal para o fim: a banda sonora. Electrónica do melhor que
há, feita pelo duo francês M83. A conjugação de alguns momentos visuais, com a
música… *suspiro*. Deixo só um cheirinho do onírico “StarWaves”:
A ficção-científica assim até tem outro sabor! E quem tiver inteligência
suficiente, compreende que a história é uma viagem exploratória ao íntimo do
ser humano.
Pelo Melhor:
A realização conjugada com a fotografia, resultando num casamento muito
bonito. Momentos como o do drone a
passar pela cortina transparente em slow
motion… Mamma mia!
A casa! Eu quero viver numa casa daquelas!!!
Pelo Pior:
Uma direcção de actores nada convincente. Nem sempre os nomes sonantes
são significado de bons resultados. Actores conhecidos a fazer papéis mais do
que batidos… meh!
quinta-feira, 7 de março de 2013
A Odisseia de Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington
"Nunca te esqueças de mim..."
“Odisseia”, assim se chama o novo programa que a RTP apresenta com Bruno
Nogueira e Gonçalo Waddington como “cabeças de cartaz”. Inicialmente nem lhe
prestei qualquer atenção – confesso que os “programas de humor” da televisão
Portuguesa são na maior parte das vezes uma ode à estupidez sem talento – mas
depois de uma amiga mo ter sugerido decidi dar uma espreitadela. Em boa hora o
fiz. O programa é um trabalho magnífico que mistura dramatismo, comédia, e o
absurdo total e inexplicável, aliado a muito talento.
A história de “Odisseia” desenrola-se em redor da viagem de dois amigos
“por esse Portugal profundo”. Ou nem tanto, dado que até agora ainda não saíram
do Alentejo. A viagem é despoletada por uma tentativa de suicídio de Bruno. Daí
para a frente é acompanhar, episódio a episódio, um sem-fim de acontecimentos
que nos brincam com as emoções. Pois “Odisseia” não é só comédia. É também
dramatismo, misturado subtilmente com doses generosas de cultura. E falo de
cultura séria e inteligente, e não de porcaria pop mastiga-deita-fora.
Comecei a ver a série no 6º episódio, onde os amigos descobrem, algures
perdidos no Alentejo, um grupo de “totós espirituais” que têm como guru António
Variações. A forma perfeitamente inteligente como satirizam as seitas, e os
seus gurus é de ir às lágrimas. Imaginem António Variações a citar as letras
das suas canções, com ar sério, pois está a partilhar uma mensagem espiritual,
enquanto despeja um frasco de laca no cabelo dos discípulos. É de ir às
lágrimas!
Não tardei muito a ir a correr à página da RTP para ver todos os outros
episódios. Curiosamente, o primeiro episódio, que costuma ser o piloto, e
aquele revestido de maior importância pois é o que tem a responsabilidade de
agarrar o público, é o pior de todos. Quem não faz ideia ao que vai, vê aquilo
e não fica com muita vontade de continuar a acompanhar a série. É importante
para “entrar na cabeça das personagens”, mas parece-me um sério risco para o
lançamento de uma série que tem na comédia o seu ponto central. Mas rapidamente
a coisa muda de figura, e a história começa a entranhar-se. As peripécias são
divinas. E aqui há que destacar o papel de Nuno Lopes. O tipo é brilhante. Bruno
Nogueira e Gonçalo Waddington fazem uma dupla muito boa, mas a partir do
momento em que Nuno Lopes entra em cena… esqueçam tudo o resto! É um actor
fabuloso. No 7º episódio, quando decide entrar na personagem de um gorila… é de
chorar por mais.
A série vive muito do “nonsense” ao estilo Monty Python, embora por vezes
haja partes demasiado más. Talvez um dos atractivos seja mesmo esse, a
alternância entre o absolutamente mau e o extraordinariamente genial. Mas
convém salientar que não é só dos “três estarolas” que a série vive. Há muito
mais. Como a participação fabulosa de Miguel Borges no papel de Oráculo (para
quem não reconhece o nome, é o tipo rouco dos anúncios da Vodafone), ou as
participações especiais de muitos outros actores em alguns episódios.
Inclusive a nível técnico esta Odisseia é surpreendentemente boa, desde a
soberba realização de Tiago Guedes, à fotografia, produção, etc. É muito bom
ver tanto talento reunido para criar algo de tanta qualidade em Portugal. Até
as cenas em “stop motion” são fenomenalmente conseguidas, como a própria Sequência
de Introdução de cada episódio, e onde – para os mais atentos – toda a série é mostrada.
A única coisa que merece nota absolutamente negativa é a total
inabilidade da RTP em promover a própria série. Tem passado quase despercebida.
Das duas, uma: ou o “departamento de marketing” está a dormir, ou então quem
decide no interior da RTP nem tem capacidade para perceber a qualidade do
produto que tem entre mãos. São tão eficazes a promover os concursozinhos e os
programinhas de variedades constrangedores, e depois não sabem dar visibilidade
à galinha dos ovos de ouro. Mas enfim, fica essa falha colmatada por este
artigo, dado que este blogue é visto diariamente por 7 milhões de pessoas em
todo o mundo.
Criatividade, boa capacidade de escrita, excelentes profissionais, o
talento de saber aproveitar uma ideia sem necessariamente ter de recorrer a
elevados recursos e meios de produção e afins. É isto que se anda a fazer em
Portugal, onde infelizmente se prefere dar destaque aos reality shows de/para gente acéfala, e aos infindáveis programas
sobre futebol com “comentadores altamente especializados que têm muita coisa irrelevante
para dizer”. Há muitos anos que uma série “made in Portugal” não me agarrava
desta forma, deixando-me salivante para que chegue Sábado às 21h00.
Obrigado Bruno. Obrigado Gonçalo. Obrigado Tiago. E que venha rapidamente
a “Odisseia 2”.
Os episódios podem ser vistos em: http://www.rtp.pt/play/p1039/odisseia
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