quarta-feira, 9 de Abril de 2014

"Os Vampiros", Zeca Afonso



"Os Vampiros", Zeca Afonso, 1963

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
 

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Capitão América – O Soldado do Inverno




Quando eu era catraio, há coisa de 20 anos, gastava perto de 90% do meu orçamento (leia-se: mesada) em revistas de BD de super-heróis. Sim, riam-se à vontade. Passadas duas décadas, nós, geeks, conquistámos o mundo, e o resto é paisagem. Hoje em dia toda a gente conhece o Senhor dos Anéis, os filmes da Marvel estoiram com recordes de bilheteira, e a ficção-científica está na moda.
Mas voltemos aos meus tempos de gaiato. Os super-heróis preferidos de toda a gente eram o Super-Homem ou o Homem-Aranha. Eu sempre detestei o Super-Homem, e nunca fui excepcionalmente fã do Aranhiço. Toda a bicharada delirava com os gajos superpoderosos que disparavam raios-laser dos olhos, eram mais rápidos que a velocidade da luz, ou que eram mega-robots indestrutíveis. Eu gostava do Capitão América e do Batman. Eram tipos normais (dentro dos limites em que se acha que um gajo que vive numa caverna com morcegos pode ser considerado normal). Um era um “dark knight”, o outro um “white knight”.
Quando em 2011 a Marvel anunciou o lançamento de um filme do Capitão América eu fiquei de pé atrás. Não se trata de uma personagem que possa ter filmes “iguais aos dos outros heróis”. O Capitão América é para pessoas inteligentes, não é um “Hulk Esmaga”, nem um “eu sou um gajo indestrutível que combate contra mutantes cheios de poderes”. Felizmente, a Marvel tem gente muito inteligente e “Capitão América – O Primeiro Vingador” é de longe o meu filme preferido da gama de heróis da Marvel. Conseguiram evocar a nostalgia da personagem carregada de ideais originária na Segunda Guerra Mundial, e fazer um filme extraordinário. É claro que foi um dos filmes menos populares da Marvel, bastante longe dos blockbusters do Homem-de-Ferro e dos X-Men. Tal como eu disse, o Capitão América é para gente inteligente.
Chegados a 2014, eu estava novamente com o pé atrás. Será que conseguiam fazer um filme digno de ser o sucessor do de 2011? Ou iriam entrar na “esquizofrenia intergaláctica” do filme dos Vingadores? Bom, tal como eu disse, a Marvel tem gente muito inteligente.
“O Soldado do Inverno” é o filme perfeito, porque, à semelhança do “Dark Knight” de 2008, não é um filme de super-heróis. É um filme de soldados, espiões, homens e mulheres normais a lutar contra os maus da fita. É um “Missão Impossível” misturado com “James Bond”. Tal torna-se perceptível logo na abertura do filme. Não começa com coisas a explodir, nem com vilões estapafúrdios a fazer juras de “world dominance”. Começa com Steve Rogers a correr na rua, e a conversar normalmente com um ex-soldado como ele. Um Steve Rogers a tentar habituar-se ao mundo contemporâneo (SPOILERS: ele esteve congelado mais de 50 anos). Dez minutos depois é chamado para uma missão de resgate de reféns a bordo de um navio, onde encontra um dos adversários icónicos da banda desenhada: Batroc, um Francês que dá uns valentes pontapés. E logo aqui se percebe a distinção entre os filmes do Capitão e os restantes. É uma sequência de acção, com artes marciais, muito bem feita.
E a partir daqui, o filme começa a ficar cada vez melhor. A história de fundo está muito bem delineada, com uma reflexão cortante sobre a sociedade actual. A coragem e a inteligência necessárias para fazer isto num filme de super-heróis… bravo! Constatar que as pessoas abdicam voluntariamente da sua liberdade em prol de uma segurança virtual, e que estão dispostas a abdicar dos seus direitos nesse processo, é o que diferencia a luta do Capitão América das lutas dos restantes super-heróis. Aqui não estamos a discutir a invasão de naves espaciais vindas dos confins do Universo. Estamos, isso sim, a olhar para o mundo à nossa volta e a pensar “até onde estamos dispostos a permitir que os mais fortes dominem os mais fracos”? A mensagem política está lá. Bem escondida, subtil, mas visível para quem estiver atento. E é por isto que o Capitão América é o maior super-herói de todos os tempos. Porque é o gajo que salta para dentro de um autocarro para proteger os mais vulneráveis, enquanto os outros gajos andam a voar e a destruir metade da cidade ao seu redor.
O argumento não está desprovido de clichés, nem de previsibilidades. Já toda a gente viu 500 filmes de espiões onde “não podes confiar em ninguém”, e onde há traidores dentro das organizações dos bonzinhos, e onde no final do filme há a reviravolta que já não causa surpresa a ninguém. Não obstante, é feito de forma moderadamente convincente.
Um filme destes nunca sobreviveria sem “o toque Michael Bay”, e como tal, a cada 20 minutos há pelo menos 50 coisas a explodir em simultâneo. Mas, ao menos, o equilíbrio entre argumento e acção está conseguido, e até acabamos por apreciar boa parte dos exageros.
Ao nível das interpretações não há muito a dizer. Chris Evans, apesar de não ter o carisma que se impunha ao Capitão, desempenha convincentemente a função. A divina Scarlett Johansson é quem mais salta à vista (vá-se lá saber porquê…), estando como peixe na água no papel da Viúva Negra. Só aqueles olhinhos são metade do filme… Pelo meio temos Samuel L. Jackson a fazer de Samuel L. Jackson no papel de Samuel L. Jackson. Há uns anos gostava muito dele, mas confesso que hoje-em-dia já não tenho grande paciência para o ver sempre a fazer o mesmo papel, o mesmo ar de “badass nigga”, os mesmos tiques, a mesma colocação de voz… Felizmente foram buscar o veteraníssimo Robert Redford, que dá um ar de solidez ao projecto. De resto, há um punhado de meninas bonitas e meninos musculados a preencher o resto do cenário.
A banda sonora não é boa nem é má. É perfeitamente adequada ao filme, e portanto “thumbs up”. É electrónica moderna pura, cheia de percussão, com alguma inspiração nas fanfarras militares. Não é coisa que se ouça fora do filme, mas assenta como uma luva no ritmo do mesmo. Há actualmente uma data de compositores novos a marcar uma tendência musical no cinema. Para experimentarmos algo mais original e inspirador talvez tenhamos de esperar para ver o que John Williams fará em 2015 no novo “Star Wars”.
Resumindo, temos uma obra com muita categoria, “realizada a duas mãos” pelos irmãos Anthony e Joe Russo, o que é surpreendente (e mais uma vez comprova a inteligência dos estúdios da Marvel) tendo em conta o tipo de trabalho que consta no currículo de ambos (essencialmente séries, e projectos de comédia). É uma resposta de peso e qualidade a quem pensava que o Capitão América não era “material cinematográfico”, e que demonstra com tremenda aptidão por que razão faz todo o sentido nos dias de hoje ter uma personagem com os seus ideais.
This isn’t freedom. This is fear.
O geek com duas décadas dentro de mim respira de inspiração e satisfação. O maior super-herói de todos os tempos está vivo, e recomenda-se!

Pelo Melhor
O filme. É difícil fazer bons filmes nos dias que correm para “o mercado”. É preciso escrever coisas muito simples, para gente muito estúpida. Não se pode complicar em demasia. É preferível apostar em maus actores com um palminho de cara, e colocá-los no meio de explosões e catástrofes, do que apostar em temas que exijam exercitar os neurónios. Neste filme, os estúdios da Marvel (que ocupam neste momento, em termos de cinema, um lugar que a LucasArts ocupava há 20 anos) demonstraram como era possível fazer algo de qualidade, que ao mesmo tempo fosse um espectáculo de cinema-acção agradável, olhando de forma crítica para a globalização que impera, e a lei do mais forte que comanda a Humanidade, deixando no ar a forte mensagem de que existem coisas pelas quais temos de pagar um preço elevado, mas que justificam que o paguemos. Nada mau para quem sempre foi olhada como a editora dos bonequinhos que vestem pijamas coloridos.

Pelo Pior
Mas por que C#@R&%LH@ é que o Capitão América usa batom cor-de-rosa!!??!!??? Pelo capacete de Galactus (que por acaso também é cor-de-rosa), nunca hei-de perceber esta estupidez de pintarem os lábios dos actores (ou dos pivots de televisão)! Mas que merda de moda é esta? Que coisa mais estúpida e cretina! Não basta o botox digital, ainda é preciso pôr batom para realçar os lábios das personagens masculinas? “Oh, sim, olhem para mim, o grande herói que vai salvar a Humanidade dos nazis! Oops, esperem, não o posso fazer sem pintar os lábios de cor-de-rosa! Já agora um pouco de rimmel…”
Epá, vão comer cocó fúcsia em 3D!!!!!!!!!!!!! >:|


quarta-feira, 19 de Março de 2014

Intelectual Tuga Desvenda Mistério do Avião Desaparecido



Se há coisa em que Portugal não tem défice é na quantidade de intelectuais da praça pública. Toda a gente sabe tudo sobre todo e qualquer tema. E, geralmente, sabe-o “de fonte segura”.
O desaparecimento do avião da Malásia não é excepção. Partilho a teoria registada há pouco no café.
- Posso-lhe garantir que o avião não caiu à água! Foi desviado para uma ilha desabitada qualquer. Até nem precisam de ter um aeroporto para o aterrar. Basta uma pista, e até nem tem que ser muito grande porque eles usam uma rede para agarrar o avião. Eu sei! E isto até nem é novo, porque eu lembro-me de ver isto num livro de banda desenhada quando tinha 7 ou 8 anos. Aliás, até usam isso nos porta-aviões!
Está desvendado o mistério. Embora confesse que gostaria de ver um Boeing 777 a ser apanhado por uma rede… Até pagava de bom grado a taxa extra dos óculos 3D.
Pois é, esta gente existe. Pior, respira do meu ar. Mais, posso garantir de fonte segura que até fazem parte da casta que votou e escolheu a canção que vai representar Portugal no Festival da Canção.
Assim de repente o genocídio começa a parecer uma ideia aprazível…
E, como sou uma pessoa bem-disposta, partilho a fonte bibliográfica onde o senhor se baseou.

“Voo 714 Para Sidney”, As Aventuras de Tintim, 1968

segunda-feira, 10 de Março de 2014

“Espártaco – A Revolta dos Escravos”, de Max Gallo




Espártaco deixou-se cair, procurando encostar-se a uma árvore. Objectou que pertencia a uma família que nunca se submetera, que só venerava os deuses da felicidade, da força e da liberdade. Ninguém, nem os Persas, nem os Dácios, nem os Romanos, tinham conseguido reduzi-los à escravatura. Fora este desejo de ser tão livre quanto um lobo que o levara a fugir do acampamento dos auxiliares. Não recusara ser humilhado pelo centurião Nómio Cástrico ou pelo tribuno Calvício Sabínio para se submeter a deuses ainda mais exigentes, também eles desejosos de acorrentar os homens.
- Livre ou morto! – declarou Espártaco.

Era uma vez um vampiro chamado Edward, que se apaixonou por uma rapariga chamada Bela. Viveram uma linda história de amor, até que um dia um lobisomem seminu os matou a todos. The End. E o mundo rejubilou.
Não, meus caros, eu não perdi o juízo de vez. Passo a explicar a razão desta estranha introdução. Espártaco - A Revolta dos Escravos foi-me oferecido no dia dos meus anos por duas pérfidas criaturas que colocaram no livro uma capa destacável do Twilight. Imaginem, portanto, o ar de choque do Prodigioso Psy ao abrir uma prenda, e a ficar naquela situação em que quer atirar “a coisa” pela janela, mas ao mesmo tempo quer manter a compostura, a boa educação, e seguir a tradição de agradecer qualquer prenda que nos seja dada, mesmo que seja um cocó ressequido. Mesmo que seja o Twilight. Um dia, por este acto atroz, estas pérfidas criaturas serão levadas na barquinha do Caronte, ao longo do Rio Styx, e terão que prestar contas pela sua vilania, juntamente com Judas, Brutus, e outros traidores inomináveis.
Mas falemos então de Espártaco, que com o reluzente Edward tem em comum apenas a primeira letra do nome. Este foi o primeiro livro que li de Max Gallo, autor sobejamente reconhecida pela sua obra de ficção histórica. Como é do conhecimento geral (ou pelo menos espero que seja…), este é um estilo do qual sou particularmente entusiasta, e tratando-se de algo associado à História de Roma, não podia haver melhor conjugação de constelações para me deixar a salivar.
Pois nunca até hoje detestei tanto um livro quando o comecei a ler! Exacto. Assim mesmo. Os primeiros capítulos foram uma tortura. Mas como é que este gajo é um escritor tão famoso? Mal descreve as personagens! Espártaco é um trácio, e faz-se acompanhar por uma sacerdotisa de Dioniso chamada Apolónia, e por Jair, um judeu. E pronto, é só isto. Andam por aqui, andam por ali, e não passa disto. Mas que raio… Querem ver que ainda largo isto e acabo por ir ler o Twilight? Não há enquadramento na acção, a história salta para trás e para a frente sem qualquer fio condutor, as personagens têm apenas direito a nome próprio, e pouco mais… Pois é, Max Gallo não é propriamente um escritor entusiasmante quando se começa a ler. O facto de ser professor de História pode ser parte da explicação. As personagens (pelo menos neste livro) não são o eixo central da acção. Mas quando o leitor começa a perceber que a personagem principal é a história em si… a coisa muda de figura. A atenção ao detalhe é notável, e a acuidade histórica salta à vista.
Num primeiro embate, as personagens são mesmo aborrecidas. Espártaco é apenas um trácio, um pouco grunho, que repete ad nauseum “eu quero ser livre, eu quero ser livre, eu recuso-me a ser escravo”. A única personagem feminina do livro todo é Apolónia, a sacerdotisa de Dioniso, que basicamente é uma boneca insuflável com pernas. Página sim, página não, a moça lá arranja maneira de estar envolvida em “qualquer coisa sexual”.

Espártaco diz aos soldados que vão seguir em frente. Apolónia agarra-lhe no pénis e fazem sexo. As oliveiras ao longo da estrada estavam sem azeitonas. Apolónia mordisca os mamilos de Espártaco e fazem sexo. O antigo gladiador reúne-se com os seus companheiros, para combinarem um plano de ataque contra os Romanos, e, enquanto isso, Apolónia dá uma cambalhota por baixo dele, abre as pernas, e fornicam que nem coelhos. Depois da batalha, Espártaco está cansado. Encosta-se a uma pedra para fazer a sesta. Apolónia agarra-lhe no pénis e fazem sexo. A meio do caminho, Espártaco tropeça numa pedra. Apolónia está deitada no meio do chão de pernas abertas… e fazem sexo!

Eu não sou propriamente um gajo púdico, e percebo que uma sacerdotisa de Dioniso seja tão “entusiasmada” como o coelhinho da Duracell na noite de núpcias, mas tratando-se da única mulher que aparece na história… Caneco! Seria de esperar que as leitoras do Sr. Gallo lhe tivessem um ódio cego pela forma como retrata as mulheres, mas o mais giro é que em 1975 foi galardoado com o Prémio das Leitoras da revista Elle!
Ok, acho que me vou cingir a comentar o livro em si. Passado o incómodo inicial, a obra começa verdadeiramente a revelar-se. Alguns dos diálogos são de uma simplicidade magnífica, em particular aqueles que Espártaco mantém com Jair, o curandeiro judeu.
«O que significa ser livre num mundo todo ele subjugado?»
A descrição de todo o ambiente – a tal personagem principal do livro – em torno das escolas de gladiadores é de gelar o sangue. Temos aquela visão romântica dos combates de gladiadores que nos foi “vendida” pelo cinema ao longo das últimas décadas, mas Max Gallo faz questão de descrever pesadamente o que seria o dia-a-dia daquela gente cuja vida de nada valia, e que servia meramente como carne para canhão. Há uma crueldade lancinante em algumas descrições que nos roubam todo o brilho de Hollywood.
E a história vai-se desenvolvendo, e Espártaco vai reunindo o seu exército de escravos que faz frente à todo-poderosa Roma. Espero que ninguém esteja assustado com a possibilidade de eu fazer spoilers. É que não estou propriamente a falar do Harry Potter, e tudo isto passou-se em 71 AC. Portanto, espero que por esta altura do campeonato toda a gente saiba que isto não vai acabar bem… Continuando, o peso da revolta que vamos acompanhando começa a ser evidente. Não se desafia Roma. Espártaco começa a ter os problemas de liderar um exército de escravos revoltosos (e é aqui que o toque de professor de História de Max Gallo faz brilhar o livro). Há, ao longo do livro, passagens introspectivas que causam grande impacte quando lidas no momento certo, a partir do momento em que começamos a sentir empatia com as personagens.
«Foi nesse momento que Espártaco se sentiu cansado e lhe ocorreu que comandar homens também era uma escravatura. Que um homem talvez só fosse livre quando caminha sozinho pela floresta, debaixo do céu da sua infância.»
Ok, chamem-me mariquinhas, mas ler estas coisas num livro que tenho nas mãos causa-me arrepios no corpo. E é por isso que a Literatura será sempre a mais nobre de todas as Artes, em especial quando se toca a genialidade com palavras tão simples.
E a carga emotiva da história continua, à medida que nos apercebemos que se aproxima “aquele momento”. Todos conhecemos o mapa de Itália, e sabemos que um exército de milhares de escravos não tem para onde fugir. A perseguição das legiões de Roma é lenta, mas inexorável. O resultado final adivinha-se facilmente. Deverão ter sido semanas terríveis, aquelas vividas no Sul da Itália perante “the might of Rome”. Aquele nome de colosso que tudo esmaga no seu caminho. E a história intensifica-se. Queremos mudá-la. Não queremos que acabe assim. Não queremos que Crasso e Pompeu tenham sucesso. Mas Espártaco sabe que o vão ter. Que já não há mais para onde fugir.
«Espártaco abraçou Apolónia, depois estreitou-nos um a um contra o peito. – Que a minha vida, a nossa revolta façam parte de um livro, como aconteceu à vida do povo judeu e à do povo grego.»
Vários livros, um filme, uma série de televisão, e inúmeras outras coisas. A história de Espártaco é daquelas que nunca morrerão. O final do livro é sufocante, sempre em crescendo, num ritmo agonizante, palpitante, avassalador. Como é que um livro que começa tão merdosamente termina neste nível? Socorro, mãezinha, manda os homens maus embora. Ajuda os revoltosos a fugir, ajuda-os a escapar, não os deixes ser apanhados.
Suspiro.
Não há muitos livros assim.
Mentira, felizmente há!
E é tão bom um livro fazer-nos sentir assim. Aquele desespero, o sufoco de ver as peças a moverem-se no tabuleiro, e nós, impávidos leitores, incapazes de alterar a história.
E pronto, pela quantidade de citações que aqui coloquei julgo que deu para perceber que devo ter gostado do livro. Falando de citações, deixo aqui mais uma, apenas pelo interesse da ligação histórica à Grã Pátria Lusa.
«Teria de prevenir o Senado dos perigos que ameaçavam Roma e, portanto, a república. As legiões de Pompeu, que tinham vencido em Espanha os exércitos rebeldes de Sertório, e que estavam de regresso, teriam de se empenhar na perseguição de Espártaco.»
Como recomendação final, para quem gosta de História, procurem saber o que Crasso fez aos escravos revoltosos após a morte de Espártaco. E quando souberem, vejam qual é a distância entre Roma e Cápua…

P.S. O segundo livro da colecção tem por título “Nero – O Reinado do Anticristo”.
P.P.S. Sim. É óbvio que sim…

Espártaco – A Revolta dos Escravos, Max Gallo, Edições ASA, 2007


quarta-feira, 5 de Março de 2014

Pompeia




Pompeia. Todos conhecemos a sua história. Bom, todos menos os gajos envolvidos na criação deste filme, pois aparentemente esses acham que a história de Pompeia é a história do filme “Gladiador”, mas com um vulcão lá pelo meio.
O realizador, Paul W. S. Anderson, é conhecido por ser o responsável pelos filmes da saga “Resident Evil”. Acreditem quando vos digo que isso não é uma boa razão para se ser conhecido, porque esses filmes estão entre o que pior se faz no cinema. Tendo em conta este curriculum invejável, não fui ver o filme com as expectativas muito elevadas. Este filme consegue ser o exemplo perfeito de tudo o que está mal com o cinema de hoje-em-dia (Michael Bay, estás-me a ouvir?).
Comecemos pelo protagonista. É o Jon Snow, do Game of Thrones, também conhecido por Kit Harington. E basicamente é isso… Ele faz de Jon Snow, mas no meio de Romanos. Até acredito que a culpa não seja do rapaz. Quase aposto que foram ter com ele e lhe disseram “olha, é para fazeres de Jon Snow, ok?”. E pronto, ele fê-lo na perfeição. Exactamente a mesma voz cavernosa, o mesmo olhar de cachorrinho mimado, e o mesmo cabelo! Mas eu aqui vou perder alguns minutos para elogiar o cabelo do rapaz. A sério, vale a pena. Não me recordo, em toda a minha vida de cinéfilo, de ver um cabelo com maior protagonismo do que o próprio protagonista. É uma maravilha. O moço é um escravo, tratado abaixo de cão e à chicotada, e tem o cabelo mais bonito e arranjado do que as nobres damas Romanas. O moço leva porrada que se farta na arena, vai ao chão enquanto lhe esmurram as trombas, e logo de seguida levanta-se com o cabelo perfeitamente arranjado e sem um grão de areia. Não há um fio de cabelo fora do sítio. Melhor, quando começa a erupção, é cinza e calhaus a cair por todo o lado, e o cabelo do Sr. Snow permanece mais limpo do que num anúncio da Linic. Até a giraça que se apaixona por ele vê os seus longos e sedosos cabelos a ficarem cheios de cinza, enxovalhados, cheios de caca, enquanto o cabelo do seu apaixonado permanece protegido por um escudo invisível que nem a Enterprise do Capitão Kirk consegue ter.
Mas vamos à história. Vou presumir que toda a gente viu o “Gladiador” do Ridley Scott (caso contrário, não sei o que andaram a fazer com as vossas vidas nos últimos 14 anos). Pois bem, então vejam lá se isto vos é vagamente familiar... Há um gajo que é feito escravo e levado para uma escola de gladiadores. Hummm, onde é que eu já vi este filme… Enquanto gladiador, está sempre de trombas, e quando entra na arena mata tudo o que lhe põem à frente em menos de trinta segundos sem a mínima expressão facial. Hummm, onde é que eu já vi este filme… Na escola de gladiadores, faz amizade com outro escravo-gladiador, que por acaso é africano e a quem os Romanos mataram a família. Hummm, onde é que eu já vi este filme… A dada altura, são levados para a arena, onde é encenada uma grande vitória das legiões Romanas contra um qualquer inimigo revoltoso. Os escravos-gladiadores, com armas inferiores, e contra trinta vezes mais gajos, conseguem vencer os adversários. Hummm, onde é que eu já vi este filme… O antagonista, perante o resultado, comenta “Não é assim que eu me recordo desta história...” Hummm, onde é que eu já vi este filme… BOOOM! Explodiu um vulcão! Ah, pronto, então assim já não é uma cópia descarada do Gladiador!
E sabem qual é a parte mais engraçada? A parte boa do filme é aquela que se limita a copiar o Gladiador. Daí para a frente é o “Armageddon” do tal Michael Bay de quem eu tanto gosto… Só que ainda mais estúpido! Eu não sei o que esta malta de Hollywood toma ao pequeno-almoço, mas claramente têm alguma dificuldade em perceber o conceito de “exagerar até à estupidez”. Como se a erupção de um vulcão não fosse uma coisa suficientemente “bombástica”, toca de mandar em simultâneo um tsunami contra a cidade, no preciso momento em que as pessoas estão a fugir para as docas para tentar apanhar um navio. E esse tsunami que varre a cidade é tão “especial” que até conduz uma trirreme a direito pela rua principal da cidade. Woohoo! Muita fixe! Mas, esperem, temos que tornar isto ainda mais épico! E que tal fazermos um dos vários calhauzorros expelidos pelo Vesúvio acertar em cheio no meio de um dos navios que conseguiu sair das docas a tempo, e que – SÓ POR ACASO – leva no seu interior uma das personagens secundárias do filme? Mais! Mais! Queremos mais! Ok, ok, tive outra ideia brutal! BruuuuuuTAL! Então e que tal: estão a ver a tal giraça nobre Romana? Então, ela tem uma escrava que é, tipo, assim, prútantos, tipo, buéda amiga dela, e no momento em que o herói vai, tipo, salvar a giraça, o penhasco onde se situa a villa em que habitam desaba, arrastando metade da casa consigo, e pelo meio a escrava é engolida? Mas, tipo, a casa só desaba até ao sítio onde estão o herói e a amada. Aí nesse sítio há uma “razão de força maior” para parar o desabamento. Não é uma ideia muita fixe? Claro que é!
Que sorte tiveram os Romanos de não terem descoberto o Urânio enriquecido em 79 DC, caso contrário está-se mesmo a ver que o reactor nuclear que se situava mesmo por baixo da arena dos gladiadores começava a ter uma fuga naquele preciso momento. Bem, mas assim ao menos tínhamos a sorte de aparecer o Godzilla na Baía de Nápoles, e isso era muita fixe, porque depois o gajo começava a dar cabo das trirremes todas, e a matar as pessoas, e… Ah, não, espera, isso depois era copiar o Pacific Rim, e isso assim já não podia ser. Vá, pessoal, guardem lá o Godzilla para o próximo Transformers. Raios, ia ficar tão fixe um Godzillus Imperatus…
Creio já ter dado uma boa ideia do que é o filme… É pena, mas a “cultura da estupidificação de massas” é nisto que se traduz. A banalização de praticamente tudo acaba por destruir toda e qualquer coisa. Ainda mais pena é porque tanto Emily Browning como Kiefer Sutherland têm desempenhos muito bons. O “Senhor 24” é um actor fabuloso (digo-o há anos), e dá-se inclusive ao luxo de procurar fazer um trejeito vocal na personagem, dando-lhe uma pronúncia com um toque muito subtil (fez-me recordar a personagem dele no Dark City, de 1997, onde faz algo semelhante).
Não há muito mais a dizer do filme. É “cinema espectáculo” de má qualidade, com escrita medíocre, realização medíocre, clichés medíocres, e onde o melhorzinho até é a banda sonora (difícil de distinguir no meio de tanta banhada), de Clinton Shorter (não conheço), que merecerá da minha parte alguma atenção quando tiver oportunidade, em particular as peças corais que me ficaram no ouvido.
Em suma: o WS Anderson e o Michael Bay podem ir os dois fazer filmes apocalípticos para o lado negro da lua, porque já paravam de chatear a malta.

Pelo Melhor:
O cabelo do Jon Snow. Acreditem em mim. Nem os efeitos especiais do Gravidade conseguem fazer aquilo. Acho que devíamos começar uma campanha para o cabelo do moço ser nomeado ao Oscar para “best actor in a supporting role”.

Pelo Pior:
A banalização da cultura de merda. Assim, dito sem papas na língua. Quando existe tecnologia capaz de fazer planos aéreos deslumbrantes de uma cidade dos tempos áureos do Império, quando existem bons actores, quando existem todos os meios possíveis e imaginários para se criar cinema de qualidade, porquê, porquê, porquê, porquê insistir em fazer coisas tão medíocres? Chega ao ridículo de uma das personagens citar o tão famoso “Why so serious?”, só para “ter piada”. Que tristeza se tornou este século XXI que promove ad nauseum toda esta cultura banal do mastiga-deita-fora…