segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Interstellar


Cada vez que Christopher Nolan anuncia o lançamento do seu próximo filme o mundo parece ficar, momentaneamente, em suspenso. Não é para menos, Nolan é o génio cinematográfico que nos anos mais recentes nos fez chegar filmes memoráveis como The Dark Knight (2008) e Inception. Portanto, é normal que o mundo pare, escute, e olhe.
Eu estava de relações cortadas com Nolan desde 2012, por causa do inenarrável The Dark Knight Rises, e portanto este Interstellar apresentava-se como o filme em que ele tinha que se superar, e fazer-me esquecer aquele trágico acidente ferroviário.
Antes de começar a falar de Interstellar é necessário deixar bem claro que sempre que escrevo alguma coisa neste blogue faço-o de acordo com a minha opinião que procuro sustentar da forma mais objectiva possível, nunca me deixando seduzir pela “onda colectiva”. E é por isso que a “onda colectiva” bem pode continuar a berrar que o famigerado filme de 2012 supramencionado é o best movie ever, que eu continuarei a chamar-lhe um belo pedaço de caca wookie.
Mas, para permitir desde já desanuviar o ar, e uma vez que já sofri ameaças à minha integridade física (feitas com piratas-ninja-wizards, entre outras) para a eventualidade de dizer menos bem do filme, começo já por dizer: Interstellar é um GRANDE filme! Pronto, respirem fundo. Está dito. Mas – há sempre um “mas”, e o diabo está nos detalhes – não subscrevo de forma alguma que este seja um dos melhores filmes de todos os tempos, uma obra-prima absoluta, e mais o sem-fim de qualificações que a “onda colectiva” quer fazer passar como verdade indiscutível a todo o custo.
Todos os filmes do brilhante Nolan têm um ponto em comum: são emocionalmente fortíssimos, e fazem-nos pensar para lá das linhas de orientação. E conseguem esta proeza no meio de um espectáculo visual e tecnológico que deixa qualquer espectador embevecido. E Interstellar é precisamente isso, um colosso emocional que nos põe durante mais de duas horas e meia a pensar numa série de coisas. E é precisamente neste ponto que eu começo a divergir da “onda colectiva”. Todas as opiniões que por aí grassam dão a entender que a primeira parte do filme – aquela que se passa na Terra, maioritariamente na quinta de Cooper – é uma seca, e que o filme fica fabuloso a partir do momento em que entram no Espaço. Discordo, em grau superlativo absoluto sintético. Toda a primeira parte do filme é o que me prende a atenção. É onde está a história, a emoção, a força e a fraqueza humanas. E boa parte deve-se a uma personagem a quem a “onda colectiva” nem prestou qualquer atenção: o avô, interpretado por John Lithgow.
Nolan tem por hábito abordar nas suas obras temas muito actuais. A praga que parece ser responsável pela devastação das colheitas no planeta é uma referência subtil às alterações climáticas. Mas até nem é a mais importante. Há diálogos que passam despercebidos, e que são maravilhosos. Quando o avô refere que no seu tempo éramos “6 biliões de pessoas, todas a quererem ter direito à mais recente engenhoca que surgia todos os anos”, é uma crítica directa ao nosso consumismo acéfalo e estúpido. Não adianta olhar para o lado. Somos todos igualmente culpados. A forma como o avô “repreende” o genro, quando este parece não querer dar tanta atenção aos filhos como a que é necessária, e a fabulosa deixa “it’s a parents-teachers meeting, not grandparents”. Até mesmo o momento humorístico “I want a hotdog!”. Lithgow é marcante, e um dos actores mais subavaliados de Hollywood. Tudo junto, está menos de cinco minutos em cena, e é para mim a personagem mais memorável.
A cena com mais significado do filme é a reunião de Cooper na escola. O debate entre ensino e ciência versus estupidez é arrebatador.
Ainda na “primeira parte de seca”, temos a extraordinária relação entre pai e filha, com Mathew McConaughey e a jovem Mackenzie Foy a terem ambos prestações – essas sim! – para lá das estrelas. Raras vezes um duo pai-filha foi tão convincente no ecrã. Que lição de actuação! Que delícia… É pena que dure tão pouco tempo, porque depois disto parece não haver actores no resto do filme. Anne Hataway, Michael Caine, Jessica Chastain, e todos os restantes, parecem eclipsar-se durante duas horas. O próprio McConaughey, quando afastado dos filhos, apaga-se um pouco. Há apenas uma breve excepção, graças à personagem de Matt Damon, que embora do ponto de vista de interpretação seja “Matt Damon a fazer de Matt Damon”, em termos de dimensão e interesse da personagem é algo que abana um bocado a história.
E com isto entramos na escala épica do filme. Com a ambição desmesurada de ser uma história avassaladora que nos faz olhar para a Humanidade e para o Universo. É aqui que eu acho que o filme não cumpre a 100%, e que me fez sair da sala de cinema a dizer “foi bom, mas faltou aqui qualquer coisa”.
O duelo entre ciência e emoção é muitas vezes o que nos põe a salivar durante o filme. Mas há alturas em que fica a sensação que se entrou um modo “vamos pegar na Teoria da Relatividade de Einstein e martelar aqui qualquer coisa”. Do ponto de vista científico, ao que tudo indica o filme é bastante bem sustentado, tendo sido inclusivamente desenvolvido tendo como consultor um dos grandes Físicos teóricos da actualidade (e não estou a falar do Sheldon Cooper). E é precisamente essa razão que me faz ficar ainda mais desagradado quando, sem mais nem menos, querem aludir ao Amor como uma espécie de variável física para integrar numa equação. Juntar a Lei da Gravidade e o Amor como X+Y = Z é uma parolice tremenda. Eu até salivo por filmes fortemente emocionais, mas não é necessário entrarmos na parvoíce saloia do “e o Amor triunfará sobre tudo e todos”. Aquele momento em que uma das mais brilhantes cientistas do mundo decide ignorar todos os dados científicos de que dispõem, e justificar o injustificável apenas porque “o Amor é uma coisa linda, verdadeira, e tem que ser encarada como algo tão racional como a Força da Gravidade”… danifica o filme. Tornar subitamente uma ode à Humanidade numa espiritualidade de trazer por casa é manifestamente infeliz. É um daqueles momentos como a pirueta da mota no The Dark Knight (2008). É uma carta fora do baralho, que não estraga o filme, mas risca-lhe a pintura.
Há pelo meio algumas incongruências, como o facto de quando eles partem da Terra “o milho estar a morrer”, mas 23 anos depois continuam a ter hectares de milho a perder de vista, ou o facto de Michael Caine com 70 anos ser exactamente igual a Michael Caine com 93, com o mesmo cabelo, a mesma barba, e até a mesma roupa. Olhem que eu tenho o privilégio de conhecer algumas pessoas com mais de 90 anos, e quem lhes dera parecer o que eram aos 70.
Mas, enfim, são coisas mínimas e que não beliscam verdadeiramente o filme. Embora eu questione seriamente a necessidade omnipresente do “americanismo primário”, com a bandeirinha espetada no planeta XPTO-423. Portanto, a Humanidade está à beira da extinção, vamos enviar uma série de astronautas in extremis para outra galáxia nas missões Lazarus, essas pessoas vão provavelmente morrer abandonadas e sós num planeta alienígena, mas quando lá chegam os astronautas que se seguem, eis a bandeira americana firme e hirta a flutuar ao vento. Ainda bem que a missão do desespero final foi pensada tendo em conta as coisas absolutamente essenciais para a sobrevivência humana.
Resta-nos a parte final, quando o filme tenta entrar no modo “2001: Uma Odisseia no Espaço”, e aí é que a porca torce o rabo… Interstellar bem pode ser entendido como uma homenagem a 2001, mas está a anos-Luz de qualquer comparação possível. 2001 é um marco cinematográfico, Humano, filosófico, artístico, criativo. Interstellar é apenas um filme muito bom. Não confundamos o trigo com o joio. Qualquer discussão sobre cinema começará sempre com “Para além do 2001: Uma Odisseia no Espaço, que outros 9 filmes se incluem na lista dos 10 melhores filmes da História”? A meu ver, Interstellar não faz parte dessa lista. Visualmente é muito forte, mas não me parece superar um Gravity ou um Prometheus. Em termos narrativos é muito bom, mas não alcança um Cloud Atlas. Ao nível das interpretações, não chega sequer a um Inception. É um filme muito bom, mas a sua excepcionalidade está, curiosamente, apenas na ligação com a comunidade científica e com a capacidade de ter ajudado a ciência a representar o que poderá ser o efeito de um buraco negro (link). Tem um bom argumento, e não lhe falta o toque artístico de ter dado a conhecer ao mundo o magnífico Do not go gentle into that good night (link). Mas, no fim, falta-lhe sempre qualquer coisa para ser “aquela obra avassaladora”.
Excepto, lá está, quando se fala de Hans Zimmer. Creio já ter esgotado todas as palavras do léxico Português para qualificar o génio deste homem. Metade da grandiosidade do filme deve-se ao esmagador tema tocado no órgão de uma igreja de Londres do século XII (link). A música de Interstellar é, essa sim, uma ode ao génio humano. Já não vale a pena falar sobre Hans Zimmer. Limito-me a constatar o privilégio que é habitar este planeta no mesmo tempo que este homem. Tal como foi um privilégio para as pessoas que tomaram conhecimento das obras de Beethoven em primeira mão. Zimmer é o artista que sucessivamente se transcende a si próprio. Desde os tempos de Johann Sebastian Bach que ninguém tocava um órgão desta maneira. É arrepiante, leva-nos às lágrimas com o coração a estoirar no peito num choque convulsivo que nos asfixia. Deve ser constrangedor para os restantes compositores contemporâneos limitarem-se a apanhar as notas que Zimmer deixa cair ao chão. Já só responde perante Wagner ou Beethoven. Nada mais existe. Quando a música desperta, o filme torna-se irrelevante, um mero adereço. Zimmer é Gargantua, reduz à insignificância tudo o que o rodeia. Nem a própria Luz, a própria Física, o próprio Universo se conseguem impor ante Hans Zimmer.
A própria música é uma homenagem de Zimmer a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Ouçam o Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (que curiosamente ficou conhecida para a posterioridade como a música do 2001, Uma Odisseia no Espaço), e depois ouçam o Place Among the Stars. A dimensão epopeica é rigorosamente a mesma.
Julgo nada mais ter a dizer sobre Interstellar. É um grande filme, vão ver, vale bem o preço do bilhete. Tem diálogos verdadeiramente inspiradores, tem “alma própria”, tem arrojo, é a dicotomia Nolan levada ao extremo. Admito poder estar a ser excessivamente exigente com Nolan, mas faço-o precisamente por saber que é um dos poucos cineastas a quem se pode exigir para além do exigível.
Mas tenhamos noção das coisas, e não classifiquemos tudo e mais alguma coisa como “obra-prima sem precedentes”. Fazendo uma alusão directa ao filme, Interstellar correspondeu-me às expectativas em 75%. Com os restantes 25 dou por mim a pensar: daqui por dois anos é mais provável estar a ver 2001: Uma Odisseia no Espaço pela 25ª vez, do que Interstellar pela segunda.

Pelo Melhor

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Pelo Pior
Nada há de verdadeiramente mau neste filme. Há apenas aquela “carta fora do baralho” de, sem razão aparente, desligar o “modo científico” e tentar introduzir de supetão “o Amor é a força mai’ linda forever and ever”. Totalmente desprovido de sentido.

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

100 Posts… E Uma Gata Telma!



Por aqui tenho falado de livros, de cinema, e de música. Também tenho falado de gatos vadios, super-heróis, de História e histórias. Quando há três anos e meio tive a disparatada ideia de fazer um blogue, não sabia se iria ser uma parvoeira que ao fim de seis meses passava com antibiótico, ou se seria algo que levaria a sério, com dedicação e entusiasmo. Fiquei pelo meio, e sem dar por isso eis que chegamos ao centésimo post.
E como estas alturas são para celebrar, não há melhor forma de o fazer do que partilhando uma foto do “Telminho original”, um dos maiores sucessos deste blogue!


Pois é, diga-se o que se disser, a malta quer é gatos! Qual falar da música do Hans Zimmer, ou dos livros do Pérez-Reverte, ou do último filme do Peter Jackson! O pessoalzinho ouve falar de gatos e vem a correr. E assim, como pessoa simpática que sou, trago-vos uma foto do Telminho já crescido, o gato mais lindo do mundo e arredores, possuidor das sobrancelhas mais épicas de todos os tempos, e com uns bigodes capazes de fazer corar Nietzsche, filho da mítica Gata Telma.
Bom, mas sendo eu uma pessoa muy honesta (e só digo isto sem me rir porque o estou a escrever e ninguém consegue ver a minha cara), tenho que reconhecer que um dos gostos de dedicar algum tempo a este blogue é constatar que a maioria dos artigos mais visitados são aqueles que dedico a falar de livros. E é com especial satisfação que vejo que entre os três artigos mais vistos se mantém um sobre um livro de uma autora portuguesa. Só por isso, este blogue já tem razão de ter existido.
Confesso que a paciência para escrever é geralmente pouca. A preguiça é uma coisa tramada… Quantos e quantos artigos ficaram “escritos na minha cabeça”, e nunca chegaram a passar para o papel… Mas, felizmente, nas várias vezes em que decidi bah, não vale a pena continuar a escrever aquela tralha, surgia sempre alguém que, sem o saber, dizia olha, gostei de ler aquilo que escreveste sobre X (mesmo que esse X fossem os tão famosos robots gigantes à porrada com dinossauros).
Fazendo um exercício por puro entretenimento, organizando os artigos por categoria, os que tiveram maior sucesso (maior número de pageviews), foram:
Dito isto, brindo a todos os tipos porreiraços erguendo a minha pint de Guinness, esperando que se sigam mais 100 posts onde pelo menos um ou dois não sejam uma tremenda idiotice, e como sou extremamente generoso deixo-vos – como não podia deixar de ser! – com mais uma foto da gata vadia mais sexy da Margem Sul.

terça-feira, 30 de Setembro de 2014

O Assassino Inglês, de Daniel Silva


Uma imagem impressionante: um belo jovem em semiperfil, iluminado de forma sensual. Gabriel calculou que tivesse sido pintado enquanto Rafael vivia e trabalhava em Florença, provavelmente entre 1504 e 1508. O que acontecera ao velho tinha sido uma pena. Teria sido um prazer restaurar um quadro daqueles.
Regressou ao átrio de entrada, parou e olhou para baixo. Tinha deixado marcas de sangue ao longo do chão de mármore.

Eu não gosto de livros policiais ou de espionagem. Esta é, seguramente, a melhor frase possível de utilizar quando se pretende escrever um artigo de opinião sobre um livro de assassinos e espiões. Mas, alas, é mesmo assim. Exceptuando as obras de Agatha Christie ou de Conan Doyle, sempre que me falam em “histórias de crime e investigação” eu respondo com um bocejo.
Portanto, não sei bem o que estou a fazer ao escrever um artigo sobre um livro de Daniel Silva, mas alguma coisa daqui há-de sair.
A personagem central de “O Assassino Inglês” é Gabriel Allon, um talentoso restaurador de obras de arte que é contratado para recuperar – nada menos que – um Rafael (sim, o das Tartarugas Ninja). Acontece, meramente, que Gabriel é um operativo dos Serviços Secretos Israelitas, e quando chega a casa do dono do quadro encontra-o morto. A partir daqui, ladies and gentlemen, é apertar o cinto, porque o livro vai ser mesmo bom!
A história desenrola-se entre três países: Suíça, Itália, e o nosso Portugal. E logo aqui salta à vista a qualidade de escritor de Daniel Silva. Cada um dos países, e respectivos povos, é magistralmente ilustrado pelas palavras do autor. O ambiente que ele consegue criar em cada uma das zonas é delicioso. Os italianos são aqueles tipos estereotipadamente mafiosos, muito ligados às tradições, à família, à terra. Os portugueses são os santinhos simpáticos, altamente coscuvilheiros, sempre disponíveis para dar um sorriso aos estrangeiros (aqui captou-nos na perfeição). E depois temos os suíços. Eu não gostava de ser suíço e ler este livro…
Toda a acção do livro é desenvolvida em redor do roubo de objectos de arte pelos nazis, da colaboração silenciosa por parte da Suíça, e do papel que os bancos suíços tiveram nesta história que (verdadeiramente) nunca foi contada até ao fim. Alguns pormenores do livro dão a sensação que o autor o escreveu como uma espécie de “ajuste de contas com a História”. A forma como ele descreve o papel cínico do povo suíço e a sua ausência de ética em redor do tema chega a ser sufocante.
Daniel Silva é um escritor fabuloso, e provavelmente um dos melhores do género (embora, honestamente, eu não seja propriamente entendido na matéria para o poder afirmar). A escrita do homem é viciante, e a forma como acaba cada capítulo com um cliffhanger (qual é a palavra portuguesa para isto?) é aterrorizadora.
Não é possível escrever sobre um livro destes sem fazer spoilers (novamente, alguém que me arranje uma palavra em português…). A acção é extraordinariamente bem temporizada, raramente entrando em excessos, e nunca reduzindo o livro a uma banal história de “vamos lá falar novamente de nazis”. Nada disso. Todo o elenco é inteligentemente inserido na história, dando-lhe uma dimensão muito forte e apaixonante. Tirando o final demasiado “James Bondesco” para o meu gosto, a história é inteligente, surpreendentemente culta, chegando quase a parecer uma grande reportagem de um jornal de referência, onde polícias e criminosos são meros adornos. Evitando resvalar para o excesso literário, e intercalando a “alta espionagem” com os problemas pessoais de alguns dos intervenientes, poucas coisas sabem tanto a um murro no estômago no encontro com a realidade como quando lemos o segundo “Como é que foi Berna?”
Fico, não obstante, com a sensação que este livro foi escrito “para ser adaptado ao cinema”. Há capítulos inteiros que tresandam a tal. A boa escrita alternada com algumas sequências quase-estapafúrdias de “vamos lá começar a explodir com tudo” cheira mesmo a Silva a acenar com o guião a algum produtor interessado de Hollywood. Algumas das piores partes do livro são precisamente essas que parecem tiradas de um filme. Mas como são poucas não chegam para estragar a história.
Não creio que me vá tornar subitamente um fã de policiais/espionagem, mas também não creio que este seja o último livro de Daniel Silva que vou ler…

Para terminar, por norma gosto de complementar os meus artigos aqui no blogue com “informação de interesse” adicional. Voltando ao tema do livro, pesquisei um pouco mais por esse universo infinito que é a internet, e descobri que existem inúmeros movimentos que procuram precisamente ir ao encontro das muitas obras de arte roubadas pelos nazis. Para termos uma ideia da dimensão da espoliação bastará este excerto: Out of 600,000 works of art looted during the Nazi era from 1933 to 1945, an estimated 100,000 are still missing, misidentified or misappropriated.(Fonte: link)
Inclusive, há uma base de dados internacional onde é possível consultar os detalhes relativos às obras desaparecidas.
E, para termos ideia do quão certeiro (não-ficcionado) é o tema abordado no livro de Daniel Silva, O Assassino Inglês foi escrito em 2002; veja-se esta notícia do Der Spiegel publicada em 2007: link Der Spiegel.


segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

71 – Setenta e Um

EUFORIA! O PAULO BENTO FOI DEMITIDO! Não se assistia a tamanho êxtase em Portugal desde que o Mestre de Avis foi proclamado rei nas Cortes de Coimbra em 1385. O Facebook foi inundado por uma catadupa de comentários, e as próprias televisões nacionais dedicaram a notícia de abertura a tão marcante feito na História de Portugal. Algumas dedicaram mais de 10 minutos da abertura, trouxeram comentadores em directo para se pronunciarem sobre o acontecimento, e prontamente anunciaram emissões especiais nos canais por cabo, recheadas de painéis de comentadores, porque nestas ocasiões é sempre importante ter pessoas de referência que vão à televisão dizer umas coisas.
Como não podia deixar de ser, o ex-Seleccionador teve direito à sua indemnização. Ainda se falou em 3 milhões de Euros, mas parece que ele até foi um gajo porreiro e se ficou por 1/3 desse valor.
E é precisamente a partir deste ponto que surge este artigo, para os meus estimados amigos tresloucados com demasiado tempo livre, e boa vontade para ler as deambulações que por aqui volta e meia escrevo. Pensemos então num trabalhador acima da média estatística. Vamos dizer, para efeitos de exercício pedagógico, que ele ganha mensalmente 1.000 Euros. Até é um ordenado bastante acima da média do que se ganha em Portugal. Feitas as contas, ao final do ano, com direito a subsídio de férias e de Natal, o trabalhador em questão leva para casa 14.000 Euros. Na realidade é mentira, porque entre 10 a 20% deste valor desaparece em impostos. Mas, novamente, no espírito meramente académico deste exercício, vamos considerar – utopicamente – que todo o dinheiro ganho vai para a conta do trabalhador.
Mais. Vamos viciar as variáveis desta equação, e assumir que ele se mantém empregado toda a vida, e nunca leva cortes no salário, nem nada que se pareça. Ao fim de 10 anos amealhou 140.000 Euros. Se ponderarmos, em média, uma carreira contributiva de 45 anos de trabalho, o afortunado trabalhador, que passou a vida inteira a trabalhar das 9 às 18, conseguiu a proeza de receber 630.000 Euros pela sua vida inteira de trabalho. Estará velhote, perto dos 70 anos, mas trabalhou durante 45 anos para juntar 630.000 Euros. Para chegar ao valor da indemnização de despedimento do ex-Seleccionador teria que ter trabalhado mais de 71 anos (mais do que aqueles que tem de vida), e com todos os pressupostos fiscais e laborais “ligeiramente irrealistas” que defini para este exercício.
RESUMO DO EXERCÍCIO: o ex-Seleccionador assinou um papel no dia 11 de Setembro de 2014 e recebeu o equivalente a 71 anos de trabalho de um comum cidadão Português, que recebesse 1.000 Euros e não pagasse quaisquer impostos.
Portanto, chegamos ao número mágico que dá título a este artigo: 71. E é neste número que gostaria que ficassem a pensar se tiverem paciência de ler isto até ao fim. Acima de tudo, pensem neste número da próxima vez que pensarem em futebol, ou ficarem indignados porque “estes tipos não jogam nada”, ou provocarem os vossos amigos porque “hehehehe, a lagartada voltou a levar nas trombas”, ou porque “os lampiões perderam mais uma final qualquer”. Este é um número que convém ficar presente de todas as vezes que nos debruçarmos sobre o mundo do futebol. O mundo que é composto por tipos que recebem astronomicamente mais do que os valores que serviram de base a este nosso exerciciozinho para passarem o tempo a dar uns pontapés na bola. Sim, são uns pontapés bonitos. Eu também gosto de futebol (gostava?). E fazem-no em hotéis de cinco estrelas, com SPA, piscinas de luxo, comidinha da boa, com direito a prémios de jogo e mais um sem-fim de mordomias. Enquanto isso, “no mundo real”, uma legião de gente silenciosa estudou anos a fio, levanta-se às 6 ou 7 da manhã para ir trabalhar um dia inteiro, andou na faculdade a pagar para estudar, muitas vezes com sacrifício dos pais, e depois chega a casa e fica em frente à TV a ouvir os comentadores dos programas desportivos a dizer “pobrezinho do Zé, está em baixo de forma, não se pode exigir mais ao jogador…”
Já muitos amigos argumentaram comigo: “Ora, não sejas assim, porque aquilo exige muito trabalho e muito treino!”. OK, o que eu faço também exigiu muito trabalho e muito treino, e até hoje não vi os meus chefes a pagarem-me um hotel de cinco estrelas para o fazer. O meu local de trabalho não é propriamente um centro de estágios com SPA e salões para jogar snooker e Playstation. Vê-se nos rostos dos jogadores o “esforço” do seu árduo trabalho cada vez que há reportagens que filmam os treinos. Os seus rostos estão tristes e cabisbaixos, cansados, exauridos… Depois olho para os rostos das pessoas do mundo real, que às 8 da manhã estão a apanhar o metro em Entrecampos. São parecidos…
“Ora, não sejas assim, o futebol também é cultura!”. Humm… eu aqui invocaria alguma “objecção de consciência”, mas, novamente, para efeitos democráticos do presente exercício, vamos dizer que sim. Não tenho a certeza que alguma federação tenha pago ao José Luís Peixoto uma estadia num hotel de luxo enquanto ele escreveu o seu último livro. E também desconfio que o director do Museu Nacional de Arte Antiga não recebe um milhão de Euros por ano. E confesso que não estou a ver alguém a virar-se para o Saramago e dizer “olha, o teu último livro foi mau… portanto toma lá um milhão de Euros”.
“És mesmo do contra! Não vês que a Selecção é um orgulho nacional? Pensa no prestígio de Portugal!”. A sério? O “prestígio de Portugal” é ter uma dúzia de tipos aos pontapés à bola? Temos investigadores que ganham reconhecimento internacional pelas suas descobertas na área da ciência e cá dentro nem têm direito a nome, pois passam apenas numa curta entrevista já no encerramento dos jornais televisivos (Ângela Abreu, 2013, premiada pela NASA – sim, a NASA dos foguetões…). Temos escritores que lá fora vencem prémios de “melhor obra literária” (já alguém ouviu falar em Gonçalo M. Tavares?), e que o prestígio que merecem é ter direito a um programinha de TV numa estação bafienta às 2 da manhã. Temos uma diáspora de gente pelo mundo todo, que fez, faz, e fará, obras magníficas… e o “prestígio de Portugal” jaz em ganhar 1-0 à Espanha?
Percebo a paixão pelo futebol. Só não percebo é como é que as pessoas acham que algo tão banal justifica tudo e mais alguma coisa. Toda a gente se revolta contra o que ganham os deputados da Assembleia da República, e ninguém se revolta com o que ganham os futebolistas.
Ficaram curiosos com a fotografia que escolhi para ilustrar este artigo? Sabem de onde a tirei? Daqui: link.
Da próxima vez que ficarem vermelhos de raiva por qualquer coisa relacionada com o dito “desporto rei” lembrem-se do número 71.

P.S. Se estiverem numa onda particularmente sadomasoquista, e ainda tiverem a calculadora à mão, diz que o Benfica paga 4 milhões de Euros por ano ao Jorge Jesus.
Uma ajudinha: 71 x 4 = 284

P.P.S. Se estiverem MESMO numa onda sadomasoquista… o CR7 ganha 4 vezes mais do que o JJ.
Nova ajudinha: 71 x 4 x 4 = 1.136

P.P.P.S. Vemo-nos dentro de 12 séculos...