terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Claudio Abbado


Ontem faleceu o maestro Claudio Abbado, um dos grandes directores musicais do século XX (e XXI). Não sou profundo conhecedor do seu trabalho, mas bastará dizer que foi quem sucedeu a Herbert von Karajan enquanto director da Filarmónica de Berlim.

Numa altura em que o mundo cada vez tem menos cultura a sério, fica aqui uma breve menção e homenagem a um dos homens grandes da promoção da música clássica.

Mozart / “Requiem” – Lacrimosa
Beethoven / “9ª Sinfonia”

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte

“Mas tens um problema, Faulques. Um problema sério. Nenhuma fotografia pode consegui-lo. Eu sou mais prática e limito-me a coleccionar elos quebrados: essas ruínas com antecedentes clássicos, achados dos imbecis literatos românticos e revisitadas por artistas ainda mais imbecis. Mas não é o aroma do passado o que procuro. Não desejo aprender, nem recordar, mas largar amarras. Dito na tua gíria psicopata, esses lugares desertos, mecanismos e objectos quebrados são as fórmulas matemáticas que indicam o caminho.”

Eis-me de volta ao maldito espanhol. Desta feita para falar d’O Pintor de Batalhas, do qual já transcrevi um excerto por estas paragens. Antes de se falar deste livro há que referir que Pérez-Reverte foi durante muitos anos repórter de guerra. Ora, a personagem central do livro é um repórter de guerra (fotógrafo) na reforma. É, portanto, impossível dissociar a ficção da própria experiência pessoal do autor.
A história centra-se na personagem de Faulques, um fotógrafo na reforma que habita num farol na Costa Espanhola, e passa os tempos a pintar um mural, que representa uma batalha medieval, no interior do farol. A pacatez e solidão de Faulques são interrompidas pela chegada de Ivo Markovic, uma espécie de “fantasma do passado” que vai levar “o pintor de batalhas” a um exercício de memória, recordando boa parte da sua vida, das suas fotografias, e dos cenários de guerra por onde passou. E é nesse “recordar é viver” que surge a fortíssima personagem de Olvido Ferrara, colega fotógrafa com quem Faulques viveu uma intensa paixão. E este é o ponto alto do livro, pois a relação entre as duas personagens é quase mágica. Daquelas relações que só podem existir na literatura ou no cinema, entre duas personagens tão magnéticas que é difícil não as ver com o espelho uma da outra. Não sei até que ponto é que esta relação é mera ficção, e não fruto de algo vivido pelo próprio escritor há muitos anos, pois a força que caracteriza as personagens é impressionante. É um escritor magnífico, sem dúvida, mas custa-me a crer que escreva sobre uma paixão com tanta vivacidade sem se ter vivido (e morrido) algo semelhante.
Depois disso, Pérez-Reverte faz aquilo que faz melhor: avassala o leitor com pormenores ricos do tema que aborda no livro em questão. Neste caso é a fotografia e a pintura. São longos os parágrafos a descrever a forma como o pintor prepara as tintas, os materiais que usa, os pintores em quem se inspirou. Igualmente longos são os parágrafos a descrever a máquina com que tirou “aquela fotografia”, e toda a parafernália técnica que envolve um simples disparo.
Algo que salta à vista é a profunda revolta da personagem (do autor) com a idade. Alguém que está na meia-idade e já não gosta de si, do seu corpo, do seu quotidiano, e recorda com tremenda nostalgia os tempos da juventude. Este é um livro, também, sobre o não gostar de envelhecer, embrulhado em fortes doses de uma filosofia melancólica que emerge dos diálogos que Faulques e Markovic mantêm durante o seu encontro.
E não há muito mais a dizer sobre o livro. É um livro pequeno, e não é dos melhores de Pérez-Reverte. Não deixa de ser uma boa leitura, mas está bastante longe de uma Tábua de Flandres ou de um Cemitério dos Barcos Sem Nome. Mas, como sempre, o maldito espanhol não falha ao servir-nos uma galeria de personagens cativantes, cheias de vida e experiências que merecem ser partilhadas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

2013: O Balanço

Os posts de Balanço Anual aqui no blogue costumam ser dos mais populares. Tendo em conta esse património, acresce o peso que tenho sobre os ombros de escrever algo com pés e cabeça. Quanto ao ano em si, foi igual a todos os outros, com coisas boas e coisas más. Mas, acima de tudo, foi o ano da Gata Telma!
Vou observando esporadicamente alguns indicadores estatísticos relativos ao blogue. Quais os dias onde geralmente há mais visitas (segundas-feiras), qual o número médio de visualizações de cada artigo, quais os artigos mais vistos no mês que passou, etc. E a Gata Telma rebentou com a escala. Para termos uma ideia, um artigo normal, por exemplo uma crítica de cinema, atrai cerca de 16 a 18 visualizações nas primeiras 48 horas. A Gata Telma, no mesmo espaço de tempo, atraiu mais de 60. Está cientificamente comprovado: gatos e internet são uma combinação de sucesso.
Mas comecemos então pelos “mais” e “menos” do blogue. Pois bem, dos artigos aqui colocados no ano de 2013, os mais populares foram:
1º A Gata Telma e os Telminhos (2)
2º Django Libertado
3º Batalha do Pacífico
4º Da Corrupção à Crise – Que Fazer?
É uma distribuição interessante e atípica. O cinema continua a ser o tema que mais visitantes atrai, mas ter um livro a disputar os primeiros lugares é algo interessante.
Quanto aos artigos menos populares, foram eles “História da Segunda Guerra Mundial”, “Emperor – The Gates of Rome” e “200: Anno Wagner”. E devo dizer que isto me deixa com uma profunda depressão, pois foram precisamente os três artigos que mais trabalho me deram a compor, pois inclusive dei-me ao trabalho de fazer uma pesquisa mais abrangente em termos de História para acrescentar algo mais a cada um dos temas. É inglório constatar que aquelas peças que mais empenho tiveram da minha parte, foram as que menos interesse despoletaram na audiência. No caso do artigo sobre os 200 anos de Wagner, apenas 4 pessoas tiveram interesse em abri-lo. Fico triste, mas - alas! – c’est la vie!
Em relação às restantes estatísticas, houve alguns dados curiosos. Durante uns largos meses eu entendi não escrever sobre os livros que lia, pois o interesse que esses artigos recebiam era manifestamente diminuto. No entanto, a meio do ano reparei numa coisa curiosa. Os artigos mais antigos sobre livros tinham um crescimento sustentado e constante. Ou seja, um artigo sobre um filme, ou um qualquer outro tema, atrai muita gente durante uma semana ou duas, mas depois disso cai no esquecimento, enquanto uma crítica a um livro tem muito poucas visualizações no momento, mas continuamente vai crescendo, e crescendo, e crescendo. Notei isto graças a “O Segredo de Afonso III, de Maria Antonieta Costa”, sobre o qual escrevi em Janeiro de 2012, e que neste momento, no histórico do blogue, ocupa a 5ª posição dos artigos mais lidos desde que iniciei o blogue. Se olhar para a lista dos 10 artigos mais populares, cinco deles são ocupados por livros. Isto é excelente! Foi essa constatação que me levou a voltar a escrever sobre livros. Juntar o útil ao agradável é como juntar gatos e internet…
Resta referir que, a título de curiosidade, em Agosto houve um inesperado afluxo de 16 visitas vindas do Brasil direitinhas ao artigo do “Cloud Atlas”, que na altura até nem tinha tido grande êxito, e que com esta avalancha entrou na lista do Top 10.

Feita esta introdução, vamos então às distinções mais importantes da blogosfera e arredores. Preparem os Oscars, preparem os Nobel, preparem as medalhas Olímpicas, eis os Prémios Psy 2013:

2013: Uma Música
É pena que 2013 fique para a História como o ano da badalhoca nua a lamber martelos, porque de facto foi um ano com muita coisa boa a passar-se em termos musicais. Confesso que poderia escolher metade das canções do álbum de lançamento dos Imagine Dragons, sendo que tenho um fraquinho especial pelo “Demons” (link). Apesar de não ter gostado do novo álbum dos Arcade Fire, o single de lançamento, “Reflektor” (link), também fica entre os melhores do ano. No entanto, fãs do Prodigioso Psy, tenho a dizer-vos que este ano o galardão fica em casa. E até podia ficar em casa duas vezes, porque a música Portuguesa continua a dar cartas. Não apenas cartas, mas ases de trunfo. Poderia ter ficado a versão da “Canção de Engate” (link) feita pelo Tiago Bettencourt em acústico, mas por mais 0,0000001 na pontuação, este ano o troféu vai para o deslumbrante “Desfado” da Ana Moura.

 2013: Um Filme
Sem hesitações: The Wolverine! Best Movie Ever!!!
Hmmm, não engano ninguém segunda vez, pois não? Hehehe!
2013 teve muitos bons filmes. Desde “Django Libertado”, passando pelo emocionante “A Gaiola Dourada”, ou o próprio “O Hobbit: A Desolação de Smaug”. Mas, como o prémio só pode calhar a um, este ano fica nas mãos de um mexicano de nome Alfonso Cuáron, responsável pelo fenomenal “Gravidade”. Apesar de todas as fragilidades que tem em termos de argumento é uma coisa única em termos cinematográficos, de uma perfeição aterradora, e com a capacidade de surpreender num mercado de cinema que já pouca originalidade consegue trazer.

2013: Um Livro
Pois é, lá passou mais um ano onde li menos de metade do que gostaria de ter lido. Mesmo assim, da cerca de uma dúzia de livros que consegui folhear, inclino-me para escolher o “Emperor – The Gates of Rome”. Nem mais, o de há bocado. Aquele sobre o qual ninguém leu. Esse mesmo. E sabem que mais? Agora, por vingança do Chinês, também não falo mai nada sobre o livro. Tenho dito!

2013: Um Comentário Político


2013: O Momento Mr. Bean do Ano
THE PSY é uma pessoa importante, e como tal de vez em quando tem reuniões importantes, com gente superimportante, e tal. Em Janeiro, THE PSY mete-se no Psymobile (que, aproveito para informar, completou 100 000 km mesmo no final do ano – sai uma taça de champanhe para todas as pessoas cool que já partilharam uma viagem no Psymobile), e segue direito a Olisipo, capital do Muy Nobre e Sempre Leal Império Psy. Mas, pormenor engraçado, o Prodigioso detesta conduzir em Lisboa, em particular na zona da Av. da Liberdade. EM PARTICULAR no dia em que se lembram de alterar todos os sentidos das vias por causa das alterações na rotunda do Marquês (meu primo)! Escusado será dizer que depois de ter dado 473 voltas a ruas que nem devem constar no mapa, o tic tac do relógio começa a stressar o Prodigioso. Encontrado um lugar para estacionar, vou a correr ao parquímetro, e saio disparado rua acima em direcção ao local da reunião. A mais de meio da rua, olho casualmente para a mão e dou por mim a pensar “Hum? Por que raio venho com um papelinho na mão? Ah, espera! É o talão do estacionamento! Hã? Mas por que é que o tenho na mão? E agora que penso nisso… ONDE ESTÁ A MINHA CARTEIRA?!?!?!”
Conclusão: o Prodigioso Psy atirou a carteira para cima do tabelier, fechou a porta do carro, e desatou a correr rua acima com um papel de estacionamento na mão…
Senilidade precoce? Não, não, nada disso, estava tudo planeado…

2013: Um Momento
Ora bem, meus infantes, é chegado O Momento. Até aqui é apenas aquecimento e entretenimento. Na realidade, o que o pessoal quer é chegar à rubrica mais importante de todas. Aquela que nos brinca com a nostalgia, e faz recordar todos os bons momentos do ano que passou. Desta vez, por motivos de ordem técnica, THE PSY não levanta a sua taça de champanhe, mas sim uma de limoncello, a todos aqueles que: me fizeram crumble de maçã (pelo menos um deles, já que o outro era com o objectivo de me partir os dentes); me apelidaram de “Prodigioso” e “Senhor dos Cascos”; me ofereceram o “Twilight” (versão B.C.); derreteram numa churrascada de Verão com 40º C e má sangria (culpa do puto surfista que também me estraga a comida); correram o Algarve de uma ponta à outra para que eu pudesse saciar a fome de choco grelhado (adoro-vos com cada um dos meus tentáculos); me arrastaram para ver os The Gift ao vivo, no meio de vacas, bezerros e algodão doce; perderam os jogos todos contra mim no Arkham, no Zombicide, no Race for the Galaxy, e em tudo o resto, porque eu sou um gajo buéda cheio de power e ganho os jogos todos (mesmo aqueles que são cooperativos); me levaram a ver coisas bonitas no MNAA, e depois no Miradouro do Arco da Rua Augusta, e que ao descer as escadas riram que nem galinhas histéricas com a senhora do “ATENÇÃO! Eu vou a passar!”; e que dias depois repetiram a dose, mas desta vez ficámos como galinhas histéricas à conta do careca que espetou a tromba na porta transparente do restaurante, soltando um genuíno e poético “foda-se” (aposto que a marca ainda hoje lá está na porta); trocaram comigo mails e artigos para debater as Alterações Climáticas e o fracking (não, não estou a falar de Battlestar Galactica); conseguiram pôr-me a falar sobre BD de qualidade aqui no blogue (olha que o teu irmão correu Roma inteira à procura de uma prenda para ti! Trata-o bem!); me levaram a ver um espectáculo fenomenalístico com águias, corujas, e outros bichos assassinos com bicos e garras, e até me deixaram fotografar ao lado de uma gaja toda boa, cheia de pêlo e penas; sufocaram de tanto rir com o jogo “A Odisseia de Pedro” (a propósito, sabem que o orientador de estágio dele foi o Relvas? – ahahaha, eu disse que o punha no blogue!).
E para não dizerem que saem daqui de mãos a abanar, guardei uma prenda para este Balanço. Tomem lá uma foto dos Telminhos junto ao Psymobile. Quem é amigo? Quem é?

E, como o melhor guarda-se para o fim, ergo uma taça de limoncello, uma de vodka, uma de champanhe, três de Guinness, e outras tantas do que vos apetecer, aos meliantes que quase por acaso me levaram a passar o fim-de-ano à minha Cidade Eterna. Roma é, e será sempre, o meu coração. É a cidade a que anseio regressar mal acabo de a deixar. É o único sítio do mundo que já visitei onde sinto as lágrimas a cair pelo rosto enquanto caminho pelas ruas. Onde sinto o peito apertado ao contemplar cada estátua, cada coluna. Não quero trair a minha Lisboa, mas por cá não me acontece a voz falhar enquanto estou a falar de um quadro a outra pessoa, ou a contar o (muito pouco) que sei da História da cidade. Há uma magia qualquer que me seduz naquelas pedras, uma serenidade imortal e intemporal que me embarga a voz e humedece os olhos. Roma será sempre o meu destino, a minha chama e a minha alma. Voltei lá passados sete anos (um por cada uma das suas colinas). Daqui a outros sete quero lá voltar.
Estátua de S. Pedro, Basílica de San Giovanni in Laterano, 1711
(Foto do Prodigioso Psy)

Está feito, e está dito! Tratem de garantir que têm um excelente 2014, e que arranjam uma série de Momentos para recordarmos daqui por um ano. Despeço-me com amizade, e dizendo… MONKEY BALLS!

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Hobbit: A Desolação de Smaug


Pouca gente sabe do calvário por que passou Peter Jackson nos finais dos anos 90 para conseguir fazer a trilogia O Senhor dos Anéis. Depois de muitas voltas e reviravoltas, associadas a direito de autor, dificuldades de financiamento, e perante a perspectiva de ter de cortar metade da história para condensar tudo num único filme, Jackson reuniu-se já quase em desespero com Robert Shaye, um dos administradores da New Line Cinema que lhe deu a inesperada resposta “se são três livros, não deveriam ser três filmes?”. Quinze anos passados, Jackson já vai no quinto filme da saga, havendo pelo menos um sexto a caminho.
Este segundo filme tem melhorias consideráveis em relação ao primeiro. Na altura, escrevi que O Hobbit: Uma Viagem Inesperada apesar de ser um filme extraordinário padecia do que me parecia ser alguma falta de edição, contendo demasiadas cenas alongadas que tornavam o filme algo monótono. Neste segundo capítulo, boa parte desse problema desaparece. O filme tem um ritmo muito bom, raramente tornando-se maçador. Os anões seguem a sua caminhada em direcção à montanha onde o dragão Smaug se encontra adormecido, acompanhados pelo assaltante Bilbo Baggins. Gandalf separa-se do grupo e vai investigar “as trevas” que sente estarem a despertar. E esta é uma das partes altas do filme, pois Jackson consegue fazer um trabalho fenomenal de antecipação dos eventos que ocorrem n’O Senhor dos Anéis. Esta mudança de tom também é benéfica para o filme, pois Bilbo passa para segundo plano, e a história centra-se muito mais nos anões. Se bem se lembram, eu não fiquei grande fã da prestação de Martin Freeman no primeiro filme. Devo dizer que o acho bem melhor desta vez, mas penso que isso se deve a duas coisas: por um lado precisamente pelo facto de assumir menos protagonismo, por outro lado pelo facto de este filme ter seguido um tom muito mais ligeiro e próximo da comédia.
Este segundo capítulo superou as minhas expectativas em praticamente todos os elementos. É um grandioso filme de aventuras. Ao contrário d’O Senhor dos Anéis, onde o tema é a luta épica do Bem contra o Mal, n’O Hobbit temos somente a extraordinária aventura de um grupo de anões que quer recuperar o seu lar ancestral. Ah, e já agora, o colossal tesouro que nele se encontra! Julgo que estamos perante um dos melhores filmes de aventura de que há memória. Nas alterações que fizeram à história original (o guião foi escrito por quatro pessoas – as três responsáveis pela primeira saga, às quais se juntou Guillermo del Toro), foram introduzidas as personagens de Legolas (para alimentar a nostalgia dos primeiros filmes) e de Tauriel (uma elfa ruiva toda giraça, mas que nem sequer existe em qualquer livro). As cenas passadas no lar dos elfos são o ponto alto do filme. Novamente, a equipa de Jackson demonstra que ninguém está ao seu nível em termos de criação de cenários deslumbrantes. O exotismo que marca a “sala” do trono de Thranduil é magnífico. Nada transparece melhor o sentimento de santuário natural do que aquilo. A quase ausência de luz dá-lhe um ar sobrenatural que arrepia. É muito, muito bom. Ao contrário do que eu esperava, a dupla de elfos até acrescenta bastante ao filme. São duas personagens que mudam por completo o tom da história, alternando muito bem com os anões. E depois há que sublinhar o papel de Lee Pace, que interpreta Thranduil. A maneira dele se mover, e a forma como olha para o “rei” anão são fabulosas. Muito melhor do que Hugo Weaving, que – apesar de ser um actor que eu venero – nunca me pareceu ter muito de élfico. Pelo contrário, Lee Pace assimilou na perfeição o que é um elfo Tolkienesco.
Outro dos pontos altos do filme é a passagem pela Cidade do Lago, onde finalmente temos direito a ter algum quality time numa cidade humana no meio desta aventura onde parece haver uma overdose de bicharada do folclore tradicional. E que ambiente excepcional! A fusão entre realismo medieval e fantasia é perfeita, e o cenário de neve e gelo confere-lhe um toque de poesia triste que é esplendoroso. Não sei se repararam, mas aos poucos estou a relatar tudo o que acontece no filme. Não me dei ao trabalho de colocar um “alerta de spoilers” porque… meus amigos, os livros têm décadas, se não os leram não foi certamente por falta de tempo.
Uma vez que não vou falar da banda sonora de Howard Shore, dado que repito o que escrevi há um ano: é um trabalho de preguiça, resta-me falar de Smaug, o simpático dragão que dá o título ao filme. Durante mais de um ano, a equipa de produção e os publicitários dos estúdios mantiveram grande segredo em redor de Smaug. Não o iam revelar, iam guardar surpresa, etc. Nunca percebi muito bem qual era a lógica, e agora que vi o filme… continuo sem perceber. É suposto ter alguma coisa de especial? É um dragão digital, à semelhança de todos os outros dragões digitais. Não é mais bonito nem mais feio, é igual. Tanto suspense para quê? Estava curioso quanto à voz de Smaug, uma vez que esta foi feita pelo deslumbrástico Bennedict Cumberbatch, mas, tal como aconteceu com Star Trek Into Darkness, o talento do homem foi subaproveitado. A voz está tão distorcida digitalmente que acaba por soar igual a tudo o resto (nem se nota grande diferença em relação a um Megatron, por exemplo). É pena, pois Cumberbatch já demonstrou que além de ser um génio da representação, sabe igualmente colocar a voz com um timbre que provoca calafrios, como aconteceu com Khan, em Star Trek. Imaginar a voz de Smaug igual à de Khan… Mãezinha!
E bom, está tudo dito. O filme é soberbo, ultrapassando o primeiro em todos os aspectos, ficando ao nível de qualquer um dos filmes da primeira trilogia, adensando o trabalho épico de mostrar toda a dimensão da cultura da Terra Média, e servindo como entretenimento de excelência. Como se tudo isto não bastasse, Ian McKellan entra, obviamente, no filme. Mas dele nem vale a pena falar, não é assim?

Pelo Melhor:
Saber fazer as coisas. É tão simples quanto isto. Todos os meses chegam ao cinema filmes de trampa, com orçamentos milionários, que não valem uma lata de sardinhas. Peter Jackson, até ver, tem mostrado o discernimento necessário para honrar uma obra de culto, adaptando-a à sua visão, à sua interpretação, mas mantendo o nível exigido por nós, geeks que veneram Tolkien.

Pelo Pior:

Novamente, a estupidez do botox digital. Por favor, parem de o usar! Querer retocar digitalmente as rugas e a pele dos actores só dá merda! Usem maquilhagem, ou então estejam quietos! Há alturas em que o Orlando Bloom (Legolas) parece um boneco da Disney. Já no primeiro filme isto tinha sido mau, e neste é ainda pior. Acho que a malta prefere a idiossincrasia de ter pessoas mais velhas numa altura cronológica onde deveriam estar mais novas, do que ter bonecos de plasticina saídos dos cinematics dos jogos de computador! Morte ao botox digital! Salvem as baleias! Morra o Dantas, morra, pim!


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

200 Anno Wagner


Wilhelm Richard Wagner e Ludwig Van Beethoven não criaram a Música, mas levaram-na à perfeição. Beethoven é o maior criador musical da História. Wagner é o mais importante.
Quando Beethoven morreu tinha Wagner sete anos de vida. Ambos alemães, partilharam a vida com alguns dos maiores criadores musicais da Humanidade, mas é ao “jovem” Wagner que o Século XX deve a evolução musical que viu.
Wagner foi um visionário. Antecipou-se mais de um século a Hollywood. As suas óperas, cujos libretos foram escritos pelo próprio na sua grande maioria, criaram a extensão dramática/épica que somente os grandes filmes do cinema americano vieram muito mais tarde a alcançar. Há pouca coisa épica no cinema que Wagner não tenha feito na ópera. Até mesmo os “efeitos especiais” que tanta maravilha causaram nos cinéfilos foram trabalhados nas encenações dos seus trabalhos.
Esta exuberância foi possível graças, em grande parte, ao mecenato de Luís II da Baviera, rei que estoirou toda a fortuna da família a financiar as produções de Wagner, e a construir o fabuloso castelo Neuschwanstein (no qual eu votei para a lista das novas 7 Maravilhas do Mundo, em 2007), inspirado nas suas obras.
Em 2013 comemoraram-se 200 anos do nascimento do compositor. É triste que isto tenha merecido apenas uma breve notícia de rodapé, e que o ano musical tenha sido marcado por uma badalhoca a lamber martelos e a dançar nua em cima de uma bola. Duzentos anos antes nascia o homem que ganharia a imortalidade com a tetralogia “O Anel do Nibelungo”. Wagner pegou nos heróis da mitologia e do folclore nórdico e criou quatro óperas sem qualquer paralelo. Não há na História da Música outra realização a este nível. O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses só encontram obras de dimensão similar na literatura de Tolkien e outros génios.
Musicalmente, a tetralogia é de um arrojo assombroso. Não consigo imaginar o que deve ter sido para o público de então ver-se perante uma obra musical com uma pujança destas.
Têm dúvidas? Tentem então colocar-se numa época em que a sociedade estava habituada a ouvir e dançar ao som das valsas de Strauss, e de repente é confrontada com algo como isto:

Erich Leinsdorf "Prelude Act I" Die Walküre


Impressionante, até mesmo nos dias de hoje. Não colocarei aqui aquela que julgo ser a música mais perfeita jamais criada por um ser humano, a famosíssima Cavalgada das Valquírias, pois prefiro aproveitar esta oportunidade para partilhar outras músicas menos conhecidas.
O segredo de Wagner foi criar o leitmotiv, uma técnica de composição que associa um tema em particular a uma das personagens da ópera. Foi isso que os compositores do Século XX aprenderam a fazer, e foi com essa técnica que John Barry desenvolveu o tema de James Bond, e que John Williams (o homem responsável pela minha devoção à Música) desenvolveu a marcha inconfundível de Darth Vader, ou o tema de Indiana Jones. Wagner foi o pai de tudo isso.
O autor está muitas vezes conotado a questões bastante controversas. O facto de ser o compositor de eleição de Hitler levou a que ainda hoje a sua música seja mal recebida em Israel, onde inclusive o maestro Daniel Barenboim recebeu ameaças de morte por conduzir temas de Wagner. Foi um homem muito político, e controverso, mas pretendo falar apenas da sua obra.
A minha paixão pela música clássica começou precisamente com Wagner, há muito anos, quando na minha adolescência comprei, no Jumbo de Cascais, um CD por 800 ou 900 escudos (eu ainda sou desse tempo…) que tinha uma compilação das suas principais obras tocadas pela Royal Philharmonic Orchestra, conduzida por Vernon Handley. Não julguem que referir a orquestra e o nome do maestro é “overdose”. Conduzir Wagner não é para qualquer um. Está somente ao alcance dos grandiosos. Sempre que quiserem inspirar Wagner na sua plenitude, procurem por Erich Leinsdorf.
Para se perceber o porquê da importância de ter o maestro certo, e a orquestra certa:
Wagner Götterdämmerung - Siegfried's death and Funeral march Klaus Tennstedt London Philarmonic


É arrepiante, e comovente, ver Tennstedt a dirigir a Filarmónica de Londres. É porventura a música mais poderosa da História. Um dos prodígios da criação Humana. No final, Tennstedt está exausto. As lágrimas caem-lhe pelo rosto. O suor escorre-lhe da testa. O corpo treme. Isto é dirigir Wagner. Estamos no domínio dos deuses. Depois disto, nada resta…