Música. Literatura. Cinema. Banda Desenhada. História. Portugal. Cultura. Sociedade. Uma perspectiva sobre o que a Humanidade faz de melhor. De Beethoven a Jodorowsky. De Dune a SPQR. Gnothi Seauton.
Desta feita vou falar do melhor jogo do mundo: Race For The Galaxy. Vá, OK, admito que Strip Poker com cinco
Suecas é capaz de ser melhor, mas para efeitos de boardgames fiquemos assim.
Race For The Galaxy é um jogo de cartas para 2 a 5 jogadores. O objectivo
de cada jogador é desenvolver o seu sistema planetário de modo a acumular o
maior número de pontos de vitória possível. Para fazê-lo dispõe de dois
mecanismos: planetas e infra-estruturas.
Parece simples, e no entanto é dos jogos mais brilhantemente complexos
que já joguei. As regras demoram a aprender, mas o grande apelativo do jogo é o
facto de não haver dois jogos iguais. Existem diferentes estratégias que levam
à vitória. A mais comum é a da aposta na “economia intergaláctica”, que passa
pela produção de recursos e troca dos mesmos por pontos de vitória. Mas depois
há a vertente militar, e o papel das infra-estruturas que podem alterar
significativamente o rumo do jogo.
Cada novo jogo implica uma abordagem diferente. Porventura o mais
importante (ou o mais decisivo) é o planeta de origem, que é sorteado
aleatoriamente, aliado à mão inicial. As primeiras duas ou três rondas são
cruciais para determinar o sucesso do jogo. Parece simples, mas cometer erros
nas rondas iniciais pode causar um atraso na “corrida” do qual já não se
recupera.
O jogo desenvolve-se por rondas, e consoante a “fase activa” escolhida
por cada jogador assim é traçado o perfil de cada ronda. Raras vezes há duas
rondas iguais. Não é possível explicar isto por palavras, só mesmo observando o
jogo. E de ronda em ronda os jogadores vão desenvolvendo os seus planetas
produtivos, aumentando a sua pontuação militar para conquistar planetas
guerreiros, e desenvolvendo as suas infra-estruturas para colher os bónus da
aposta nas mesmas.
É de longe dos jogos mais estimulantes que experimentei até hoje. A
jogabilidade é inesgotável, sendo impossível haver dois jogos seguidos que se
repitam. No primeiro jogo podemos seguir a estratégia de apostar num tipo de
recurso, e montar toda a infra-estrutura de apoio ao mesmo, enquanto no jogo a
seguir apostamos na vertente militar tentando forçar que o jogo seja o mais
rápido possível, impossibilitando os outros jogadores de acumularem pontos pela
via económica.
Depois existem as expansões, que introduzem novas mecânicas de jogo.
Apenas conheço a primeira, The Gathering
Storm, que introduz no jogo um conjunto de objectivos especiais, que podem
ser conquistados, e que mudam completamente a abordagem ao jogo.
Joga-se idealmente com 3 ou 4 jogadores, e cada jogo dura aproximadamente
30 minutos. Viciante, apaixonante, somente recomendado a quem gosta de jogos
complexos e que obrigam a pensar exaustivamente. É sem margem para dúvidas o
meu jogo de eleição (se bem que o tal das Suecas…).
O momento supremo da História da Ópera, porventura da Música. A fabulosa “Madama
Butterfly” de Puccini é (discutivelmente) o supra-sumo de todas as óperas. É
uma das mais trágicas e comoventes histórias alguma vez tratadas em ópera. Butterfly
é uma jovem japonesa que vive um romance trágico com um marinheiro americano,
com quem tem um filho antes de ele a deixar e voltar para os Estados Unidos.
Butterfly passa os dias a ansiar pelo seu regresso. Mas quando Pinkerton volta
ao Japão vem acompanhado da sua nova esposa americana, com a intenção de levar o
filho consigo de regresso aos EUA. Perante o sofrimento, Butterfly não vê
alternativa senão fazer o que os japoneses escolhiam quando confrontados com a
desonra…
É uma ópera fortíssima, e que tem no 2º acto uma das árias mais
importantes de tudo o que foi feito em ópera, “Un bel di vedremo”. Algo que só
está ao alcance das grandes, grandes, grandes sopranos.
Existe uma interpretação, da italiana Renata Scotto, acompanhada pela
orquestra dirigida por Sir John Barbirolli, que supera tudo o que
artisticamente foi feito. Não há sequer termo de comparação com as outras
intérpretes. O trabalho vocal é digno de parar o coração. Nem a orquestra a
consegue acompanhar. O minuto final é arrepiante.
Mentiria se dissesse que as probabilidades de vir a conhecer os “The
National” eram elevadas se não fosse pelo magnífico “Rains of Castamere”, do
não menos magnífico “A Game of Thrones” (ou, mais correctamente, A Song of Ice and Fire).
E o que me leva, assim sem mais nem menos, a vir falar desta banda
americana? Por um lado a qualidade da música, por outro lado o facto de o meu
cérebro decidir de vez em quando que há algumas noites em que não quer dormir,
o que dá imenso jeito para meter os fones nos ouvidos às 4 da manhã e perder-me
na boa música.
Não vou falar da história da banda, pois não a conheço. Falarei apenas de
“Trouble Will Find Me”, o álbum que foi lançado em 2013 e que numa destas
noites me fez companhia lá pelas 5 da manhã. Bem valeu a noite de sono perdida!
Os “The National” têm um estilo muito próprio, que é soberbo. Uma espécie
de Rock soturno, lento, que vai entrando melancolicamente no ouvido, enquanto
se apodera do nosso âmago. Tem qualquer coisa daquele ar de clube de música
pouco frequentado, à meia-luz, onde apenas meia-dúzia de connoisseurs bebem uma cerveja enquanto ouvem as canções plenas de mistério.
Há um qualquer romantismo distorcido, quase nostálgico, em cada palavra. E há a
fabulosa voz de Matt Berninger, que é 50% da qualidade. Não há muitos
vocalistas masculinos com esta categoria. Sempre o registo contido, como se as
palavras fossem partilhadas num sussurro, para que mais ninguém as ouça. É tudo
fabuloso. O álbum é de uma coerência bonita e segura, nunca explodindo,
deixando-nos presos numa languidez que se arrasta ao som cauteloso que
acompanha a voz magnífica.
Poderia escrever um artigo sobre cada uma das 13 canções que compõem este
sedutor “Trouble Will Find Me”. Mas falarei apenas das três primeiras – qual
delas a melhor.
I Should Live in Salt, é a
canção que abre o álbum, e logo aí marca o registo do mesmo. Romântica, porventura
amargurada, quase chorada. Algo meloso no diálogo entre um par de namorados.
Demons, o que dizer desta
obra-prima? Terei palavras para a categorizar? A canção dos vencidos, da
tristeza, da depressão. Daqueles dias negros que já todos tivemos, que atravessámos
com amargura, e um aperto no coração. É aquele bater no fundo, aquele
desesperar, aquele baixar os braços, e aquela voz… Este homem é um portento a
cantar.
But I stay down With my demons, But I stay down With my demons
E a seguir entra Don’t Swallow The
Cap, a redenção. A Luz que surge logo após Demons. Não é bipolar. A saída das trevas é sempre calma, lenta,
com pequenas golfadas de ar.
Estes senhores merecem cuidada atenção. São uma banda pouco conhecida. É óbvio:
têm qualidade. Não passa na rádio, não passa na televisão. É aquela música que
está reservada para uns quantos selectos, que passa de boca em boca, mas
devagarinho, num sussurro, não vá o vento dispersar as palavras…
Passo-a agora dos meus lábios para os vossos ouvidos. Apreciem.
I see a bright white beautiful heaven hangin' over me.
"Trouble Will Find Me", The National, 2013
P.S. E se quiserem um bónus, procurem algures aqui no blogue o “Bloodbuzz
Ohio”… É do álbum anterior.
Quando eu era catraio, há coisa de 20 anos, gastava perto de 90% do meu
orçamento (leia-se: mesada) em revistas de BD de super-heróis. Sim, riam-se à
vontade. Passadas duas décadas, nós, geeks, conquistámos o mundo, e o resto é
paisagem. Hoje em dia toda a gente conhece o Senhor dos Anéis, os filmes da
Marvel estoiram com recordes de bilheteira, e a ficção-científica está na moda.
Mas voltemos aos meus tempos de gaiato. Os super-heróis preferidos de
toda a gente eram o Super-Homem ou o Homem-Aranha. Eu sempre detestei o
Super-Homem, e nunca fui excepcionalmente fã do Aranhiço. Toda a bicharada
delirava com os gajos superpoderosos que disparavam raios-laser dos olhos, eram
mais rápidos que a velocidade da luz, ou que eram mega-robots indestrutíveis. Eu
gostava do Capitão América e do Batman. Eram tipos normais (dentro dos limites
em que se acha que um gajo que vive numa caverna com morcegos pode ser
considerado normal). Um era um “dark knight”, o outro um “white knight”.
Quando em 2011 a Marvel anunciou o lançamento de um filme do Capitão
América eu fiquei de pé atrás. Não se trata de uma personagem que possa ter
filmes “iguais aos dos outros heróis”. O Capitão América é para pessoas
inteligentes, não é um “Hulk Esmaga”, nem um “eu sou um gajo indestrutível que
combate contra mutantes cheios de poderes”. Felizmente, a Marvel tem gente
muito inteligente e “Capitão América – O Primeiro Vingador” é de longe o meu
filme preferido da gama de heróis da Marvel. Conseguiram evocar a nostalgia da
personagem carregada de ideais originária na Segunda Guerra Mundial, e fazer um
filme extraordinário. É claro que foi um dos filmes menos populares da Marvel,
bastante longe dos blockbusters do Homem-de-Ferro e dos X-Men. Tal como eu
disse, o Capitão América é para gente inteligente.
Chegados a 2014, eu estava novamente com o pé atrás. Será que conseguiam
fazer um filme digno de ser o sucessor do de 2011? Ou iriam entrar na
“esquizofrenia intergaláctica” do filme dos Vingadores? Bom, tal como eu disse,
a Marvel tem gente muito inteligente.
“O Soldado do Inverno” é o filme perfeito, porque, à semelhança do “Dark
Knight” de 2008, não é um filme de super-heróis. É um filme de soldados,
espiões, homens e mulheres normais a lutar contra os maus da fita. É um “Missão
Impossível” misturado com “James Bond”. Tal torna-se perceptível logo na
abertura do filme. Não começa com coisas a explodir, nem com vilões
estapafúrdios a fazer juras de “world dominance”. Começa com Steve Rogers a
correr na rua, e a conversar normalmente com um ex-soldado como ele. Um Steve
Rogers a tentar habituar-se ao mundo contemporâneo (SPOILERS: ele esteve
congelado mais de 50 anos). Dez minutos depois é chamado para uma missão de
resgate de reféns a bordo de um navio, onde encontra um dos adversários
icónicos da banda desenhada: Batroc, um Francês que dá uns valentes pontapés. E
logo aqui se percebe a distinção entre os filmes do Capitão e os restantes. É
uma sequência de acção, com artes marciais, muito bem feita.
E a partir daqui, o filme começa a ficar cada vez melhor. A história de
fundo está muito bem delineada, com uma reflexão cortante sobre a sociedade
actual. A coragem e a inteligência necessárias para fazer isto num filme de
super-heróis… bravo! Constatar que as
pessoas abdicam voluntariamente da sua liberdade em prol de uma segurança
virtual, e que estão dispostas a abdicar dos seus direitos nesse processo, é o
que diferencia a luta do Capitão América das lutas dos restantes super-heróis.
Aqui não estamos a discutir a invasão de naves espaciais vindas dos confins do
Universo. Estamos, isso sim, a olhar para o mundo à nossa volta e a pensar “até
onde estamos dispostos a permitir que os mais fortes dominem os mais fracos”? A
mensagem política está lá. Bem escondida, subtil, mas visível para quem estiver
atento. E é por isto que o Capitão América é o maior super-herói de todos os
tempos. Porque é o gajo que salta para dentro de um autocarro para proteger os
mais vulneráveis, enquanto os outros gajos andam a voar e a destruir metade da
cidade ao seu redor.
O argumento não está desprovido de clichés, nem de previsibilidades. Já
toda a gente viu 500 filmes de espiões onde “não podes confiar em ninguém”, e
onde há traidores dentro das organizações dos bonzinhos, e onde no final do
filme há a reviravolta que já não causa surpresa a ninguém. Não obstante, é
feito de forma moderadamente convincente.
Um filme destes nunca sobreviveria sem “o toque Michael Bay”, e como tal,
a cada 20 minutos há pelo menos 50 coisas a explodir em simultâneo. Mas, ao
menos, o equilíbrio entre argumento e acção está conseguido, e até acabamos por
apreciar boa parte dos exageros.
Ao nível das interpretações não há muito a dizer. Chris Evans, apesar de
não ter o carisma que se impunha ao Capitão, desempenha convincentemente a
função. A divina Scarlett Johansson é quem mais salta à vista (vá-se lá saber
porquê…), estando como peixe na água no papel da Viúva Negra. Só aqueles
olhinhos são metade do filme… Pelo meio temos Samuel L. Jackson a fazer de
Samuel L. Jackson no papel de Samuel L. Jackson. Há uns anos gostava muito
dele, mas confesso que hoje-em-dia já não tenho grande paciência para o ver
sempre a fazer o mesmo papel, o mesmo ar de “badass nigga”, os mesmos tiques, a
mesma colocação de voz… Felizmente foram buscar o veteraníssimo Robert Redford,
que dá um ar de solidez ao projecto. De resto, há um punhado de meninas bonitas
e meninos musculados a preencher o resto do cenário.
A banda sonora não é boa nem é má. É perfeitamente adequada ao filme, e
portanto “thumbs up”. É electrónica moderna pura, cheia de percussão, com
alguma inspiração nas fanfarras militares. Não é coisa que se ouça fora do
filme, mas assenta como uma luva no ritmo do mesmo. Há actualmente uma data de
compositores novos a marcar uma tendência musical no cinema. Para
experimentarmos algo mais original e inspirador talvez tenhamos de esperar para
ver o que John Williams fará em 2015 no novo “Star Wars”.
Resumindo, temos uma obra com muita categoria, “realizada a duas mãos”
pelos irmãos Anthony e Joe Russo, o que é surpreendente (e mais uma vez
comprova a inteligência dos estúdios da Marvel) tendo em conta o tipo de trabalho
que consta no currículo de ambos (essencialmente séries, e projectos de
comédia). É uma resposta de peso e qualidade a quem pensava que o Capitão
América não era “material cinematográfico”, e que demonstra com tremenda
aptidão por que razão faz todo o sentido nos dias de hoje ter uma personagem
com os seus ideais.
This isn’t freedom. This is fear.
O geek com duas décadas dentro de mim respira de inspiração e satisfação.
O maior super-herói de todos os tempos está vivo, e recomenda-se!
Pelo Melhor
O filme. É difícil fazer bons filmes nos dias que correm para “o
mercado”. É preciso escrever coisas muito simples, para gente muito estúpida.
Não se pode complicar em demasia. É preferível apostar em maus actores com um
palminho de cara, e colocá-los no meio de explosões e catástrofes, do que
apostar em temas que exijam exercitar os neurónios. Neste filme, os estúdios da
Marvel (que ocupam neste momento, em termos de cinema, um lugar que a LucasArts
ocupava há 20 anos) demonstraram como era possível fazer algo de qualidade, que
ao mesmo tempo fosse um espectáculo de cinema-acção agradável, olhando de forma
crítica para a globalização que impera, e a lei do mais forte que comanda a
Humanidade, deixando no ar a forte mensagem de que existem coisas pelas quais
temos de pagar um preço elevado, mas que justificam que o paguemos. Nada mau
para quem sempre foi olhada como a editora dos bonequinhos que vestem pijamas
coloridos.
Pelo Pior
Mas por que C#@R&%LH@ é que o Capitão América usa batom
cor-de-rosa!!??!!??? Pelo capacete de Galactus (que por acaso também é
cor-de-rosa), nunca hei-de perceber esta estupidez de pintarem os lábios dos
actores (ou dos pivots de televisão)! Mas que merda de moda é esta? Que coisa
mais estúpida e cretina! Não basta o botox digital, ainda é preciso pôr batom
para realçar os lábios das personagens masculinas? “Oh, sim, olhem para mim, o
grande herói que vai salvar a Humanidade dos nazis! Oops, esperem, não o posso
fazer sem pintar os lábios de cor-de-rosa! Já agora um pouco de rimmel…”