quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

100 Posts… E Uma Gata Telma!



Por aqui tenho falado de livros, de cinema, e de música. Também tenho falado de gatos vadios, super-heróis, de História e histórias. Quando há três anos e meio tive a disparatada ideia de fazer um blogue, não sabia se iria ser uma parvoeira que ao fim de seis meses passava com antibiótico, ou se seria algo que levaria a sério, com dedicação e entusiasmo. Fiquei pelo meio, e sem dar por isso eis que chegamos ao centésimo post.
E como estas alturas são para celebrar, não há melhor forma de o fazer do que partilhando uma foto do “Telminho original”, um dos maiores sucessos deste blogue!


Pois é, diga-se o que se disser, a malta quer é gatos! Qual falar da música do Hans Zimmer, ou dos livros do Pérez-Reverte, ou do último filme do Peter Jackson! O pessoalzinho ouve falar de gatos e vem a correr. E assim, como pessoa simpática que sou, trago-vos uma foto do Telminho já crescido, o gato mais lindo do mundo e arredores, possuidor das sobrancelhas mais épicas de todos os tempos, e com uns bigodes capazes de fazer corar Nietzsche, filho da mítica Gata Telma.
Bom, mas sendo eu uma pessoa muy honesta (e só digo isto sem me rir porque o estou a escrever e ninguém consegue ver a minha cara), tenho que reconhecer que um dos gostos de dedicar algum tempo a este blogue é constatar que a maioria dos artigos mais visitados são aqueles que dedico a falar de livros. E é com especial satisfação que vejo que entre os três artigos mais vistos se mantém um sobre um livro de uma autora portuguesa. Só por isso, este blogue já tem razão de ter existido.
Confesso que a paciência para escrever é geralmente pouca. A preguiça é uma coisa tramada… Quantos e quantos artigos ficaram “escritos na minha cabeça”, e nunca chegaram a passar para o papel… Mas, felizmente, nas várias vezes em que decidi bah, não vale a pena continuar a escrever aquela tralha, surgia sempre alguém que, sem o saber, dizia olha, gostei de ler aquilo que escreveste sobre X (mesmo que esse X fossem os tão famosos robots gigantes à porrada com dinossauros).
Fazendo um exercício por puro entretenimento, organizando os artigos por categoria, os que tiveram maior sucesso (maior número de pageviews), foram:
Dito isto, brindo a todos os tipos porreiraços erguendo a minha pint de Guinness, esperando que se sigam mais 100 posts onde pelo menos um ou dois não sejam uma tremenda idiotice, e como sou extremamente generoso deixo-vos – como não podia deixar de ser! – com mais uma foto da gata vadia mais sexy da Margem Sul.

terça-feira, 30 de Setembro de 2014

O Assassino Inglês, de Daniel Silva


Uma imagem impressionante: um belo jovem em semiperfil, iluminado de forma sensual. Gabriel calculou que tivesse sido pintado enquanto Rafael vivia e trabalhava em Florença, provavelmente entre 1504 e 1508. O que acontecera ao velho tinha sido uma pena. Teria sido um prazer restaurar um quadro daqueles.
Regressou ao átrio de entrada, parou e olhou para baixo. Tinha deixado marcas de sangue ao longo do chão de mármore.

Eu não gosto de livros policiais ou de espionagem. Esta é, seguramente, a melhor frase possível de utilizar quando se pretende escrever um artigo de opinião sobre um livro de assassinos e espiões. Mas, alas, é mesmo assim. Exceptuando as obras de Agatha Christie ou de Conan Doyle, sempre que me falam em “histórias de crime e investigação” eu respondo com um bocejo.
Portanto, não sei bem o que estou a fazer ao escrever um artigo sobre um livro de Daniel Silva, mas alguma coisa daqui há-de sair.
A personagem central de “O Assassino Inglês” é Gabriel Allon, um talentoso restaurador de obras de arte que é contratado para recuperar – nada menos que – um Rafael (sim, o das Tartarugas Ninja). Acontece, meramente, que Gabriel é um operativo dos Serviços Secretos Israelitas, e quando chega a casa do dono do quadro encontra-o morto. A partir daqui, ladies and gentlemen, é apertar o cinto, porque o livro vai ser mesmo bom!
A história desenrola-se entre três países: Suíça, Itália, e o nosso Portugal. E logo aqui salta à vista a qualidade de escritor de Daniel Silva. Cada um dos países, e respectivos povos, é magistralmente ilustrado pelas palavras do autor. O ambiente que ele consegue criar em cada uma das zonas é delicioso. Os italianos são aqueles tipos estereotipadamente mafiosos, muito ligados às tradições, à família, à terra. Os portugueses são os santinhos simpáticos, altamente coscuvilheiros, sempre disponíveis para dar um sorriso aos estrangeiros (aqui captou-nos na perfeição). E depois temos os suíços. Eu não gostava de ser suíço e ler este livro…
Toda a acção do livro é desenvolvida em redor do roubo de objectos de arte pelos nazis, da colaboração silenciosa por parte da Suíça, e do papel que os bancos suíços tiveram nesta história que (verdadeiramente) nunca foi contada até ao fim. Alguns pormenores do livro dão a sensação que o autor o escreveu como uma espécie de “ajuste de contas com a História”. A forma como ele descreve o papel cínico do povo suíço e a sua ausência de ética em redor do tema chega a ser sufocante.
Daniel Silva é um escritor fabuloso, e provavelmente um dos melhores do género (embora, honestamente, eu não seja propriamente entendido na matéria para o poder afirmar). A escrita do homem é viciante, e a forma como acaba cada capítulo com um cliffhanger (qual é a palavra portuguesa para isto?) é aterrorizadora.
Não é possível escrever sobre um livro destes sem fazer spoilers (novamente, alguém que me arranje uma palavra em português…). A acção é extraordinariamente bem temporizada, raramente entrando em excessos, e nunca reduzindo o livro a uma banal história de “vamos lá falar novamente de nazis”. Nada disso. Todo o elenco é inteligentemente inserido na história, dando-lhe uma dimensão muito forte e apaixonante. Tirando o final demasiado “James Bondesco” para o meu gosto, a história é inteligente, surpreendentemente culta, chegando quase a parecer uma grande reportagem de um jornal de referência, onde polícias e criminosos são meros adornos. Evitando resvalar para o excesso literário, e intercalando a “alta espionagem” com os problemas pessoais de alguns dos intervenientes, poucas coisas sabem tanto a um murro no estômago no encontro com a realidade como quando lemos o segundo “Como é que foi Berna?”
Fico, não obstante, com a sensação que este livro foi escrito “para ser adaptado ao cinema”. Há capítulos inteiros que tresandam a tal. A boa escrita alternada com algumas sequências quase-estapafúrdias de “vamos lá começar a explodir com tudo” cheira mesmo a Silva a acenar com o guião a algum produtor interessado de Hollywood. Algumas das piores partes do livro são precisamente essas que parecem tiradas de um filme. Mas como são poucas não chegam para estragar a história.
Não creio que me vá tornar subitamente um fã de policiais/espionagem, mas também não creio que este seja o último livro de Daniel Silva que vou ler…

Para terminar, por norma gosto de complementar os meus artigos aqui no blogue com “informação de interesse” adicional. Voltando ao tema do livro, pesquisei um pouco mais por esse universo infinito que é a internet, e descobri que existem inúmeros movimentos que procuram precisamente ir ao encontro das muitas obras de arte roubadas pelos nazis. Para termos uma ideia da dimensão da espoliação bastará este excerto: Out of 600,000 works of art looted during the Nazi era from 1933 to 1945, an estimated 100,000 are still missing, misidentified or misappropriated.(Fonte: link)
Inclusive, há uma base de dados internacional onde é possível consultar os detalhes relativos às obras desaparecidas.
E, para termos ideia do quão certeiro (não-ficcionado) é o tema abordado no livro de Daniel Silva, O Assassino Inglês foi escrito em 2002; veja-se esta notícia do Der Spiegel publicada em 2007: link Der Spiegel.


segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

71 – Setenta e Um

EUFORIA! O PAULO BENTO FOI DEMITIDO! Não se assistia a tamanho êxtase em Portugal desde que o Mestre de Avis foi proclamado rei nas Cortes de Coimbra em 1385. O Facebook foi inundado por uma catadupa de comentários, e as próprias televisões nacionais dedicaram a notícia de abertura a tão marcante feito na História de Portugal. Algumas dedicaram mais de 10 minutos da abertura, trouxeram comentadores em directo para se pronunciarem sobre o acontecimento, e prontamente anunciaram emissões especiais nos canais por cabo, recheadas de painéis de comentadores, porque nestas ocasiões é sempre importante ter pessoas de referência que vão à televisão dizer umas coisas.
Como não podia deixar de ser, o ex-Seleccionador teve direito à sua indemnização. Ainda se falou em 3 milhões de Euros, mas parece que ele até foi um gajo porreiro e se ficou por 1/3 desse valor.
E é precisamente a partir deste ponto que surge este artigo, para os meus estimados amigos tresloucados com demasiado tempo livre, e boa vontade para ler as deambulações que por aqui volta e meia escrevo. Pensemos então num trabalhador acima da média estatística. Vamos dizer, para efeitos de exercício pedagógico, que ele ganha mensalmente 1.000 Euros. Até é um ordenado bastante acima da média do que se ganha em Portugal. Feitas as contas, ao final do ano, com direito a subsídio de férias e de Natal, o trabalhador em questão leva para casa 14.000 Euros. Na realidade é mentira, porque entre 10 a 20% deste valor desaparece em impostos. Mas, novamente, no espírito meramente académico deste exercício, vamos considerar – utopicamente – que todo o dinheiro ganho vai para a conta do trabalhador.
Mais. Vamos viciar as variáveis desta equação, e assumir que ele se mantém empregado toda a vida, e nunca leva cortes no salário, nem nada que se pareça. Ao fim de 10 anos amealhou 140.000 Euros. Se ponderarmos, em média, uma carreira contributiva de 45 anos de trabalho, o afortunado trabalhador, que passou a vida inteira a trabalhar das 9 às 18, conseguiu a proeza de receber 630.000 Euros pela sua vida inteira de trabalho. Estará velhote, perto dos 70 anos, mas trabalhou durante 45 anos para juntar 630.000 Euros. Para chegar ao valor da indemnização de despedimento do ex-Seleccionador teria que ter trabalhado mais de 71 anos (mais do que aqueles que tem de vida), e com todos os pressupostos fiscais e laborais “ligeiramente irrealistas” que defini para este exercício.
RESUMO DO EXERCÍCIO: o ex-Seleccionador assinou um papel no dia 11 de Setembro de 2014 e recebeu o equivalente a 71 anos de trabalho de um comum cidadão Português, que recebesse 1.000 Euros e não pagasse quaisquer impostos.
Portanto, chegamos ao número mágico que dá título a este artigo: 71. E é neste número que gostaria que ficassem a pensar se tiverem paciência de ler isto até ao fim. Acima de tudo, pensem neste número da próxima vez que pensarem em futebol, ou ficarem indignados porque “estes tipos não jogam nada”, ou provocarem os vossos amigos porque “hehehehe, a lagartada voltou a levar nas trombas”, ou porque “os lampiões perderam mais uma final qualquer”. Este é um número que convém ficar presente de todas as vezes que nos debruçarmos sobre o mundo do futebol. O mundo que é composto por tipos que recebem astronomicamente mais do que os valores que serviram de base a este nosso exerciciozinho para passarem o tempo a dar uns pontapés na bola. Sim, são uns pontapés bonitos. Eu também gosto de futebol (gostava?). E fazem-no em hotéis de cinco estrelas, com SPA, piscinas de luxo, comidinha da boa, com direito a prémios de jogo e mais um sem-fim de mordomias. Enquanto isso, “no mundo real”, uma legião de gente silenciosa estudou anos a fio, levanta-se às 6 ou 7 da manhã para ir trabalhar um dia inteiro, andou na faculdade a pagar para estudar, muitas vezes com sacrifício dos pais, e depois chega a casa e fica em frente à TV a ouvir os comentadores dos programas desportivos a dizer “pobrezinho do Zé, está em baixo de forma, não se pode exigir mais ao jogador…”
Já muitos amigos argumentaram comigo: “Ora, não sejas assim, porque aquilo exige muito trabalho e muito treino!”. OK, o que eu faço também exigiu muito trabalho e muito treino, e até hoje não vi os meus chefes a pagarem-me um hotel de cinco estrelas para o fazer. O meu local de trabalho não é propriamente um centro de estágios com SPA e salões para jogar snooker e Playstation. Vê-se nos rostos dos jogadores o “esforço” do seu árduo trabalho cada vez que há reportagens que filmam os treinos. Os seus rostos estão tristes e cabisbaixos, cansados, exauridos… Depois olho para os rostos das pessoas do mundo real, que às 8 da manhã estão a apanhar o metro em Entrecampos. São parecidos…
“Ora, não sejas assim, o futebol também é cultura!”. Humm… eu aqui invocaria alguma “objecção de consciência”, mas, novamente, para efeitos democráticos do presente exercício, vamos dizer que sim. Não tenho a certeza que alguma federação tenha pago ao José Luís Peixoto uma estadia num hotel de luxo enquanto ele escreveu o seu último livro. E também desconfio que o director do Museu Nacional de Arte Antiga não recebe um milhão de Euros por ano. E confesso que não estou a ver alguém a virar-se para o Saramago e dizer “olha, o teu último livro foi mau… portanto toma lá um milhão de Euros”.
“És mesmo do contra! Não vês que a Selecção é um orgulho nacional? Pensa no prestígio de Portugal!”. A sério? O “prestígio de Portugal” é ter uma dúzia de tipos aos pontapés à bola? Temos investigadores que ganham reconhecimento internacional pelas suas descobertas na área da ciência e cá dentro nem têm direito a nome, pois passam apenas numa curta entrevista já no encerramento dos jornais televisivos (Ângela Abreu, 2013, premiada pela NASA – sim, a NASA dos foguetões…). Temos escritores que lá fora vencem prémios de “melhor obra literária” (já alguém ouviu falar em Gonçalo M. Tavares?), e que o prestígio que merecem é ter direito a um programinha de TV numa estação bafienta às 2 da manhã. Temos uma diáspora de gente pelo mundo todo, que fez, faz, e fará, obras magníficas… e o “prestígio de Portugal” jaz em ganhar 1-0 à Espanha?
Percebo a paixão pelo futebol. Só não percebo é como é que as pessoas acham que algo tão banal justifica tudo e mais alguma coisa. Toda a gente se revolta contra o que ganham os deputados da Assembleia da República, e ninguém se revolta com o que ganham os futebolistas.
Ficaram curiosos com a fotografia que escolhi para ilustrar este artigo? Sabem de onde a tirei? Daqui: link.
Da próxima vez que ficarem vermelhos de raiva por qualquer coisa relacionada com o dito “desporto rei” lembrem-se do número 71.

P.S. Se estiverem numa onda particularmente sadomasoquista, e ainda tiverem a calculadora à mão, diz que o Benfica paga 4 milhões de Euros por ano ao Jorge Jesus.
Uma ajudinha: 71 x 4 = 284

P.P.S. Se estiverem MESMO numa onda sadomasoquista… o CR7 ganha 4 vezes mais do que o JJ.
Nova ajudinha: 71 x 4 x 4 = 1.136

P.P.P.S. Vemo-nos dentro de 12 séculos...

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

“Um Estudo em Vermelho”, de Arthur Conan Doyle



John Ferrier esperava receber alguma mensagem ou admoestação da parte de Young quanto à sua conduta; e realmente recebeu-a, mas de modo imprevisto. Ao levantar-se na manhã seguinte, encontrou, com grande surpresa, um pequeno rectângulo de papel preso por um alfinete nas cobertas da sua cama, exactamente à altura do peito. Em letras de imprensa, grandes e tortas, podia ler-se:
«Restam vinte e nove dias para que te emendes, antes de…»

Uma palavra, em alemão, escrita com sangue numa parede parece ser a principal pista que o consulting detective Holmes tem para se guiar na procura do responsável por um assassinato atroz.
Um Estudo em Vermelho foi o primeiro livro que Arthur Conan Doyle escreveu sobre as aventuras daquele que viria a tornar-se o mais famoso detective de todos os tempos. É neste livro que Holmes e Watson se conhecem e iniciam a sua longa amizade e colaboração.
O detective é-nos apresentado pelos olhos do Dr. Watson como uma pessoa deveras estranha. Obcecada e ao mesmo tempo fascinante. Há uma ligeira incoerência no texto, uma vez que Watson refere-se a Sherlock como alguém sem conhecimentos de Grande Literatura, e algumas páginas à frente deparamo-nos com Sherlock a falar de Edgar Allan Poe. Não se pode dizer que seja propriamente “literatura de cordel”, mas admito que na época, e contexto, em que o livro foi escrito (1887) eu possa estar equivocado na minha leitura (provavelmente explica-se pelo interesse de Holmes em jornais de crime).
Certo é que Sherlock Holmes nos fascina desde o momento em que surge. O génio meio louco que recorre ao seu método dedutivo para juntar as peças do puzzle que escapam aos detectives banais.
Achei bastante curioso verificar que a história deste livro é quase igual à d’O Vale do Terror, do qual falei aqui há precisamente um ano (link), e que corresponde ao último livro de Sherlock. Em ambos, a chave para desvendar o crime reside numa sociedade secreta opressiva, localizada décadas antes na América. Se no outro livro as referências à Maçonaria eram subtis, neste quem arca com o papel de vilão são os Mórmones. De resto, toda a história é muito semelhante.
Não se pode dizer que seja um livro emocionante. É importante para os fãs da personagem, pois é onde tudo começa, e onde se estabelecem as premissas que deram vida à lenda. Mas, com apenas 175 páginas (edição de bolso da colecção 1117), a história acaba pouco depois de começar. Praticamente são-nos apresentadas as duas personagens principais, é descrito o cenário do crime, Holmes desvenda-o quase de imediato, e depois boa parte da acção situa-se no passado, nas raízes que levaram ao trágico desfecho.
Poderá ser uma leitura ligeira para quem não goste muito de livros complexos e “pesados”, mas para leitores mais exigentes não se pode dizer que seja obra que fique na memória.  É, no entanto, uma leitura agradável, bastante acessível, que serve de excelente companhia numa tarde de Verão (ou num dia de chuva e nevoeiro, dependendo dos gostos de cada um).

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Guardiões da Galáxia




Queria começar este artigo como uma frase que dissesse “Este filme é fabuloso! Corram a ir vê-lo!”. Já por aqui comentei que a Marvel Studios se está a tornar no maior gigante do entretenimento cinematográfico de qualidade. Portanto, voltem lá à primeira frase deste parágrafo, e sigam o conselho do mestre!
Quando há cerca de um ano surgiu o trailer deste Guardiões da Galáxia, a minha primeira reacção foi “Ooook, lá vem asneira da grossa!” Apesar de ter consumido doses industriais de comics quando era puto, nunca tinha ouvido falar destes tipos. O facto de o trailer estar povoado por criaturas multicoloridas, um guaxinim falante, e uma árvore andante, no meio de uma data de naves espaciais cheirou-me a “uma qualquer parvoíce do género Transformers, mas ainda pior”. Ainda bem que estava errado. É raro tal acontecer, mas – alas! – até THE PSY é falível.
Este filme marca definitivamente a entrada da Marvel no património intergaláctico das suas histórias. Apesar de “as estrelas da companhia” serem o Homem-Aranha, o Capitão América, os X-Men, e por aí fora, a cosmogonia da Marvel é imensa, e a maioria das suas grandes histórias dos tempos áureos está precisamente associada a esse inesgotável património.
O aparecimento da personagem Thanos na cena final de “Vingadores” já fazia antever este passo, mas uma coisa é ter a intenção, outra é concretizá-la com qualidade. E tendo em conta boa parte das “experimentações” com a overdose de ficção-científica medíocre que tem chegado ao cinema, havia todas as razões para temer o pior. Mas quem está à frente do projecto cinematográfico da Marvel é mesmo muito bom, tem o calendário muito bem estabelecido, e os filmes de qualidade sucedem-se uns aos outros.
Comecemos pela realização, que ficou entregue a James Gunn. A quem? Sim, essa também foi uma das minhas perguntas. Alguém já ouviu falar deste gajo? Nem por isso… Bom, agora é certo que não me esqueço do nome. A realização é magistral. O filme é space opera ao bom estilo de Star Wars, filmado claramente para favorecer o 3D (não, descansem, eu não fui ver o filme em 3D!), e descaradamente inspirado em J. J. Abrams. Os planos, as cores, os próprios lens flares que são a trademark de Abrams estão presentes em cada frame. E o resultado final é magnífico. O próprio J. J. Abrams que se ponha em sentido, e se esmere em 2015 com o Episódio VII da saga Star Wars, porque aqui tem concorrência à altura.
Depois temos o protagonista, Chris Pratt. Outra vez: quem? Alguém já ouviu falar deste gajo? Eu só sei que ele existe porque há dois meses vi o “Her” (parem tudo o que estão a fazer e vão vê-lo, porque é outra coisa fantabulástica). Entregar o protagonismo de um filme destes a um tipo semidesconhecido não é um risco demasiado grande? Não. Não, porque – como já referi – a equipa por detrás do projecto cinematográfico da Marvel é muito boa, e sabe muito bem o que está a fazer. Pratt adequa-se na perfeição à personagem, uma espécie de pateta bonacheirão que aparenta andar sempre aos papéis por todo o lado onde passa. É o anti-herói perfeito, muito diferente dos heróicos Capitão América e Thor, ou do cool Homem-de-Ferro.
Entenda-se que este Guardiões da Galáxia é um filme de super-heróis com comédia para adultos. Isto não é uma coisa para crianças. Aqui as personagens são bardajonas, usam piadas impróprias e fazem gestos obscenos. Todo o filme é pontuado por um extraordinário nonsense, que escapará a muitos dos espectadores que levam estes filmes demasiado a sério. Isto é entretenimento, de elevadíssima qualidade, com um argumento bastante sólido. E é divertido, com humor inteligente, sem aquelas “piadinhas fáceis para idiota perceber”. Há um diálogo brilhante em redor de um thesaurus, e referências à pintura de Pollock! Isto não é habitual num filme de super-heróis. Muitos dos diálogos são inesperadamente longos, desafiando tudo o que à edição de um filme diz respeito para quem segue as regras by the book. E isso contribui para aumentar o nonsense brilhante do filme.
Em termos musicais, os créditos ficam nas mãos do já veterano Tyler Bates, essencialmente conhecido pela sua colaboração com Zack Snyder (de onde resultou aquele que é provavelmente o seu melhor trabalho: “300”). No entanto, a banda sonora original passa em grande parte “ao lado”, dado o enfoque no Awesome Mix Volume 1 (há que ver o filme…). Muito semelhante ao que Snyder já tinha feito em “Watchmen”, aqui existe o domínio de músicas de sucesso antigas, que dão uma dinâmica interessante à maioria das cenas. Tenho sérias dúvidas que alguém saia da sala de cinema sem ser a cantar algo próximo de “ooga-chaka, ooga-chaka, ooga-ooga” (link).
Feitas as contas, são duas horas de space opera ao mais alto nível, que demonstram para quem ainda tinha dúvidas que a Marvel percebeu que o seu futuro não estava na 9ª, mas sim na 7ª Arte. A qualidade visual é irrepreensível, o filme é sólido apesar dos muitos clichés, Rocket (o guaxinim) é divertido sem ser excessivo, e há inclusive grandes momentos cinematográficos. É possível fazer uma comédia espacial para adultos!
Ser geek é definitivamente sexy!

Pelo Melhor
Tudo, e tudo, e tudo! Argumento com pés e cabeça, realização de nível, diversão, comédia, nonsense, nostalgia musical, parvoíce em doses galácticas, alguma lamechice que não deixa de ter piada, e humor inteligente num filme de super-heróis. A Marvel voltou a conquistar-me 20 e tal anos depois. No mesmo ano, consegue apresentar um fabuloso “Capitão América – O Soldado do Inverno”, tratando de temas sérios num filme sério, e um magnífico “Guardiões da Galáxia” que é uma espécie de Star Wars meets Monty Python.

Pelo Pior
Pelo quantas?