terça-feira, 27 de janeiro de 2015

“Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes”, de Mathias Énard




A noite não comunica com o dia. Arde nele. Levam-na para a fogueira ao alvorecer. E, juntamente com ela, a sua gente, os beberrões, os poetas, os amantes. Nós somos um povo de degenerados, de condenados à morte. A ti não te conheço. Conheço o teu amigo turco; é um dos nossos. A pouco e pouco desaparece do mundo, engolido pela sombra e pelas suas miragens; somos irmãos. Não sei que dor ou que prazer o empurrou para nós, para o pó de estrela, talvez o ópio, talvez o vinho, talvez o amor; talvez alguma obscura ferida da alma, bem escolhida nos recessos da memória.

Ninguém começa um livro desta forma. É daquelas aberturas ao nível de "Um Conto de Duas Cidades", onde a velocidade das palavras se sobrepõe a qualquer espécie de "situação de abertura" para enquadrar o leitor na acção. O livro começa assim, e nunca mais abranda.
"Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes" é uma daquelas obras inesperadas que nos caem nas mãos com uma violência inusitada. Isto não é um livro. Antes, é um devaneio estridente de um fôlego único que atropela as palavras antes sequer destas surgirem na mente. E é brilhante.
Mathias Énard tenta fazer-nos entrar na mente de um dos maiores génios da Humanidade (o maior?): Michelangelo Buonarrotti. E agora a pergunta para um milhão de Euros: como é a mente de um génio criativo da magnitude de Michelangelo? Exacto, um turbilhão alucinante de ideias, cores, poesia, música, arquitectura, raiva, frustração, cheiros - respirar fundo! - pessoas, aves, movimento, desejo, emoção, línguas, ferramentas. E o livro é-nos servido desta forma, numa sequência de mini-capítulos que acompanham uma fictícia viagem do Mestre a Constantinopla, em segredo, como forma de se vingar do Papa Júlio II, e oferecer os seus dotes de artista ao Sultão.
Michelangelo tem uma ponte para projectar, mas isso é um mero pormenor na história. Os cinco sentidos do génio devoram tudo o que o rodeia.
Há capítulos que arrancam em alta velocidade onde apenas figuram listas enormes de ingredientes, aqueles que Michelangelo encontra nos mercadores azafamados por onde passa. Não existe verdadeiramente uma história contida neste livro. O que há são os estímulos sensoriais que a personagem assimila neste dia-a-dia alienígena.
Esta talvez seja a altura indicada para referir a tradução. Das primeiras coisas que me saltou à vista quando olhei para a capa foi a referência “Tradução de Pedro Tamen” em letras de tamanho consideravelmente generoso. Ora, exceptuando aqueles casos em que temos “As Minas de Salomão, com tradução de Eça de Queirós”, não é propriamente habitual ver o nome do tradutor merecer tamanho destaque na capa. Neste caso é perfeitamente justificado. A beleza do texto na imortal Língua de Camões é marcante. O exotismo de conciliar vocábulos como “dragomano”, “caravançarai”, ou “janízaros”, com a restante prosa, fazendo-o com o alto nível que o texto merece, é verdadeiramente razão q.b. para ter destaque na capa.
Mas voltemos à história, para referir a ampla dimensão de uma obra tão curta, que se esvai em meia-dúzia de saborosas páginas, para mencionar o apetitoso que é ver as rivalidades entre Michelangelo e Rafael, ou Bramante. Ver o humor de chamar “Júlio” ao macaco de estimação que lhe faz companhia. E perceber que tudo isto se pode enquadrar tão bem com uma personalidade voraz como a do génio Florentino. Muitas recriações históricas acabam por estragar as personagens em que se baseiam por mera idiotice dos autores, que preferem inventar escândalos sexuais, ou outras parvoíces que tais, e que pouco ou nada têm a ver com a personalidade da personagem. Mas aqui é precisamente o contrário. Todos os pensamentos mundanos parecem assentar que nem uma luva nesta fascinante personagem.
Não tenho talento para conseguir explicar por meras palavras a satisfação que é ler, e poder ter livros destes nas mãos. A tristeza com que fico quando penso que há tanta gente neste mundo que infelizmente não pode provar desta Ambrosia. E a cólera que me assoma às amígdalas quando penso que há gente que perde dinheiro – e acima de tudo tempo – a ler aqueles belos pedaços de esterco que geralmente figuram entre as listas de bestsellers. Eu tenho a sorte de ter amigos fenomenais, com bom gosto, estimulantes, e que me colocam livros destes nas mãos. Dizer mil vezes obrigado não chega para mostrar a excitaçãozinha histérica com que fico quando devoro páginas deste calibre. Ler livros desta qualidade é comer gelados da Carte d’Or com a caçarola da sopa.
Mathias Énard é um daqueles escritores a quem o mundo tem a obrigação de estar atento. Demonstrar tamanho talento para a escrita, aliado à sublevação imperial das palavras que usa, é a garantia de muitas páginas futuras de elevada qualidade.
Et voilà, ficam assim a saber, como tinha prometido, qual foi o melhor livro que li em 2014.
E, porque não resisto, mesmo que corra o risco de transcrever metade do livro para aqui, calo-me muito caladinho, com mais uns quantos pulinhos de excitaçãozinha histérica, com apenas mais um, ou dois parágrafos. Ou três. Ou quatro…

A algumas centenas de metros para trás deles, a montante, ergue-se a forma escura do andaime do botaréu da ponte que Miguel Ângelo não chegará a ver.
Abraça longamente Manuel, como se fosse outro que ali estivesse em seu lugar, e depois sobe para bordo. Sente uma dor surda no peito, e atribui-a ao seu ferimento; sobem-lhe lágrimas aos olhos.
O único objecto que trouxe consigo é o seu caderno, onde anota algumas últimas palavras, enquanto o navio passa a ponta do Serralho.
Aparecer, manifestar-se, brilhar.
Constelar, cintilar, extinguir-se.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

2014: O Balanço



Não sei que balanço existe para fazer de um ano que teve “corrupção” escolhida como palavra do ano, mas como entendo que esta aventura bloguística deve ter como missão partilhar algo interessante e construtivo com meia-dúzia de amigos… senhoras e senhores, está na hora de mais um Balanço Anual do vosso génio criativo de eleição!


2014 começou da melhor forma possível: comigo em Roma, rodeado de amigos! Dificilmente nas minhas próximas sessenta e seis passagens de ano será possível superar este feito. Não vou voltar a falar desse momento, uma vez que o fiz no Balanço anterior, mas em vez disso vou recordar outro momento igualmente extraordinário: o meu aniversário! Bem sei que é um dia de gáudio e celebração para toda a Humanidade, mas este ano os amigos do Psy conseguiram a extraordinária proeza de me oferecer um conjunto de prendas que na sua simplicidade definem exactamente quem sou. Senão vejamos: um livro de ficção histórica que tem Michelangelo Buonarroti como personagem principal; um jogo de tabuleiro com a temática de Dungeons & Dragons; uma t-shirt d’O Império Contra-Ataca; um puzzle da Barbie e um panamá encarnado, porque eu sou tarado e os meus amigos são tão tarados como eu! Já vos disse este ano que vos adoro?
Sobre o Gnosei Seauton propriamente dito, creio que 2014 não foi um ano de particular relevância, ficando essencialmente na minha memória como “o ano da preguiça”, pois houve inúmeras coisas sobre as quais queria escrever, e acabei por não o fazer. Aliás, a preguiça tem sido tanta que o Prodigioso Psy até já levou um puxão de orelhas do Fantástico Sr. Fusão por estar atrasado com o post do Balanço Anual.
Fechado este capítulo, debrucemo-nos (sem deixar cair o panamá vermelho) sobre os tópicos habituais.

2014: Uma Música
Já ando há várias semanas a pensar no que iria colocar nesta rubrica. Sim, ficam a saber que eu começo a pensar com bastante antecedência nas escolhas para os posts de Balanço. Verdade seja dita, este ano não me inspirou muito em termos musicais. Gostaria de destacar apenas o orgulho de ver o – senhor! – Carlos do Carmo a receber um Grammy.
De resto, até houve a surpresa de um inesperado álbum de originais dos Pink Floyd (que serviu como bomba de nostalgia), mas em termos de canções não houve muito que me tivesse ficado no ouvido. Sei que tenho um trio de amigos que desejaria profundamente que eu escolhesse o “Turbinada” da Ana Malhoa para música do ano… mas eu não quero pela primeira vez na vida começar a ter pensamentos suicidas.
Posto isto, não havendo uma canção que me pareça merecer um particular destaque, a única forma que tenho de preencher esta rubrica é fazendo um bocadinho de batota, e já que falamos de Música, então que falemos de coisas sérias. A banda sonora de Interstellar é um dos maiores feitos musicais dos últimos anos. Hans Zimmer não falha, e portanto todo e qualquer prémio que tenha “Música” no título pode ser entregue a um artista maior que os Homens, capaz de fazer algo como este No Time For Caution.


2014: Um Filme
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Não será propriamente uma surpresa apontar Interstellar como o filme do ano. Apesar de eu achar que lhe faltou qualquer coisinha lá no fundo, a verdade é que o único filme de 2014 que poderia eventualmente disputar o lugar cimeiro do pódio seria o Guardiões da Galáxia. Mas isso seria para gente que gosta de filmes para gente doida, que é a única coisa que se pode dizer de um filme que tem um guaxinim falante e uma árvore andante. Mas, apesar de Guardiões da Galáxia ter sido sem dúvida a surpresa do ano, não deixa de ser um filme de cowboys no espaço, e, a bem da coerência, um filme profundo e introspectivo como Interstellar nunca poderia verdadeiramente ceder o primeiro lugar a uma “brincadeira de gente crescida”.

2014: Um Livro
Ai, ai, ai, ai, ai! Não quero falar desta rubrica… ainda! Explico muito rapidamente: estão a ver a tal preguiça? Pois é, por esta altura eu já deveria ter escrito o artigo sobre o melhor livro que li em 2014, mas ainda não o fiz. Sem revelar o título, ou o autor, deixo apenas uma pista: já aqui falei dele! ;P
Aguardem mais uns dias, e… talvez eu vos fale de elefantes!

2014: Um Comentário Político

2014: O Momento Mr. Bean do Ano
Eu ia a escrever que finalmente tinha passado um ano sem fazer figura de urso, mas subitamente lembrei-me de um grupo de quatro trintões, em pleno Centro Comercial Colombo, a rir à gargalhada enquanto viam num i-Pad o “Turbinada” da Ana Malhoa e o “qualquer-coisa-Vanessa-Popozuda”.
E, pronto, vamos ficar por aqui, pois eu ainda gostaria de iniciar 2015 com alguma réstia de dignidade…

2014: Um Momento
Já mencionei Roma? Tenho assim a vaga noção de o ter feito, mas por via das dúvidas, e só mesmo para ter a certeza, o momento do ano é mesmo Roma! A minha cidade, o meu espírito, a minha identidade. Estar, no dia 1 de Janeiro, na Praça de São Pedro no meio de uma multidão que não cabe no enquadramento da máquina fotográfica é algo assombroso! Até mesmo para quem não tem crenças religiosas, sentir aquela força humana tremenda é inspirador. E, convenhamos, o Papa Xico é um tipo do mais porreiro que há. Um dia destes convido-o para jogar boardgames connosco. Depois seguiu-se a escultura, a arquitectura, a pintura, a História, os Museus do Vaticano, e cada calhau que há por Roma. Nenhuma outra cidade do mundo faz sombra à Cidade dos Césares - meus ascendentes.
Mas mudemos de assunto, caso contrário acabam-se-me as páginas e a tinta da caneta. Assim, ergo a minha Guinness a quem comigo percorreu museus, partilhando gargalhadas a cada vez que escutava "comentários intelectuais" (Ué, Rubens com S? Não devia ser Ru-BEN?); a quem me sequestrou em pleno Algarve, e – amarrado no porta-bagagens de um carro! – me obrigou a cruzar a fronteira para ir àquela terra cujo nome se me escapa de momento, forçando-me a por lá "almoçar" (na melhor das hipóteses, a engolir umas substâncias sólidas condimentadas); a quem comigo passou uma noite inteira de chinelo na mão a matar melgas!!!; a quem comigo jogou Race For The Galaxy, Twilight Imperium, Lords of Waterdeep, e... aquele outro jogo cujo nome se me escapa porque é horrível e pessoas de bom gosto se recusam a jogá-lo (vá, pronto, está bem, eu digo – sob ameaça de morte – que o Cosmic Encounters é capaz de não ser tão mau como eu o pinto); à Irmandade da Vacaria, que pouca gente sabe o que é, mas que me faz morrer de riso; à louraça que me fez passar boa parte da véspera da passagem de ano agarrado a uma Barbie (a sério, isto de passar dos trinta e começar a brincar às Barbies... digam lá, é o karma a gozar comigo, não é?); à mãe dessa louraça, que é uma pessoa espantabulástica porque faz bolos espectaculares para um grupo de marmanjos que lhe invade a casa a toda a hora para jogar jogos de tabuleiro (que invariavelmente acabam com "um certo descendente dos Césares" a berrar FARTARUGA e NINOSSAURO); aos frenéticos (De)formadores que me baptizaram de “Cartoon Maquiavélico”; aos muy nobres irmãos escolásticos, e esbeltas donzelas, que comigo calcorrearam os caminhos de Óbidos, e que respeitando a tradição Templária encheram a pança de cerveja até mais não; e a todos os que discordam comigo sobre cinema (e que estão errados! e – SIM! – a porra do IMAX estava azul!!!).
E, só mesmo para terminar... já referi Roma?

Bom, certo é que o novo ano já cá anda, e portanto é hora de carregar no botão reset, e inventar coisas novas, e memoráveis. Sei que estão em pulgas para terminar de ler este artigo e ir a correr descobrir o que é o “Turbinada”. E se forem suficientemente audazes para o fazer (e sobreviverem à experiência), espero que me perdoem, e que tenham um 2015 tão inspirador como… link.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Exodus – Deuses e Reis




Ridley Scott é um daqueles génios que têm lugar de destaque no meu panteão de artistas. Afinal, estamos a falar do homem que realizou o melhor filme de todos os tempos. Quando surgiu o primeiro trailer de Exodus fiquei a tremer. Estaria Scott de regresso aos grandes épicos históricos? Estaria um novo Gladiador a caminho?
Fui vê-lo já depois de estar há algum tempo nas salas de cinema, e tendo lido muitas críticas negativas. Mas, quando Scott fez Robin Hood (2010) também houve uma chuva de críticas nada abonatórias, e o filme até é razoavelmente decente. Além disso, o fanboy dentro de mim queria a todo o custo contrariar as opiniões gerais, e chegar aqui a rir desbragadamente e a gritar “vivas” ao filme. Teria que ultrapassar o meu ódio de estimação pelo Christian Batman enquanto protagonista, mas tudo o resto seria, com toda a certeza, no mínimo satisfatório. Bom, Exodus tem uma proeza… Bale consegue não ser a pior coisa no filme!
Exodus – Deuses e Reis é uma tragédia de proporções épicas que penosamente se arrasta ao longo de duas horas. Aqui o fanboy quer desculpar o seu ídolo, afinal a culpa principal é do argumento grotesco, que nem sequer tem a mão de Scott. Na parte em que Ridley Scott é chamado – a realização – responde sempre de forma imperial. Veja-se a magnífica carga de cavalaria dos egípcios contra os hititas logo na abertura do filme! É seguramente uma das mais deslumbrantes jamais filmadas. Mas, meu caro fanboy, o realizador é sempre o responsável máximo pelo filme. É ele quem o assina, quem lhe dá identidade. O guião de Exodus é tão mau, que faz o do Dark Knight Rises parecer aceitável (que não é!).
Até nem era preciso um grande génio para contar a história de Moisés e do Êxodo. É mais do que conhecida, teve inclusive direito a grandes adaptações no cinema. Mas, aparentemente, foram necessários quatro babuínos para escrever um pedaço de esterco tão grande, que a única coisa que mereciam era levar com as Tábuas dos Dez Mandamentos nos cornos. Quatro asnos para escrever algo tão mau, que um miúdo de seis anos certamente faria melhor.
Há dois momentos centrais no filme, e que conseguem ser de um ridículo tão majestático, que uma pessoa apenas consegue colocar as mãos à frente da cara e abanar a cabeça. Ramsés e Moisés são quase como irmãos. São criados juntos, lutam juntos, Moisés salva a vida de Ramsés no campo de batalha, o faraó (pai de Ramsés) até lhes dá espadas para simbolizar a união de ambos. Até ao dia em que um inimigo político de Moisés aparece e diz que um soldado qualquer ouviu um escravo qualquer a insinuar que Moisés era de descendência hebraica. Em menos de dois minutos Ramsés entende que isto é absolutamente verdade, e que Moisés tem que ser imediatamente expulso e assassinado. Muito coerente. E o mais engraçado, é que isto não é o pior da história! Moisés é apresentado como alguém que não acredita em qualquer religião, e inclusive desdenha todas as superstições e rituais religiosos. Já no exílio, conhece uma bela moçoila, crente em Deus, com quem se casa e tem filhos. Torna-se pastor, e quando o filho já é crescido diz à esposa que não concorda que ele seja iniciado na fé, e faz um discurso bonito (na voz ciciante do Bruce Wayne…) dizendo que o filho deve crescer a acreditar nele próprio, e não num qualquer deus. Até que no dia a seguir vai atrás de uma ovelha para o cimo do monte, no meio de um temporal, escorrega na lama, leva com uma pedra nos cornos, e subitamente vê Deus! Que é uma criancinha irritante que só ele vê. No dia a seguir, cheio de febre e a delirar, decide abandonar a família e “ir fazer o que Deus lhe mandou”. E isto passa-se aí em dois minutos de filme. Uma conversão ainda mais rápida e ridícula do que a do Anakin Skywalker no inominável Rise of the Sith.
Até mesmo para quem não tenha crenças religiosas isto parece insultuoso. Já não bastava, algumas cenas antes, terem sido enviados dois assassinos para… ASSASSINAR Moisés, que se dão ao trabalho de ficar parados a olhar para ele enquanto dorme, esperam que ele acorde, e – espanto! – levam na tromba. Portanto, o que fazem os assassinos? ASSASSINAM pessoas! Vêem o seu alvo a dormir, completamente desprotegido, e… aproveitam para se aproximar silenciosamente e cortar-lhe a garganta, como qualquer… ASSASSINO? Não! Ficam a olhar para ele a fazer ó-ó, como se fosse um bebezão crescido e rechonchudo, e esperam que ele – um general, combatente altamente experiente e letal – acorde, para depois – aí sim – o tentarem matar… A sério, um miúdo de seis anos conseguia escrever algo menos obtuso do que isto.
Não pretendo dar-me ao trabalho de escrever sobre todas as asneiras no argumento do filme (pois oito páginas não bastariam para tal), e portanto deixo para mais tarde as reflexões sobre a conveniente estrada que contorna as montanhas, suficientemente larga para haver uma corrida de bigas (carros puxados por uma parelha de cavalos), e que liga lugar nenhum a lugar algum, pois chegam ao mar e nem sequer uma cabana lá existe, por isso questiono quem utilizaria aquela estrada; bem como o facto interessante de um milhão de refugiados decidir entrar pelo mar adentro, cheios de água até ao peito, sem ninguém perceber qual é o plano; e por último o momento de génio em que o faraó mauzão vai a atravessar o mar, leva com uma onda de cinquenta metros em cima, que deve ter uma Força equivalente a 500 mil quilotoneladas, e em vez de ficar transformado numa passa para consumir na passagem de ano, aparece na cena seguinte a passear pela praia fora… ainda com a maquilhagem egípcia perfeitamente estampada na sua carinha laroca. Tudo muito bom.
Mas já que falo do faraó mauzão, talvez seja oportuno mencionar os actores geniais com que o filme conta. Não sei quem se lembrou de ir buscar Joel Edgerton para fazer de Ramsés, mas poderiam ter explicado ao senhor que um faraó em 1300 AC não é propriamente um mafioso italiano com ar de pintas. É preciso muito talento para estar num filme ao lado do Christian Bale, e conseguir ser pior do que ele! Mais, é prodigioso haver ainda quem consiga ser pior! Como é o caso do faraó velho (Seti), magnificamente DESinterpretado por um idiota chamado John Turturro, que é o histérico ignóbil dos filmes dos Transformers (com a mania da conspiração). Se nos filmes dos Transformers ele já parece mau, imaginem-no a fazer de faraó… Lamentavelmente, temos dois monstros do cinema, Sigourney Weaver e Bin Kniglsey, cujos talentos são faraonicamente desaproveitados, pois dizem duas falas e desparecem de cena. No caso de Bem Kingsley a coisa assume proporções de estupidez bíblica, pois trata-se da personagem que revela a Moisés quem ele é na realidade… e depois disso parece não voltar a abrir a boca durante o resto do filme.
Exodus é de longe o pior filme da magistral carreira de Ridley Scott, e só não é o pior filme do ano porque felizmente existe Michael Bay. O único ponto positivo do filme é a fenomenal banda sonora de Alberto Iglesias, que está estupenda, digna de um faraó, e repleta de coros na boa tradição de Verdi. É penoso ouvir algo tão bom, tão bonito e meticuloso, desperdiçado num fracasso cinematográfico tão grandioso como a própria travessia do Mar Vermelho. Só o Interstellar de Hans Zimmer deve impedir que esta obra seja a melhor assinatura musical cinematográfica do ano. Ouçam-na, quem gosta, pois vale a pena. No que à música diz respeito, Scott não costuma cometer erros. Foi ele que foi buscar James Horner para compor a música de Alien, Vangelis para Blade Runner, Hans Zimmer para o inesquecível Gladiador, e agora Alberto Iglesias para mais esta pérola.
Não me apetece escrever mais sobre o filme, pois tudo o que disser daqui para a frente é para pior. Toda a sequência das pragas é fastidiosa e incoerente; os próprios cenários e efeitos especiais são um falhanço (um milhão de pessoas a correr pela praia, e nenhuma deixa pegadas); passam dias a fio sem os guardas do faraó conseguirem encontrar Moisés, e no entanto este entra e sai do palácio do faraó quando lhe apetece; um faraó que utiliza expressões em latim no ano 1300 AC, quando a língua ainda não tinha nascido; Moisés a expressar o seu desejo de os hebreus serem “cidadãos do Egipto”, quando o conceito de direitos de cidadania só deverá ter sido criado séculos mais tarde pelos atenienses ou pelos romanos… Enfim, no meio de tanta barbaridade não vale a pena sequer estar com preciosismos.
É para mim muito constrangedor assistir a algo tão mau, sendo eu um fã confesso do génio de Ridley Scott, o homem que em 1979 criou o fabuloso Alien, e apenas três anos mais tarde fez nascer o melhor filme de todos os tempos. No melhor pano cai a nódoa, e espero fervorosamente que rapidamente o meu ídolo recupere o estatuto que merece.

Pelo Melhor
Sem margem para dúvida, a excelente música de Alberto Iglesias. Além disso… só mesmo o facto de o a história não ter uma sequela. Espera, deixa-me estar calado não vá os mesmos gajos lembrarem-se de refazer o Bem-Hur…

Pelo Pior
Um guião tão medíocre, que nem num filme do Michael Bay seria expectável. O Faraó/Padrinho-da-Máfia. O Faraó/Gajo-idiota-dos-Transformers. Os camelos (não me refiro aos animais, mas sim aos argumentistas). A mediocridade. Tudo, absolutamente tudo após os dez minutos iniciais.

NOTA: eu costumo encerrar as minhas críticas de cinema com o trailer do respectivo filme. Mas neste caso não o vou fazer, não vá alguém cair no erro de decidir ir vê-lo. Acreditem em mim… fiquem em casa e façam um chá de limão, pois é menos aborrecido do que isto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha.



A História do meu país é um dos temas mais fascinantes que existem. Em tudo o que tem de bom, bem como naquilo que tem de mau. Mesmo naquele período de 60 anos que sucedeu à Dinastia de Avis, onde um trio de impostores denominados Filipes (escusado será dizer que jamais darei esse nome a um filho meu!) assentou arraiais (mais ou menos) nas margens olissiponenses.
É precisamente este enquadramento que serve de mote à magnífica exposição que o Museu Calouste Gulbenkian acolhe entre 22 de Outubro de 2014 e 25 de Janeiro de 2015. Como o nome da exposição indica, o espólio que a constitui veio essencialmente dos muitos palácios espanhóis, bem como de outros locais com peças associadas ao tema.
A organização da exposição encontra-se dividida em duas partes, uma evocativa do período que antecedeu a chegada dos Filipes, e a sua “presença”, e outra centrada nos séculos XVIII e XIX, mais ligada a Dona Isabel de Bragança, ao Museu do Prado, e a Goya.
A primeira parte da exposição é verdadeiramente fascinante. A sua própria disposição é feita de forma a acolher os visitantes num intimismo raro, onde somos bombardeados logo à entrada com quadros e armaduras capazes de nos fazer sentar e respirar fundo. Carlos V, Sacro Imperador Romano-Germânico, uma das figuras mais importantes da Europa medieval moderna (perdoem-me as imprecisões linguísticas), é quem nos abre as portas da galeria, ao lado do seu filho, Filipe II de Espanha. Duas armaduras absolutamente magníficas, pertencentes a ambos, estão expostas logo ao iniciar da viagem. Ao lado da armadura de Carlos V (cujos detalhes são de levar uma pessoa às lágrimas) encontra-se um quadro do próprio a envergá-la. A simbiose é um deleite para os olhos e para a alma. E depois, este escriba tem a sorte única de visitar museus na companhia de amigos que percebem de História “como gente grande”, e que fazem o favor de me rechear de detalhes, e estabelecer as ligações entre famílias, períodos, acontecimentos, e até chamar a atenção para o facto de Carlos V ser pintado com o colar da Ordem do Tosão de Ouro. Visitar museus é excelente. Visitá-los nesta companhia é um luxo!

 (Retrato de Carlos V armado, Juan Pantoja de la Cruz, 1608. Fonte: link)
A exposição vai dançando entre tapeçarias monumentais, pinturas dos palácios reais espanhóis, retratos de quem fez a História, como é o caso do nosso malfadado D. Sebastião, mobiliário, esculturas, e peças de joalharia. Há de tudo um pouco, sempre com o cuidado de enquadrar devidamente a presença de cada peça no espírito da exposição.
Para além das presenças obrigatórias para explicar os factos que levaram à dinastia filipina (amaldiçoado seja o seu nome para toda a eternidade), esta História Partilhada acolhe ainda obras únicas de artistas como Caravaggio e El Greco, sem esquecer os apaixonantes livros de cantigas. Esta viagem no tempo é avassaladora, e é das exposições mais bem construídas que visitei até hoje. O trabalho que faz para explicar, até mesmo ao mais leigo dos visitantes, as relações familiares entre Portugal e Espanha no século XVI é prodigioso. Ficamos com um retrato rico, completo, e de uma abrangência considerável. Não é apenas pintura, não é apenas escultura, não é apenas armaria. É História viva, que percorre todas as artes e nos deixa muito mais do que um vislumbre do que era há 500 anos o local que actualmente pisamos.
Quanto à segunda parte da exposição (situada noutro ponto do museu), prefiro não falar muito porque achei-a tão fraquinha quando comparada com a primeira… Entende-se o “sentido”. Mais associada à Dinastia Bourbon (de onde o actual rei de Espanha descende), não só as obras que apresenta são manifestamente desinteressantes na sua maioria, como o próprio espaço é muito pouco acolhedor. Nem a presença de uns quantos quadros de Goya parecem salvar aquele espaço.
Em suma, para quem gosta de História, para quem gosta de Arte, e para quem tem simplesmente bom gosto, esta A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha. é imperdível. Há que agradecer ao Museu Calouste Gulbenkian e ao Patrimonio Nacional por esta parceria que tão extraordinário resultado proporcionou. Recomendo vivamente a visita até 25 de Janeiro de 2015.
E, só para terminar “ao meu bom estilo” com uma farpa… Patriota que se preze visita a exposição na véspera do 1º de Dezembro! ;)