quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Filhos da Madrugada Cantam Zeca Afonso



Portugal tem no século XX um património musical inestimável. Muitos foram os intérpretes e compositores que para tal contribuíram, desde a música tradicional ao rock, sendo Zeca Afonso porventura aquele que mais se destacou.
Toda a gente conhece o legado musical de Zeca Afonso, sejam as canções de intervenção, sejam as músicas populares. As suas letras marcaram, e continuam a marcar, a cultura nacional. Quem não conhece, pelo menos, o refrão d’Os Vampiros? Não existe música portuguesa sem Amália e Zeca Afonso.
Eu sou de uma geração posterior a Zeca Afonso, portanto já só o conheci “em segunda mão”. O que conheci em primeira mão foram as muitas bandas absolutamente geniais que Portugal viu nascer e/ou crescer nos anos 80 e 90 (quando o Q.I. global da Humanidade ainda não tinha atingido valores negativos). Madredeus, Resistência, Sitiados, Xutos & Pontapés, são apenas alguns dos nomes que fizeram parte da minha infância. E são também os nomes que vim a encontrar, por acaso, todos reunidos num CD de tributo a Zeca Afonso… que data de 1994!
Não fazia ideia que existia este “Filhos da Madrugada Cantam Zeca Afonso”, e quando o vi no “templo do consumo” do costume fiquei ainda alguns minutos de nariz torcido a pensar “hmmm, isto às tantas é capaz de ser uma grande banhada”. Mas os nomes que constavam no CD falavam por si próprios, e por seis euros…
E de repente, numa expressão popularmente portuguesa, caí de cu. O duplo-CD reuniu em 1994 (não é difícil perceber o porquê da data, basta fazer as contas e não ser completamente ignorante) alguns dos principais nomes da música nacional da altura. Para além dos que já mencionei lá em cima é ainda possível encontra GNR, Ritual Tejo, Sétima Legião, UHF, Delfins, etc. O resultado é assombroso! Épico, em alguns casos. São as canções geniais do Zeca reinterpretadas por uma nova geração de autores. Bem sei que esta onda das reinterpretações na grande maioria dos casos corre muito mal. Aqui, felizmente, não podia estar mais longe da estatística.
Desde logo, a abrir o primeiro CD, “Maio maduro Maio” no estilo brilhante dos Madredeus, ao que se seguem outras interpretações fabulosas como “A formiga no carreiro”, pelos saudosos Sitiados, e onde destaco “Canto Moço”, pelos Ritual Tejo.

O segundo CD é bastante mais fraco, embora tenha alguns temas interessantes. Na sua maioria parece que a decisão de quem organizou a colectânea foi “deixar os restos para o fim”.
Ouvir Zeca Afonso é sempre uma delícia, e ouvi-lo pelas vozes de uma geração de músicos talentosos é um prazer imenso. Estas jóias da nossa História e da nossa cultura não podem cair no esquecimento.
Resta-me falar da minha canção preferida de Zeca Afonso: “Canção de Embalar”. É uma das criações monumentais do nosso património artístico, daquelas que disputam o pódio com “A Canção do Mar” (onde, heresia, prefiro a versão da Dulce Pontes), ou “O Pastor” (sempre, sempre, sempre Madredeus). A letra d’A Canção de Embalar é um colosso. A música não lhe fica atrás. E a forma como o Zeca a cantou… é daquelas coisas que deixam uma sala em silêncio. Tendo isto em conta, era obviamente a canção que mais me “preocupava” no álbum. A interpretação era dos “Diva” (confesso o meu pecado, não os conhecia). Estaria à altura? Já tinha ouvido várias versões desta obra-prima, e a maioria justificava um processo em tribunal por crime de atentado contra o património... Caí de joelhos. Não era possível! Pegaram num tema genial e tornaram-no divino. Não há palavras depois disto. É apenas fechar os olhos.

Magistral. Conseguir descobrir uma coisa destas “perdida nos confins da História de Portugal” é um sonho. Que saudades destes tempos em que Portugal tinha bandas de uma qualidade grandiosa, por oposição aos cretinos que nos dias que correm pegam numa guitarra acústica, dizem umas banalidades com voz engonhada, e acham que são artistas.
Há que não deixar cair no esquecimento este nosso vasto património musical. Até porque – e apesar de eu ter prometido a mim próprio nunca falar de política neste blogue – as palavras de Zeca Afonso fazem cada vez mais sentido hoje em dia…

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Cavaleiro das Trevas Renasce


 Sentar-me para escrever uma crítica a “O Cavaleiro das Trevas Renasce” é um exercício penoso para mim. Mas é um demónio que necessita ser esconjurado…
Sou um apaixonado por cinema desde muito novo, e os anos recentes têm-me deixado com “azia no estômago” pois o cinema está cada vez mais como a música: 99% é esterco. Christopher Nolan é um prodígio do cinema nos dias que correm. Um génio, indiscutível. O homem que fez “Memento”, “The Prestige”, “Batman Begins”, “The Dark Knight” e “Inception” é alguém que está num campeonato à parte do resto do mundo. Todos estes filmes têm lugar em qualquer lista dos 100 melhores filmes de sempre. Alguns deles até têm lugar na lista dos 10 melhores filmes da história do cinema. O toque de Nolan era ouro. E é precisamente aqui que chegamos a “O Cavaleiro das Trevas Renasce”.
Recuemos precisamente quatro anos no tempo. Quando em 2008 saí do cinema ao ver “The Dark Knight”, vinha a tremer. Não acreditava no que acabara de ver. O filme era demasiado intenso, o argumento demasiado brilhante, a realização demasiado perfeita, a banda sonora para lá de perfeita, e o desempenho de Heath Ledger como Joker marcou um novo patamar no campo da interpretação. Onde muitos viam apenas um bom filme de acção, eu via uma obra que redefinia o cinema.
“O Cavaleiro das Trevas Renasce” é o filme que vem encerrar esta trilogia, que começou com o muito bom “Batman: O Ínicio”, continuou com “O Cavaleiro das Trevas”, e agora procurava o seu final épico. Vamos então à exorcização do demónio: “O Cavaleiro das Trevas Renasce” é provavelmente a maior desilusão da história do cinema.
Nem acredito que estou mesmo a escrever isto, mas faça-o de plena consciência, e de cabeça fria, dois dias depois de ter saído do cinema. Era expectável que o filme não chegasse ao nível do antecessor, a fasquia era impossivelmente alta, mas nunca me passaria pela cabeça que eu saísse do cinema a compará-lo com os filmes do Michael Bay ou do Roland Emmerich.
Os pontos mais fortes do 2º filme eram o argumento e os diálogos. São precisamente os pontos mais fracos deste 3º filme. O argumento não parece ter sido escrito pelos irmãos Nolan, mas sim por um iniciado a quem deram 24 horas para escrever um guião. É pobre, cheio de erros (não são buracos, são crateras), do mais previsível e idiótico possível, e chega a ser constrangedor. Quase tudo neste filme falha. A história não tem ponta por onde se lhe pegue, as personagens passam duas horas e meia sem saber o que estão a fazer no ecrã (isso nota-se nos actores), e a sensação que dá é que aquilo é uma amálgama de algo que alguém se esforçou demasiado para tornar épico, mas acabou por arranjar tantos “twists” disparatados que criou um holocausto cinematográfico.
Analisar este filme vai ser uma das coisas mais controversas nos dias que correm. Boa parte das pessoas não vai ter coragem de lhe apontar as falhas, porque pouca gente nos dias que correm ousa ir contra a corrente, e muita gente vai achá-lo genial, da mesma forma que acha que a música que se faz hoje em dia é genial, e que o “Twilight” é uma obra ímpar. Sim, já estamos no ponto em que falo do “Twilight” numa análise crítica ao novo Batman.
Há duas coisas que safam este descarrilamento do alfa-pendular: Hans Zimmer, que tem o defeito de ser o maior génio musical do mundo (e que se tivesse nascido há 200 anos chamar-se-ia Beethoven), e a surpresa que é Anne Hathaway como Catwoman. Fui dos que torceram o nariz quando o nome dela foi anunciado, e sou dos que lhe tiram o chapéu pela surpresa que foi.
SPOILER ALERT
Daqui para a frente vou fazer referência a muitas das coisas que se passam no filme, e portanto quem ainda não o viu, deve pura e simplesmente baixar as expectativas e parar de ler por aqui.
A história é uma aberração. Ao ponto de ser exactamente o inverso do filme anterior. No Dark Knight o Joker passava o tempo todo a tentar provar que as pessoas eram egoístas, e que conseguia despoletar a anarquia, e no final o Batman prova-lhe que afinal existe o Bem no coração das pessoas, e que o Joker está errado. O que é que acontece neste filme? O Bane explode meia-dúzia de bombas e a anarquia irrompe por todo o lado. Chegamos ao ponto de ver os bagageiros dos hotéis de luxo a escorraçar os clientes ao pontapé… aí uns cinco minutos depois do ataque do Bane. Ataque esse que, diga-se, também é de génio. Corta todas as saídas da cidade (repetindo o que fez no filme anterior), ameaça matar quem tentar sair da cidade (repetindo o que fez no filme anterior), e lê uma carta aos jornalistas a dizer que o Comissário da polícia mentiu. Portanto, já chegámos ao nível intelectual em termos de cinema onde se acha razoável que um louco faça explodir meia-dúzia de bombas, apareça na televisão a ler um papel que ele diz ser da autoria do Comissário, e imediatamente toda a gente acredita nele e desata a lançar a anarquia pelas ruas. Hum… para começo de conversa estamos no bom caminho.
Depois temos as gralhas (“plot holes”) que se sucedem. Bane diz que dá cinco meses até que a bomba expluda, e nada se passa nesse tempo, voltando à cena apenas a meia-dúzia de horas do fim. Só há uma maneira de desactivar a bomba, e os vilões – em cinco meses – não destroem a forma de o fazer (que basicamente passa por destruir o mecanismo de acoplamento da mesma). O Bruce Wayne quando sai do carro tem um “gadget” que provoca um pulso electromagnético que desliga todos os aparelhos eléctricos, tem uma coisa que faz o mesmo na mota, mas em cinco meses ninguém é capaz de atirar com um mecanismo desses contra o camião que anda a passear a bomba. O arsenal do Batman é super secreto, só o Fox tem conhecimento da sua existência, mas no final dois técnicos da empresa informam-no que fizeram um upgrade no software da nave “há seis meses”. Um miúdo órfão diz-lhe: “Eu vi-te uma vez quando tinha cinco anos, mas olhei para os teus olhos e sabia que eras o Batman”. ??? !!! ??? A sério, isto foi escrito pelas mesmas duas pessoas que escreveram o argumento do “Inception”? Este pormenor então é de se lhe tirar o chapéu, pois toda a gente no filme sabe a identidade secreta do Batman, exceptuando quem? O Jim Gordon, precisamente o Comissário da polícia que trabalha com ele há pontapés de anos. Há também a cena de génio onde ele entra em ruptura com o Alfred. Portanto, tu és a pessoa mais próxima que eu tenho na vida, conheces-me desde que nasci, fizeste tudo por mim… mas agora acho que me estás a mentir e não quero mais ser teu amigo, por isso vai-te embora. Permitam-me novamente: ??? !!! ??? Até tenho dúvidas que o Michael Bay conseguisse algo tão estúpido (e não é por falta de tentar).
E depois temos os clichés, que são tantos, tão óbvios, e tão mal construídos, que causam dor. O que é que a Catwoman faz? Basicamente tem jeito para assaltar cofres e roubar colares de pérolas, mas o Batman necessita inequivocamente dela para enfrentar o exército do Bane. Os gajos que são mandados para o exílio têm que caminhar sobre o gelo, que parte-se de imediato e os engole, mas de repente temos 10 polícias a andar em cima do gelo, que já de si não se parte, e de repente encontram o Batman em cima do gelo (que com o fato e todo o arsenal só deve pesar uns 200 quilos)… E terminamos com o “momento em que o vilão tenta consumar a sua vingança enquanto morre”, quando temos aquela cena divina da Talia (que em si mesma é um cliché) que está a morrer no camião, falta um minuto para a bomba explodir, e de repente lembra-se de contar aos heróis como está satisfeita por cumprir o sonho do paizinho, e temos o Batman, a Catwoman, e o Gordon, os três parados, de cabeça levemente inclinada, a ouvir placidamente a historinha toda.
Penso que é melhor parar por aqui, mas em verdade devo dizer que teria muito – mas, infelizmente, mesmo MUITO – para continuar a enunciar a estupidez incessante que apenas 2h30 de filme conseguem demonstrar.
Em suma, estou triste por ver este desfecho verdadeiramente vergonhoso, onde até Gotham subitamente se transforma numa cidade luminosa, e com um solzinho caloroso, e onde mesmo estando preparado para que o filme não correspondesse às expectativas, nunca me passou pela cabeça que fosse tamanho descalabro. Não chega a entreter, porque é enfadonho, não chega a desenvolver as personagens, porque há demasiada coisa sem sentido a ser martelada, e é tão insípido que leva uma pessoa a fechar os olhos a meio do filme e a pensar “isto é alguma brincadeira de carnaval?”. Fosse este filme feito por outro realizador, e noutro contexto, e provavelmente a minha crítica não seria tão arrasadora. Mas há que ter noção das coisas. Uma coisa é o Benfica perder 5-0 com o Barcelona, outra coisa é perder 5-0 com os Pescadores da Costa da Caparica. Nolan é um génio, continuará a sê-lo, continuarei a idolatrar o homem, e este filme ficará como a única nódoa na sua carreira. Não é algo que me preocupe em demasia, até porque daqui por 10 anos ainda se falará do “The Dark Knight”, mas daqui por 10 meses já ninguém falará deste “The Dark Kight Rises”.


Pelo Pior:
O argumento próprio para mentecaptos, que faz Nolan descer ao campeonato do “cinemazinho blockbuster”. A voz de Bane, que onde se pretendia um vilão que instigasse medo, acaba por soar a uma interpretação do Sean Connery num dia de alergia com o nariz entupido.

Pelo Melhor:
Hans Zimmer. SEMPRE. Nunca me cansarei de o dizer. Não há prémios na Humanidade para louvar este homem. O coro que fez para tema do Bane é extraordinário (pesquisem no Google a história por trás da sua concepção), bem como todo o resto da banda sonora. Michael Caine, que mantém a sobriedade e a classe. E Anne Hathaway, que pelo esforço merecia algo melhor.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

“História de Portugal” (Expresso)



A História é o tema mais fascinante que existe. E a História de Portugal é um tema mais do que fascinante. Sou apaixonado por História desde miúdo pequeno, embora me confesse um gigantesco leigo na matéria. Boa parte da culpa deve-se ao meu livro da 4ª classe sobre a História de Portugal, já não me lembro da editora, mas recordo que tinha as páginas decoradas a cor-de-laranja e na capa uma fotografia da estátua de Dom Afonso Henriques que se encontra junto ao Castelo de Guimarães. Foi esse o livro que me deu a conhecer a História de Portugal, e dos reis que atravessarem as suas três dinastias mais uma.
Já li muitos livros de História, com particular enfoque no Império Romano, o meu fétiche, mas como tenho uma memória digna de uma batata, ou de um peixinho-dourado, metade do que leio esvanece-se-me da memória...
Ora, justifica-se este pseudo-artigo a propósito da iniciativa do jornal Expresso de editar uma espécie de colecção de bolso com o livro “História de Portugal”, escrito por Rui Ramos, Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa (Esfera dos Livros, 2009). Decidi adquirir os livros um pouco com aquele espírito de “talvez um dia destes venha a ter vontade de os ler”. Interesse nunca falta, obviamente, mas convenhamos que nem sempre é fácil ler livros de História, os quais são por vezes escritos numa linguagem pouco direccionada para o comum dos mortais. Decidir ler um livro de História é um investimento considerável. Requer disposição, tempo, e na maioria dos casos disponibilidade para procurar outras fontes/elementos (seja imagens específicas, mapas, ou referências diversas).
Peguei então no primeiro volume “apenas para dar uma vista de olhos e tentar tomar o pulso ao estilo”… e ainda não o consegui largar. Há já muito tempo que não me caía nas mãos uma coisa tão bem escrita. É deslumbrante. A facilidade na escrita é desarmante, acompanhada por um ritmo estimulante, e que à medida que vai desenvolvendo “os episódios” faz alusões a outros temas cronologicamente posteriores, e que aos poucos acabam por se ir entrelaçando.
Que surpresa tão agradável.
Além de ser um tremendo estímulo à leitura, conjuga uma diversidade magnífica de áreas, aliando muitas vezes a geografia ao enquadramento religioso, e até a ciência pura e dura, ou a própria etimologia. É difícil ser mais completo. E sempre claro, objectivo, directo, e direccionando para novas fontes que têm surgido do trabalho de investigação que se tem feito no país, mas também lá fora. Um primor.
Por exemplo, ficamos a saber que “Na Península Ibérica, em média, os homens apresentam 69,6% de ascendência ibérica («nativa»), 19,8% sefardita e 10,6% berbere”. Portanto, eu tenho 1/10 de sangue berbere dentro de mim. Pensem duas vezes antes de me chamar nomes…
Nem de propósito, sendo hoje dia 25 de Julho (Batalha de Ourique), transcrevo um excerto do extraordinário texto que desvenda aquela que é a figura maior da História da nação.
“No seguimento da batalha e do triunfo nela alcançado, Afonso Henriques passou a intitular-se rei dos portugueses (portugalensium rex). Este título, que surge nos diplomas então elaborados na corte de Afonso Henriques, remete para uma soberania sobre os indivíduos que se identificavam como sendo portugueses (ou que o autoproclamado rei identificava como tal) e não tanto sobre um território perfeitamente delimitado ou já estabilizado. Antes de ser «rei de Portugal» Afonso Henriques era rei dos portugueses (…)”
Antes de ser rei de Portugal era rei dos portugueses. Uma frase destas tem peso.
Pouco mais me resta acrescentar a esta obra, excepto talvez referir o bom gosto de usar os painéis de São Vicente de Fora para capa da mesma. Trata-se, sem margem para discussão, da mais importante obra da História da pintura portuguesa.
É uma triste partida da ironia que esta colecção surja precisamente na semana em que morreu José Hermano Saraiva, um dos homens a quem este país mais deve o descobrir e partilhar da sua História.
Dito isto, para terem ideia do quão facilmente se devora este(s) livro(s) posso dizer que até na praia o tenho lido. Termino, em tom de manifesto agrado, com uma frase que quando a li me fez chorar a rir, e que transcrita aqui, fora do contexto, ainda mais piada tem.
“É provável que Portugal tenha sido um dos últimos refúgios dos neandertais”.
Yup… quanto a isso estamos de acordo!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Colecção Heróis Marvel – Jornal Público



É praticamente impossível ter crescido nos anos 80 sem ter consumido doses generosas de “revistas aos quadrinhos” de super-heróis. Vem este assomo de nostalgia a propósito da colecção “Heróis Marvel” que o jornal Público iniciou no dia 5 de Julho, com entregas semanais às quintas-feiras.
No total são 15 volumes que abrangem a maioria das personagens mais famosas da Marvel, misturando algumas histórias clássicas, com outras mais contemporâneas. Exemplo dessas histórias clássicas são as que constam precisamente no número de lançamento: “Homem-Aranha – Integral Frank Miller”.
Frank Miller é mais ou menos o deus dos deuses da banda desenhada de super-heróis. Conhecido pelos trabalhos magistrais em “Batman: The Dark Knight Returns” e “Daredevil: The Man Without Fear”, conquistou o pódio com a sua criação maior, “Sin City”, que à semelhança de outra das suas obras, “300”, foi adaptada ao cinema.
Embora Miller seja idolatrado pelo seu talento enquanto escritor, o que este primeiro volume da colecção reúne são as histórias desenhadas por ele no seu início de carreira, para a revista do Homem-Aranha (1979-81). Este é um livro só para os fãs “de outros tempos”. Aqueles que gostam da “silver age” dos comics, com o traço tosco, cores berrantes, e argumentos muito pouco elaborados. Curiosamente, das seis histórias que o livro traz a mais fraquinha é a única que é escrita por Miller.
É de realçar a qualidade da produção final do livro, em capa dura, com material de muita qualidade, e com uma tradução cuidada e – ALLAH É GRANDE – a não seguir o aborto ortográfico. Ainda existe gente de bem neste país.
A única crítica que posso fazer a esta colecção é o seu preço: € 8,90 por volume. Esta é uma crítica que eu faço há muitos anos à banda desenhada produzida em Portugal. O preço é totalmente descabido. É certo que a qualidade justifica-o, mas num país tão pequeno, com uma amostra de fãs tão reduzida, e onde o dinheiro não abunda propriamente é um disparate apresentar estes preços. Parece que se pretende que a banda desenhada seja apenas para algumas elites, o que é absurdo, e leva, invariavelmente, a que tudo o que é lançado neste campo em Portugal esteja condenado ao fracasso. Não fazia mais sentido publicar os livros em “capa mole” (ou lá qual for o termo técnico adequado) e metê-los a metade do preço? Enfim…
Aos potenciais interessados, a listagem completa da colecção, bem como as histórias que se englobam em cada livro, pode ser consultada em: link.
Espero que os trintões nostálgicos que por aí perduram possam matar saudades com este breve momento nostálgico. Por momento podemos voltar a ser crianças, e a “troika” é composta pelo Homem-Aranha, pelo Demolidor, e pelo Justiceiro.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Fantástico Homem-Aranha


 Quando anunciaram que iam lançar um reboot do Homem-Aranha dei por mim a bater com a cabeça na parede e a pensar: mas esta gente é parva? Esta parvoíce dos reboots anda na moda, e ao que parece Hollywood tem dinheiro a mais para queimar nestas idiotices. E basicamente “desliguei”. Não me dei ao trabalho de seguir as notícias relativas ao filme, nem sequer de ver os trailers. Acontece que o filme estreia e dou por mim inadvertidamente a caminho do cinema para o ver, rezando a todos os santinhos para que não fosse um barrete demasiado grande, mas sem muitas esperanças…
Acrescente-se a isto o facto de eu não ser fã dos filmes anteriores do Homem-Aranha, e estar mais do que enjoado desta moda actual de filmes de super-heróis a estrear a cada mês.
E portanto vamos ao que interessa: foi um grande barrete, daqueles de fazer arrancar cabelos com o desespero? Nope. Nada disso. Foi uma das maiores surpresas que o cinema me trouxe nos últimos anos. Fiquei completamente rendido ao filme. É extraordinário. Tão espectacular como o próprio Homem-Aranha.
Os filmes de super-heróis, para convencerem, necessitam essencialmente de protagonistas fortes, carismáticos, e que consigam perceber porque razão é que estas personagens ficcionais são tão importantes para as legiões de fãs que há décadas os adoram. Grande parte do falhanço dos anteriores filmes do Homem-Aranha deve-se a meu ver à escolha de Tobey Maguire para interpretar o super-herói mais querido pelo público de todos os tempos (ok, o Super-Homem talvez conteste este título). Tobey Maguire é uma nódoa, o maior erro de casting da história do cinema. É assim uma espécie de Mathew Broderick, mas dez vezes pior. Felizmente, em boa hora, alguém se lembrou de ir buscar Andrew Garfield para interpretar a personagem da história mais conhecida do universo dos super-heróis. Não me lembro de alguma vez ter visto este tipo em algum filme (ainda não vi “A Rede Social”), mas pelo menos aqui ele está perfeito. Compreende quem é Peter Parker, e como enquadrá-lo no mundo actual. Faz um geek inteligente, divertido, problemático, e que consegue transparecer muito bem o deslumbramento que alguém sentiria se um dia acordasse e tivesse os poderes do Homem-Aranha.
A realização ficou a cargo de Marc Webb (sim, irónico que o nome do realizador do Homem-Aranha seja “Teia”), um tipo sem qualquer currículo no mundo do cinema, e que é famoso (?) por fazer videoclips dos Green Day. No entanto, apresenta uma realização sólida, forte e cheia de dinâmica, mantendo o filme a fluir a um ritmo que nunca deixa perder a adrenalina, e que mesmo nas partes mais paradas não se torna aborrecido. Há um momento particularmente épico no filme, já próximo do final, que envolve gruas de construção, e que é simplesmente extraordinário, focando uma componente muitas vezes esquecida, mas essencial no cerne das histórias de super-heróis: a população de Nova Iorque. O momento é muito bem conseguido, e altamente inspirador.
Um outro momento muito bem conseguido é o da morte do Tio Ben, episódio fulcral na criação do super-herói. A forma como é introduzido no filme é excepcional, categórica, e muito enquadrada com a sociedade actual. Era impossível fazer melhor.
Para vilão do filme foi escolhido o Lagarto, um dos mais conhecidos inimigos do Aranha, e que à primeira-vista não suscita grande interesse, mas que acaba por conferir ao filme um realismo muito maior do que a maioria das “tristes e estapafúrdias criaturas que compõem as galerias de inimigos da maioria dos super-heróis”.
O veterano James Horner assina a banda sonora, fazendo um trabalho muito bom, e refrescante, fugindo ao seu estilo muito repetitivo e por vezes auto-plagiável.
Como não podia deixar de ser, Stan Lee faz um cameo no filme. E talvez o mais divertido de todos os que fez até aqui. Também, como em todos os filmes da Marvel, há uma cena escondida após os créditos finais, e que revela um pouco do que virá para o próximo filme.
Resumindo: “O Fantástico Homem-Aranha” é um excelente filme que não vai desiludir os fãs de super-heróis, ou de filmes de acção, e que eu aconselho vivamente. É talvez o único filme do género que se aproxima da perfeição dos Batman de Christopher Nolan, e que foge à mediocridade com que repetidamente os filmes de super-heróis nos têm fustigado (quem achou que os “Vingadores” é um bom filme é porque só reparou na Scarlett Johannson durante as duas horas, e esqueceu-se de tudo o resto).
Para terminar, devo acrescentar que foi uma enorme satisfação ver o filme em Português genuíno, não seguindo o esterco do aborto ortográfico. Obrigado a quem quer que tenha tomado essa decisão.

Pelo Pior:
“Com grande poder vem grande responsabilidade”, esta é a frase-chave da história do Homem-Aranha, e optaram por a deixar de fora do filme. É certo que trocaram-na por um discurso com algo muito semelhante, mas uma frase tão icónica não podia ficar fora de cena.

Pelo Melhor:
Andrew Garfield, que sendo um puto com pouca experiência no cinema consegue captar na perfeição o espírito da personagem, e ressuscitar um herói que merecia a dignidade no grande ecrã que não lhe tinha sido dada anteriormente.