segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

71 – Setenta e Um

EUFORIA! O PAULO BENTO FOI DEMITIDO! Não se assistia a tamanho êxtase em Portugal desde que o Mestre de Avis foi proclamado rei nas Cortes de Coimbra em 1385. O Facebook foi inundado por uma catadupa de comentários, e as próprias televisões nacionais dedicaram a notícia de abertura a tão marcante feito na História de Portugal. Algumas dedicaram mais de 10 minutos da abertura, trouxeram comentadores em directo para se pronunciarem sobre o acontecimento, e prontamente anunciaram emissões especiais nos canais por cabo, recheadas de painéis de comentadores, porque nestas ocasiões é sempre importante ter pessoas de referência que vão à televisão dizer umas coisas.
Como não podia deixar de ser, o ex-Seleccionador teve direito à sua indemnização. Ainda se falou em 3 milhões de Euros, mas parece que ele até foi um gajo porreiro e se ficou por 1/3 desse valor.
E é precisamente a partir deste ponto que surge este artigo, para os meus estimados amigos tresloucados com demasiado tempo livre, e boa vontade para ler as deambulações que por aqui volta e meia escrevo. Pensemos então num trabalhador acima da média estatística. Vamos dizer, para efeitos de exercício pedagógico, que ele ganha mensalmente 1.000 Euros. Até é um ordenado bastante acima da média do que se ganha em Portugal. Feitas as contas, ao final do ano, com direito a subsídio de férias e de Natal, o trabalhador em questão leva para casa 14.000 Euros. Na realidade é mentira, porque entre 10 a 20% deste valor desaparece em impostos. Mas, novamente, no espírito meramente académico deste exercício, vamos considerar – utopicamente – que todo o dinheiro ganho vai para a conta do trabalhador.
Mais. Vamos viciar as variáveis desta equação, e assumir que ele se mantém empregado toda a vida, e nunca leva cortes no salário, nem nada que se pareça. Ao fim de 10 anos amealhou 140.000 Euros. Se ponderarmos, em média, uma carreira contributiva de 45 anos de trabalho, o afortunado trabalhador, que passou a vida inteira a trabalhar das 9 às 18, conseguiu a proeza de receber 630.000 Euros pela sua vida inteira de trabalho. Estará velhote, perto dos 70 anos, mas trabalhou durante 45 anos para juntar 630.000 Euros. Para chegar ao valor da indemnização de despedimento do ex-Seleccionador teria que ter trabalhado mais de 71 anos (mais do que aqueles que tem de vida), e com todos os pressupostos fiscais e laborais “ligeiramente irrealistas” que defini para este exercício.
RESUMO DO EXERCÍCIO: o ex-Seleccionador assinou um papel no dia 11 de Setembro de 2014 e recebeu o equivalente a 71 anos de trabalho de um comum cidadão Português, que recebesse 1.000 Euros e não pagasse quaisquer impostos.
Portanto, chegamos ao número mágico que dá título a este artigo: 71. E é neste número que gostaria que ficassem a pensar se tiverem paciência de ler isto até ao fim. Acima de tudo, pensem neste número da próxima vez que pensarem em futebol, ou ficarem indignados porque “estes tipos não jogam nada”, ou provocarem os vossos amigos porque “hehehehe, a lagartada voltou a levar nas trombas”, ou porque “os lampiões perderam mais uma final qualquer”. Este é um número que convém ficar presente de todas as vezes que nos debruçarmos sobre o mundo do futebol. O mundo que é composto por tipos que recebem astronomicamente mais do que os valores que serviram de base a este nosso exerciciozinho para passarem o tempo a dar uns pontapés na bola. Sim, são uns pontapés bonitos. Eu também gosto de futebol (gostava?). E fazem-no em hotéis de cinco estrelas, com SPA, piscinas de luxo, comidinha da boa, com direito a prémios de jogo e mais um sem-fim de mordomias. Enquanto isso, “no mundo real”, uma legião de gente silenciosa estudou anos a fio, levanta-se às 6 ou 7 da manhã para ir trabalhar um dia inteiro, andou na faculdade a pagar para estudar, muitas vezes com sacrifício dos pais, e depois chega a casa e fica em frente à TV a ouvir os comentadores dos programas desportivos a dizer “pobrezinho do Zé, está em baixo de forma, não se pode exigir mais ao jogador…”
Já muitos amigos argumentaram comigo: “Ora, não sejas assim, porque aquilo exige muito trabalho e muito treino!”. OK, o que eu faço também exigiu muito trabalho e muito treino, e até hoje não vi os meus chefes a pagarem-me um hotel de cinco estrelas para o fazer. O meu local de trabalho não é propriamente um centro de estágios com SPA e salões para jogar snooker e Playstation. Vê-se nos rostos dos jogadores o “esforço” do seu árduo trabalho cada vez que há reportagens que filmam os treinos. Os seus rostos estão tristes e cabisbaixos, cansados, exauridos… Depois olho para os rostos das pessoas do mundo real, que às 8 da manhã estão a apanhar o metro em Entrecampos. São parecidos…
“Ora, não sejas assim, o futebol também é cultura!”. Humm… eu aqui invocaria alguma “objecção de consciência”, mas, novamente, para efeitos democráticos do presente exercício, vamos dizer que sim. Não tenho a certeza que alguma federação tenha pago ao José Luís Peixoto uma estadia num hotel de luxo enquanto ele escreveu o seu último livro. E também desconfio que o director do Museu Nacional de Arte Antiga não recebe um milhão de Euros por ano. E confesso que não estou a ver alguém a virar-se para o Saramago e dizer “olha, o teu último livro foi mau… portanto toma lá um milhão de Euros”.
“És mesmo do contra! Não vês que a Selecção é um orgulho nacional? Pensa no prestígio de Portugal!”. A sério? O “prestígio de Portugal” é ter uma dúzia de tipos aos pontapés à bola? Temos investigadores que ganham reconhecimento internacional pelas suas descobertas na área da ciência e cá dentro nem têm direito a nome, pois passam apenas numa curta entrevista já no encerramento dos jornais televisivos (Ângela Abreu, 2013, premiada pela NASA – sim, a NASA dos foguetões…). Temos escritores que lá fora vencem prémios de “melhor obra literária” (já alguém ouviu falar em Gonçalo M. Tavares?), e que o prestígio que merecem é ter direito a um programinha de TV numa estação bafienta às 2 da manhã. Temos uma diáspora de gente pelo mundo todo, que fez, faz, e fará, obras magníficas… e o “prestígio de Portugal” jaz em ganhar 1-0 à Espanha?
Percebo a paixão pelo futebol. Só não percebo é como é que as pessoas acham que algo tão banal justifica tudo e mais alguma coisa. Toda a gente se revolta contra o que ganham os deputados da Assembleia da República, e ninguém se revolta com o que ganham os futebolistas.
Ficaram curiosos com a fotografia que escolhi para ilustrar este artigo? Sabem de onde a tirei? Daqui: link.
Da próxima vez que ficarem vermelhos de raiva por qualquer coisa relacionada com o dito “desporto rei” lembrem-se do número 71.

P.S. Se estiverem numa onda particularmente sadomasoquista, e ainda tiverem a calculadora à mão, diz que o Benfica paga 4 milhões de Euros por ano ao Jorge Jesus.
Uma ajudinha: 71 x 4 = 284

P.P.S. Se estiverem MESMO numa onda sadomasoquista… o CR7 ganha 4 vezes mais do que o JJ.
Nova ajudinha: 71 x 4 x 4 = 1.136

P.P.P.S. Vemo-nos dentro de 12 séculos...

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

“Um Estudo em Vermelho”, de Arthur Conan Doyle



John Ferrier esperava receber alguma mensagem ou admoestação da parte de Young quanto à sua conduta; e realmente recebeu-a, mas de modo imprevisto. Ao levantar-se na manhã seguinte, encontrou, com grande surpresa, um pequeno rectângulo de papel preso por um alfinete nas cobertas da sua cama, exactamente à altura do peito. Em letras de imprensa, grandes e tortas, podia ler-se:
«Restam vinte e nove dias para que te emendes, antes de…»

Uma palavra, em alemão, escrita com sangue numa parede parece ser a principal pista que o consulting detective Holmes tem para se guiar na procura do responsável por um assassinato atroz.
Um Estudo em Vermelho foi o primeiro livro que Arthur Conan Doyle escreveu sobre as aventuras daquele que viria a tornar-se o mais famoso detective de todos os tempos. É neste livro que Holmes e Watson se conhecem e iniciam a sua longa amizade e colaboração.
O detective é-nos apresentado pelos olhos do Dr. Watson como uma pessoa deveras estranha. Obcecada e ao mesmo tempo fascinante. Há uma ligeira incoerência no texto, uma vez que Watson refere-se a Sherlock como alguém sem conhecimentos de Grande Literatura, e algumas páginas à frente deparamo-nos com Sherlock a falar de Edgar Allan Poe. Não se pode dizer que seja propriamente “literatura de cordel”, mas admito que na época, e contexto, em que o livro foi escrito (1887) eu possa estar equivocado na minha leitura (provavelmente explica-se pelo interesse de Holmes em jornais de crime).
Certo é que Sherlock Holmes nos fascina desde o momento em que surge. O génio meio louco que recorre ao seu método dedutivo para juntar as peças do puzzle que escapam aos detectives banais.
Achei bastante curioso verificar que a história deste livro é quase igual à d’O Vale do Terror, do qual falei aqui há precisamente um ano (link), e que corresponde ao último livro de Sherlock. Em ambos, a chave para desvendar o crime reside numa sociedade secreta opressiva, localizada décadas antes na América. Se no outro livro as referências à Maçonaria eram subtis, neste quem arca com o papel de vilão são os Mórmones. De resto, toda a história é muito semelhante.
Não se pode dizer que seja um livro emocionante. É importante para os fãs da personagem, pois é onde tudo começa, e onde se estabelecem as premissas que deram vida à lenda. Mas, com apenas 175 páginas (edição de bolso da colecção 1117), a história acaba pouco depois de começar. Praticamente são-nos apresentadas as duas personagens principais, é descrito o cenário do crime, Holmes desvenda-o quase de imediato, e depois boa parte da acção situa-se no passado, nas raízes que levaram ao trágico desfecho.
Poderá ser uma leitura ligeira para quem não goste muito de livros complexos e “pesados”, mas para leitores mais exigentes não se pode dizer que seja obra que fique na memória.  É, no entanto, uma leitura agradável, bastante acessível, que serve de excelente companhia numa tarde de Verão (ou num dia de chuva e nevoeiro, dependendo dos gostos de cada um).

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Guardiões da Galáxia




Queria começar este artigo como uma frase que dissesse “Este filme é fabuloso! Corram a ir vê-lo!”. Já por aqui comentei que a Marvel Studios se está a tornar no maior gigante do entretenimento cinematográfico de qualidade. Portanto, voltem lá à primeira frase deste parágrafo, e sigam o conselho do mestre!
Quando há cerca de um ano surgiu o trailer deste Guardiões da Galáxia, a minha primeira reacção foi “Ooook, lá vem asneira da grossa!” Apesar de ter consumido doses industriais de comics quando era puto, nunca tinha ouvido falar destes tipos. O facto de o trailer estar povoado por criaturas multicoloridas, um guaxinim falante, e uma árvore andante, no meio de uma data de naves espaciais cheirou-me a “uma qualquer parvoíce do género Transformers, mas ainda pior”. Ainda bem que estava errado. É raro tal acontecer, mas – alas! – até THE PSY é falível.
Este filme marca definitivamente a entrada da Marvel no património intergaláctico das suas histórias. Apesar de “as estrelas da companhia” serem o Homem-Aranha, o Capitão América, os X-Men, e por aí fora, a cosmogonia da Marvel é imensa, e a maioria das suas grandes histórias dos tempos áureos está precisamente associada a esse inesgotável património.
O aparecimento da personagem Thanos na cena final de “Vingadores” já fazia antever este passo, mas uma coisa é ter a intenção, outra é concretizá-la com qualidade. E tendo em conta boa parte das “experimentações” com a overdose de ficção-científica medíocre que tem chegado ao cinema, havia todas as razões para temer o pior. Mas quem está à frente do projecto cinematográfico da Marvel é mesmo muito bom, tem o calendário muito bem estabelecido, e os filmes de qualidade sucedem-se uns aos outros.
Comecemos pela realização, que ficou entregue a James Gunn. A quem? Sim, essa também foi uma das minhas perguntas. Alguém já ouviu falar deste gajo? Nem por isso… Bom, agora é certo que não me esqueço do nome. A realização é magistral. O filme é space opera ao bom estilo de Star Wars, filmado claramente para favorecer o 3D (não, descansem, eu não fui ver o filme em 3D!), e descaradamente inspirado em J. J. Abrams. Os planos, as cores, os próprios lens flares que são a trademark de Abrams estão presentes em cada frame. E o resultado final é magnífico. O próprio J. J. Abrams que se ponha em sentido, e se esmere em 2015 com o Episódio VII da saga Star Wars, porque aqui tem concorrência à altura.
Depois temos o protagonista, Chris Pratt. Outra vez: quem? Alguém já ouviu falar deste gajo? Eu só sei que ele existe porque há dois meses vi o “Her” (parem tudo o que estão a fazer e vão vê-lo, porque é outra coisa fantabulástica). Entregar o protagonismo de um filme destes a um tipo semidesconhecido não é um risco demasiado grande? Não. Não, porque – como já referi – a equipa por detrás do projecto cinematográfico da Marvel é muito boa, e sabe muito bem o que está a fazer. Pratt adequa-se na perfeição à personagem, uma espécie de pateta bonacheirão que aparenta andar sempre aos papéis por todo o lado onde passa. É o anti-herói perfeito, muito diferente dos heróicos Capitão América e Thor, ou do cool Homem-de-Ferro.
Entenda-se que este Guardiões da Galáxia é um filme de super-heróis com comédia para adultos. Isto não é uma coisa para crianças. Aqui as personagens são bardajonas, usam piadas impróprias e fazem gestos obscenos. Todo o filme é pontuado por um extraordinário nonsense, que escapará a muitos dos espectadores que levam estes filmes demasiado a sério. Isto é entretenimento, de elevadíssima qualidade, com um argumento bastante sólido. E é divertido, com humor inteligente, sem aquelas “piadinhas fáceis para idiota perceber”. Há um diálogo brilhante em redor de um thesaurus, e referências à pintura de Pollock! Isto não é habitual num filme de super-heróis. Muitos dos diálogos são inesperadamente longos, desafiando tudo o que à edição de um filme diz respeito para quem segue as regras by the book. E isso contribui para aumentar o nonsense brilhante do filme.
Em termos musicais, os créditos ficam nas mãos do já veterano Tyler Bates, essencialmente conhecido pela sua colaboração com Zack Snyder (de onde resultou aquele que é provavelmente o seu melhor trabalho: “300”). No entanto, a banda sonora original passa em grande parte “ao lado”, dado o enfoque no Awesome Mix Volume 1 (há que ver o filme…). Muito semelhante ao que Snyder já tinha feito em “Watchmen”, aqui existe o domínio de músicas de sucesso antigas, que dão uma dinâmica interessante à maioria das cenas. Tenho sérias dúvidas que alguém saia da sala de cinema sem ser a cantar algo próximo de “ooga-chaka, ooga-chaka, ooga-ooga” (link).
Feitas as contas, são duas horas de space opera ao mais alto nível, que demonstram para quem ainda tinha dúvidas que a Marvel percebeu que o seu futuro não estava na 9ª, mas sim na 7ª Arte. A qualidade visual é irrepreensível, o filme é sólido apesar dos muitos clichés, Rocket (o guaxinim) é divertido sem ser excessivo, e há inclusive grandes momentos cinematográficos. É possível fazer uma comédia espacial para adultos!
Ser geek é definitivamente sexy!

Pelo Melhor
Tudo, e tudo, e tudo! Argumento com pés e cabeça, realização de nível, diversão, comédia, nonsense, nostalgia musical, parvoíce em doses galácticas, alguma lamechice que não deixa de ter piada, e humor inteligente num filme de super-heróis. A Marvel voltou a conquistar-me 20 e tal anos depois. No mesmo ano, consegue apresentar um fabuloso “Capitão América – O Soldado do Inverno”, tratando de temas sérios num filme sério, e um magnífico “Guardiões da Galáxia” que é uma espécie de Star Wars meets Monty Python.

Pelo Pior
Pelo quantas?


terça-feira, 15 de Julho de 2014

O Mercado Medieval de Óbidos



Diz que esta coisa das Feiras Medievais está na moda… Não há terrinha para lá do Sol-posto onde não haja agora uma destas feiras. A experiência anterior que tinha não era muito convincente, dado que tinha ido a uma minifeira onde apenas havia meia-dúzia de tendas a vender “coisas”. Andava, no entanto, há já algum tempo com vontade de ir espreitar a de Óbidos (mais correctamente: o Mercado Medieval), dado ser a mais badalada. E assim, no Ano da Graça do Senhor, MMXIV, lá peguei no meu cavalo, na minha bolsa cheia de reais, e rumei à mui nobre e sempre leal Vila d’Óbidos acompanhado por um bando de ébrios peregrinos…

Aos visitantes é dada a possibilidade de pagar um pouco mais pelo bilhete e com isso alugar um traje. Obviamente, chulo capitalista como sou, vesti-me de Cavaleiro Templário. Sim, aqueles que eram conhecidos por ter dinheiro a jorros, e cobrar juros de usura, e que foram os fundadores do actual sistema bancário (já agora, uma vez que estão a ler isto, aproveitem para estudar um pouco de História – faz sempre bem! – e descobrir uma série de elementos extraordinários relacionados com a Ordem dos Templários. Por exemplo: sabem que a superstição da sexta-feira 13 está-lhes associada?).

A localização do mercado é extraordinária, pois brota em redor do castelo, que de qualquer ponto surge imponente a olhar para os visitantes. Não há muitos sítios onde a cenografia funcione tão perfeitamente. Há um cuidado grande por parte da organização em manter a tónica medieval. Nos vários sítios de “comes e bebes” não há talheres ou copos de plástico. Quase tudo é servido em louça de barro: a cerveja, as sopas, o café, a bela da ginja (!!!). O problema é que isso acaba por encarecer o produto final. Pagas o café e o copinho de barro, que depois acabas por levar para casa. É giro, mas ao fim do dia vim para casa com uma caneca de barro, um copo de shots de ginja, e uma “coisa qualquer esquisita” onde bebi o café. Tal como disse uma das nobres damas que ia no nosso grupo: “devem achar que a malta quer fazer um enxoval”. Espero que ao menos estas coisas sejam feitas para animar as fábricas de artesanato local, e que não sejam importadas da China… Senão, da próxima vez que lá for pego fogo ao castelo.
Ainda falando de comes e bebes, a comida é barata e (geralmente) boa. Paguei 6€ por uma espetada de fazer lamber as beiças, acompanhada por açorda (ou migas), azeitonas, e bem regada com jarros de cerveja!
Para além dos sítios onde se pode gastar dinheiro, há também alguma oferta de animação cultural. Temos sempre as “Brízidas Vaz” que piscam o olho aos visitantes (até aos guerreiros santificados, veja-se o desplante!), os soldados cordiais que se passeiam pelas ruas a berrar “SAIA DA FRENTE!” a quem não dá pela sua chegada, e um sem-fim de bandas que tocam música de inspiração medieval. Estas últimas, ao fim de algumas horas, tornam-se cansativas, porque tocam quase todas a mesma coisa, e são geralmente compostas por 4 ou 5 elementos, onde um ou dois tocam gaita-de-foles, e os restantes tocam tambores.
Tenho pena que a oferta musical não ofereça, por exemplo, trovadores que cantem algumas das canções da época. Temos tantos cancioneiros… Podiam, também, aumentar a oferta de teatro. Algumas peças inspiradas nos tempos medievais iam certamente ser muito bem recebidas pelo público, e é algo que não falta por aí. No dia em que lá fui, houve apenas uma encenação do confronto entre os homens de D. Sancho II e os de D. Afonso III, mas que foi verdadeiramente mais uma demonstração de luta de espadas do que propriamente teatro.
Depois há o cortejo, duas vezes ao dia, que reúne todos os figurantes num passeio pela vila, desde a zona do mercado até aos portões, atravessando aquela maravilhosa rua tão Portuguesa, de piso irregular, cheia de casas baixinhas, de cor clara, e varandas cheias de flores. Portugal é maravilhoso!
E não podiam faltar as aves de rapina. Os falcões, as águias, e os apaixonantes bufos sempre com o seu adorável ar de “tocas-me nas sobrancelhas, levas um pontapé no focinho”. Tive pena que não tivessem direito a maior destaque. Estavam apenas confinados a uma tenda onde as pessoas os podiam ver, e ao fim do dia pudemos ver uma águia de Harris a fazer uns voos rasantes sobre as cabeças dos transeuntes. Mas queria mais! Não chegou sequer a arrancar uma única orelha aos espectadores…

E como o melhor se guarda para o fim, venham os torneios! Só pelo que já referi vale a pena dedicar um dia a visitar este Mercado Medieval de Óbidos, em especial se for em boa companhia (gente que goste de cerveja e ginja – ai a ginja!!!!!), mas os torneios – liças – são a ginja em cima do bolo. Todos os dias, duas ou três vezes, são feitos torneios a cavalo com toda a pompa e circunstância. E aquele pessoal não brinca. Usam os cavalos a sério, não hesitando em fazer investidas a toda a velocidade. É um espectáculo lindo, em especial o Grande Torneio que é feito ao pôr-do-Sol. Tudo é feito com direito a cicerone que apresenta os contendentes ao som de Game of Thrones e… Transformers. Até têm um bufão para animar o pessoal, que joga muito bem com um dos cavalos que gosta de chegar ao fim de cada corrida e sentar-se no meio do chão. Muito giro.



Pelo meio há um cavaleiro negro, a fazer de mau da fita, e que trata mal o público, não tem respeito pelas regras, faz batota, usa golpes baixos… e no fim é o preferido dos miúdos! Estou assustado com a cambada de psicopatas de 10 anos que este país está a criar, que apupa os cavaleiros virtuosos, e berra que nem bezerros cada vez que entra em cena o mauzão. Já depois de terminado o torneio, os cavaleiros bonzinhos retiraram para os estábulos, e o Darth Vader medieval teve que ficar para trás porque todos os miúdos queriam tirar fotografias com ele. Fujam deste planeta enquanto podem!
Concluindo: muito giro, cheio de animação, com muito potencial para melhorar. E quem quiser saber mais: http://mercadomedievalobidos.pt/