Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

“O Segredo de Afonso III”, de Maria Antonieta Costa

- Vou então começar pela minha vinda para o Paço Real de Enxobregas. Sou descendente, por via paterna, do califado dos abássidas. Quando Afonso III conquistou todo o Algarve, Aloandro Bem Bekar, que governava o Castelo de Faro e de quem sou filha, submeteu-se ao seu poder e, para provar que estava de boa-fé, ofereceu-me ao rei, que me trouxe para a Corte. Contava quinze anos quando isso aconteceu e fiquei privada dos mimos da minha mãe, que nunca mais vi.



Na última década o género da ficção histórica ganhou uma expressividade que não pode ser menosprezada. É uma fórmula de sucesso, pois brinca com o nosso imaginário, e leva-nos a olhar para as nossas referências históricas e pensar nos vários “ses”.

Intelectual brilhante como sou, já li diversos livros do género, e quando deparei numa livraria com uma obra de uma autora Portuguesa, a ficcionar em redor de um mistério na corte do quinto Rei da minha Pátria, pensei “porque não”?

O Segredo de Afonso III é talvez o livro mais difícil sobre o qual opinar que já me passou pelas mãos. Adoro-o ao mesmo tempo que o detesto. Vamos lá por partes… A história passa-se em dois momentos: Lisboa, ano 1279, e Roma, na actualidade. Ou seja, as duas cidades mais importantes da História da Humanidade. A arquitectura do livro está organizada de forma a os capítulos irem alternando entre si, e portanto decorrendo em simultâneo nas duas épocas. A fórmula é bem conseguida, e Maria Antonieta Costa consegue fazer uma coisa extraordinária que é “escrever de forma diferente em cada uma das épocas”. É difícil explicar isto aqui, mas digamos que a escolha de palavras e a narração na primeira pessoa vs narração na terceira pessoa é uma forma muito inteligente de permitir distinguir na perfeição o momento em que estamos em cada capítulo. E é aqui que começa a controvérsia, porque parece que o livro foi escrito não por uma, mas por duas pessoas diferentes. Toda a narrativa que decorre no século XIII é brilhante, numa escrita estupenda, com a utilização de vocabulário muito cuidado e apropriado (a autora é formada em História e Cultura Medieval), com frases em latim, e uma quantidade considerável de designações adequadas à época. Por oposição, toda a narrativa que decorre na actualidade é um desastre absoluto, com personagens sem qualquer interesse, cheias de clichés, e – devo acrescentar – de uma mediocridade confrangedora.

Este livro é também uma tentativa de escrever o “Código Da Vinci” Português, pois está envolto em mistérios e enigmas históricos que nos dias actuais vão sendo desvendados pelas personagens nossas contemporâneas. Mas a autora, que se nota estar perfeitamente à vontade na parte que diz respeito à História, é de fugir a sete pés no que concerne ao “romance moderno”. São capítulos inteiros dignos de uma Margarida Rebelo Pinto. Para os mais distraídos, acabei de ofender a autora até à quadragésima geração… A pimbalhice pseudo-romântica que polui toda a acção que se desenrola em Roma é de cortar os pulsos com uma colher de pau romba!

A personagem central é Eunice Bacelar, uma historiadora que decide pesquisar nos arquivos do Vaticano para escrever uma obra sobre o nepotismo dentro da Igreja Católica. É nesse processo que descobre um pergaminho que conta a história de Madragana, uma barregã moura de D. Afonso III. Ora, como 99% dos meus caros amigos que estão a ler isto não fazem a mais pequena ideia do que significa barregã, tal como eu não fazia, desatem todos a correr até ao dicionário mais próximo. Se este livro não tiver servido para mais nada, ao menos já me ensinou uma palavra nova para insultar de forma intelectual as pessoazinhas que me chateiam.

O livro oscila entre momentos de grande inspiração, em particular com um enfoque muito grande na parte da alquimia, e que me levou durante muitos capítulos a pensar que ia sair daqui uma coisa diferente e interessante, e momentos de pasmaceira total e absoluta, caindo no ridículo das conspirações clichés e de um absurdo tão grande que as histórias do Tom & Jerry parecem mais verosímeis.

Quanto ao cerne do livro, o tal “segredo do Rei”, é uma desilusão tremenda, perfeitamente banal, e meramente fruto do mediatismo cor-de-rosa contemporâneo. Não vou “revelar” qual o segredo, por respeito a quem eventualmente o ler, mas qualquer pessoa com um QI minimamente aceitável já deve ter ficado com uma boa ideia do que se trata.

E é isto a bipolaridade que me provocou a leitura do livro. Por um lado os rasgos de espectacularidade em redor do ambiente medieval, perfeitamente caracterizado, interessante, exaustivo, e sedutor, por outro lado a total banalidade sem qualquer interesse que tenta encostar a história moderna a um Dan-Brown-meets-Margarita-Rebelo-Littlechicken-and-fails-utterly. O meu conselho: quem pegar no livro arranque todos os capítulos passados na “actualidade” e leia a parte baseada na História.

Sendo um primeiro romance da autora, é de elogiar um bom trabalho na parte “ficção histórica”, e estou certo que se ela escrever mais livros focados unicamente neste aspecto terá em mim um fiel leitor. Se optar pela veia Margarítica, usarei os meus dotes alquímicos para lhe despejar H2SO4 pela garganta abaixo.

Como nota final, é de referir que a autora colocou no final do livro um quadro onde faz o contraste entre o que é “baseado em factos reais” e o que resulta da imaginação da autora. É uma forma interessante de acabar o livro, na minha opinião.

Para terminar, e para “something completely different”, depois de ler o livro fiquei com curiosidade de pesquisar um pouco mais por El-Rei “O Bolonhês” (ainda se lembram das aulas da 4ª classe?). Descobri algo fascinante graças à Wikipedia. A Biblioteca Nacional de Portugal disponibiliza versões digitais no seu site de alguns documentos históricos. Foi aí que descobri a “Chronica do muito alto e muito esclarecido principe D. Afonso III, quinto rey de Portugal” da autoria de Rui de Pina. Trata-se de um documento do século XV, copiado no século XVIII nesta versão disponibilizada online. Pode para muitos parecer algo sem grande interesse, mas para um apaixonado por História, isto é algo de me levar às lágrimas. Obrigado Biblioteca Nacional de Portugal.




Segundo a lenda cristã, os segredos da natureza tinham sido divulgados por anjos que se haviam apaixonado por mulheres terrenas. Estas terão sido as primeiras feiticeiras e bruxas, com longos cabelos soltos e em desordem, assim como Medeia ou como Canídia que, ainda por cima, os adornava com pequenas serpentes. A alquimia era, antes de mais, apresentada como um sistema de autotransformação em que a transmutação ocorria livre na natureza, intrigando os pesquisadores.


O Segredo de Afonso III, Maria Antonieta Costa, Clube do Autor, 2011

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

“Lankhmar”, de Fritz Leiber

The seven glows faded altogether. So faintly the two men could barely hear it – yet hear it each did – the fluty voice inquired. “Are you afraid?” Then they heard a grating of rock, a very faint sound, yet somehow ponderous.

So ended the first encounter of Fafhrd and his comrade with Ningauble of the Seven Eyes.



Não é segredo para ninguém que O Magnífico é um grande apreciador de literatura de fantasia. Apesar de nos dias que correm ser um dos estilos mais prolíferos que as editoras levam ao mercado, não menos verdade é que grande parte da boa literatura de fantasia já foi escrita há muito, e que actualmente são lançados todos os dias nas livrarias clones mal sucedidos de Tolkien e companhia.

Fritz Leiber e a sua série “Lankhmar” são pouco conhecidos fora do circuito mais elitista dos aficionados de fantasia. Leiber criou duas personagens que dão pelo nome de Fafhrd e Gray Mouser. Enquanto o primeiro é um bárbaro Nortenho, o segundo é um ladrão cosmopolita. Tornam-se inseparáveis nas suas aventuras depois de se conhecerem na mítica cidade de Lankhmar, a mais esplendorosa do mundo. Ao contrário do que acontece na maioria da literatura fantástica, Fafhrd e Gray Mouser não têm como missão “partir numa demanda épica para salvar o mundo dos Senhores das Trevas”. Pelo contrário. São dois ladrões a quem apenas interessa chegar ao fim do dia com o saque necessário para pagar umas canecas de cerveja numa das tabernas da cidade. E a vida de ambos é repleta de aventuras, todas elas exóticas e muito imaginativas.

A série Lankhmar é composta por vários títulos, constituídos na sua maioria por histórias curtas, que geralmente não estão interligadas. A escrita de Leiber é fluida e bastante cuidada, chegando por vezes a ter um toque de inspiração quasi-Shakespeareana, mas não é uma leitura fácil, em especial quando o autor obriga os leitores a estarem atentos à acção, que pode mudar de uma linha para a outra sem qualquer aviso prévio. Num parágrafo Fafhrd e Gray Mouser podem estar a decidir ir investigar uma torre no meio de uma floresta, e no parágrafo seguinte já estão de regresso.

O que torna as duas personagens interessantes é a sua fragilidade. A maioria das histórias envolve ter os dois a fugir desesperadamente de inimigos consideravelmente mais fortes e numerosos, levando-os muitas vezes a terem que se esconder para evitar levar uma surra ainda maior. Existe uma grande semelhança entre esta série e o “Conan” de Robert E. Howard. Estas duas obras foram o que criou o sub-estilo “Swords & Sorcery”.

Para quem gosta de aventuras simples, descomprometidas, originais e repletas de detalhes deliciosos, a série Lankhmar é uma aposta segura.



And then Fafhrd’s words froze in his throat. His final argument, which had to do with his own release, remained unspoken. For, suspended in the air immediately in front of the black draperies of the alcove, was the skull of Ohmphal, its jeweled eyes glittering with light that was more than reflection. The eyes of the thieves followed those of Fafhrd, and the air whistled with intaken breaths of fear, fear so intense that it momentarily precluded panic. A fear such as they felt toward their living master, but magnified many times.

And then a high wailing voice spoke from the skull, “Move not, oh you craven thieves of today! Tremble and be silent. It is your ancient master who speaks. Behold, I am Ohmphal!”



Lankhmar, Fritz Leiber, Orion Publishing, 2008

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

“Kanikosen – O Navio dos Homens”, de Takiji Kobayashi


O patrão estava furioso. Ia e vinha sem parar do compartimento dos pescadores enquanto eles o seguiam em silêncio, os olhos cheios de ódio como se o fossem matar.
No dia seguinte, decidiu-se que o barco iria prosseguir na sua rota, em parte para apanhar mais caranguejos e em parte para procurar os botes desaparecidos. «Perder cinco ou seis homens não tem qualquer importância, mas seria uma pena perder os botes.»

Há livros que provavelmente nunca leriamos na vida se não nos fossem oferecidos. É bem provável que isso me acontecesse com “Kanikosen – O Navio dos Homens”. Acrescento que tal seria uma pena.
A história narrada no livro é bastante simples e interessante, mas muito mais importante é a História (assim mesmo, com “h” grande) do próprio livro. Kanikosen foi escrito na clandestinidade no Japão em 1929 (dez anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, que alterou por completo o rumo do país.
Mas comecemos pela história que o livro conta. É bastante pequena e foca-se num grupo de homens que trabalha num barco-fábrica de pesca de caranguejo em alto mar. O que chama a atenção no livro é perceber as condições desumanas em que os homens trabalham. Isto não se trata de mera ficção. Nos dias de hoje poucos de nós conseguiremos percepcionar o que foram os abusos sofridos pelos trabalhadores no início do século XX. Os operários do navio passam frio, trabalham horas a fio, dias seguidos, em alto mar, padecem de doenças, e são espancados brutalmente pelo patrão quando este acha que eles estão a “mandriar”. A curta história desenrola-se calmamente, atentando nos desejos dos homens, na saudade das famílias, e na tortura que é viver aquela situação. “- Vamos até ao Inferno.”, é a frase que abre o livro. Doentes, cansados, famintos, assim passam até ao momento em que compreendem que é chegada a hora de lutar pelos seus direitos. Não será necessário ser grande entendido em História para ter a noção do efeito que esta “propaganda vermelha” teve num país fechado como o Japão imperial do início do século XX.
Passemos então à História do livro. O seu autor, Takiji Kobayashi, tinha 26 anos quando o escreveu. Desde então, foi alvo de perseguições e discriminação, até que em 1933 foi capturado pela Polícia Secreta, espancado brutalmente, e acabando por morrer. Tinha 30 anos.
É difícil nos dias de hoje ter sensibilidade suficiente para perceber o quanto algumas pessoas sacrificaram para lutar pelos direitos de dignidade mínima, e para combater as injustiças sociais. Felizmente o século XX fez-nos avançar muito.
Mas eis-nos chegados ao século XXI, quando as condições laborais começam a dar sinais fortes de degradação, quando algumas pessoas sentem que são exploradas para que alguns patrões (como os do livro) enriqueçam. O livro, passados 80 anos da sua publicação, torna a conquistar um lugar central na atenção de vários públicos, tornando-se um bestseller inesperado em vários países. Ajuda-nos a perceber algo que muitas vezes esquecemos: certas coisas na vida são cíclicas, e convém estarmos atentos ao mundo que nos rodeia para não cometermos os mesmos erros.
A título de curiosidade, o nome do navio onde decorre a história é Hakko Maru. Se juntarmos a isto parte do nome do autor, obtemos “Kobayashi Maru”, algo que não será estranho aos fãs de Star Trek. Coincidência? Não creio. O Kobayashi Maru era o teste que a Starfleet impunha aos seus cadetes e que era impossível de vencer, uma “no win situation”, as o qual o Capitão Kirk conseguiu ultrapassar de forma inesperada.
A escrita de Kanikosen é pesada, violenta, e pouco aconselhada a leitores mais convencionais (tias de Cascais, e leitores assíduos de Paula Bobone e companhia). Propaganda Comuna chamar-lhe-ão alguns; Oportunismo Mediático dirão outros. Quanto ao Grande Crítico Literário THE PSY, este limitar-se-á a citar algo que estamos fartos de ouvir nos filmes: History repeats itself.

Cada carril de cada via-férrea de Hokkaido correspondia, literalmente, ao cadáver de um jornaleiro. E os blocos de betão armado para construir os portos eram os corpos dos operários enterrados em vida, como «colunas humanas». Aqueles trabalhadores de Hokkaido eram conhecidos como «polvos». O polvo, para sobreviver, come os próprios tentáculos. Eram exactamente isso! Assim surgiu essa classe de exploração primitiva que não temia nada. Os patrões recolhiam benefícios às pazadas. E racionalizaram-nos habilmente, associando-os a frases como «desenvolvimento da riqueza nacional». Os capitalistas eram muito astuciosos. Os trabalhadores morriam à fome, ou eram espancados até à morte «em nome da nação».

O Navio dos Homens, Takiji Kobayashi, Clube do Autor, 2010

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

2011: O Balanço


Chegando o final do ano chega também aquela altura em que toda a gente decide fazer um balanço do ano. Portanto, aqui vai...

Sendo que 2011 foi o ano em que THE PSY inaugurou este blogue, e com isso passou a partilhar a sua suprema sabedoria com o resto da Humanidade, é justo que se comece este balanço pelo blogue. Bom, e o quão surpreendentes são algumas das revelações! Senão vejamos: entre 9 de Maio e 20 de Dezembro o “Gnosei Seauton” teve 857 visitas, o que significa que há muita gente a pagar cinquenta euros de Net por mês e que depois perde o seu precioso tempo a ler as baboseiras que eu para aqui escrevo. Não há-de o mundo estar condenado...
Mas nessas 857 visitas escondem-se alguns dados muito curiosos. Seria expectável que, tratando-se de um blogue Português, o maior volume de visitantes viesse de Portugal. Ou, dado que o Brasil é o país que reúne o maior número de falantes da bela língua de Camões, fosse aí a origem do maior fluxo. Mas não. Nem Portugal, nem Brasil, nem qualquer país da lusofonia. O maior número de clientes de THE PSY vem... da Holanda! Sim, confesso-me tão abismado como vós, tanto para mais que nunca aqui falei de qualquer coisa remotamente ligada ao simpático país alaranjado. Mas como nós Portugueses somos conhecidos enquanto calorosos anfitriões, permitam-me então dirigir-me aos simpáticos visitantes dos Países Baixos para lhes dizer: “Welkom Nederlandse vrienden! Vergeet niet om onze wijn proeven!” Que é como quem diz “Bem-vindos amigos Holandeses! Não se esqueçam de provar o nosso vinho!”, ou pelo menos é isso que o Google Translator me garante a pés juntos...
Continuando, outro dado interessante tem a ver com a popularidade dos artigos aqui colocados. Deixo aqui um print screen onde se pode ver o Top 5.
 


Não me surpreendem os 3 primeiros, dado que foram dedicados a algumas das pessoas que têm o distinto prazer de usufruir da minha companhia. Já, por outro lado, revelo que é uma agradável surpresa constatar que os artigos referentes ao Hans Zimmer e a um dos livros de culto do maior escritor de ficção-científica estão entre os mais vistos. Mas enfim, não deveria ficar assim tão espantado, pois obviamente todas as pessoas que seguem o que THE PSY escreve têm uma formação cultural muitíssimo acima do resto da Humanidade, para além de serem mais inteligentes, e incrivelmente mais bonitas.
Ora, por oposição, os artigos que menos popularidade tiveram ao longo do ano, foram:
- X-Men: First Class (crítica)
- Super 8 (crítica)
- Contágio (crítica)
Humm... três críticas de cinema... três artigos menos vistos no ano. Mensagem recebida! Para 2012: menos cinema, mais do resto. Espero que os amigos Holandeses estejam de acordo...
E para encerrar este “balanço ao blogue” resta investigar quais foram os termos pesquisados no Google que trouxeram os pobres e incautos internautas a este antro.
 


Se por um lado acho piada ver que houve malta que veio aqui parar à procura de “painéis fotovoltaicos na Croácia”, por outro lado fico perplexo ao constatar que o Google sugira a alguém que pesquisa “BADALHOCAS” que venha ter a este blogue. Mas tudo bem, eu sou um democrata, e se os meus fiéis súbditos querem badalhocas fica desde já o meu compromisso de logo no início de 2012 fazer um post inteiramente dedicado a esse tema!
Palavra de THE PSY!

Passando então este balanço do ano 2011 para outros campos...

2011: Uma Música

 


2011: Um Filme
Ora, este até foi talvez o ano em que mais vezes fui ao cinema (tanto dinheirinho mal gasto...), e como tal é sem qualquer dúvida que, na minha opinião, o melhor filme do ano é...
Ooops! É verdade, quase me esquecia, não querem ouvir-me falar de cinema! Ok, ok, já não digo mais nada!

2011: Um Livro
Este foi um ano em que li consideravelmente menos do que gostaria de ter feito, mas para compensar tive a fortuna de ler algumas coisas inesquecíveis. “A Obra” é sem sombra de dúvida A Catedral do Mar, o livro que serviu de mote para a abertura deste blogue. É um livro ímpar, monumental, apaixonante, e de uma dimensão rara (e não me refiro às mais de 800 páginas). Como não me deixaram falar de cinema, vou ser generoso e referir mais dois livros: uma biografia de Churchill (figura aliciante) e Fight Club - sim, esse mesmo, o do filme - que tem uma narrativa intensa, quase psicadélica, demasiado gráfica e que sufoca o leitor na anarquia literária.

2011: Um Acontecimento
A chegada a este Paneta Azul da minha discípula Jedi. Se já de si é bom ver dois dos nossos mais preciosos amigos “juntarem os trapinhos”, vê-los trazer a este mundo a coisa mais linda da galáxia - e que é de tal forma poderosa no uso dos seus poderes Jedi que consegue colocar um badass como THE PSY a rebolar no chão e a fazer caretas - não há palavras suficientes no léxico PSYANO para descrever o quão extraordinário isso é.

2011: Um Momento
Um fim-de-semana estupendo em Vila Nova de Milfontes, rodeado de gelados e croissants que deviam ser legalmente proibidos por serem demasiado bons, e com direito a “campismo de faca e alguidar”. Aaaaah, como é bom acordar ao som dos passarinhos, e logo pela manhã ter este diálogo:
(JP) “Olha lá, não ouviste barulho durante a noite? Aí uma granda confusão...”
(THE PSY) “Epá, ouvi qualquer coisa, sim. Um atrasado mental qualquer aí aos berros, e vidros partidos... Uma granda telenovela mexicana!”
E de seguida olho para o lado e vejo um miudinho de 10 anos a olhar para mim e a dizer: “O meu Pai esta noite andou aí à porrada com uns gajos.” A minha divina cabeça roda cinco centímetros para a esquerda e eis que tenho a dois metros de distância o Pai do miudinho com a mão ensanguentada e enrolada em ligaduras. THE PSY coloca o seu mais aprazível sorriso e diz: “Ah... Hehe... Olá!... Hummm... Bom dia?”

2011: O Momento Mr. Bean do Ano
Final de Novembro. São cerca de 19h30 e THE PSY regressa de uma reunião distante do local de trabalho. Desejoso de chegar a casa para tomar banho e jantar, THE PSY pára nas portagens à saída da autoestrada para colocar o talão e proceder ao pagamento. A simpática maquinazinha decide cuspir o talão e dizer “título incorrecto”. THE PSY fica incédulo a olhar para o talão a ser levado pelo vento. À frente tenho a cancela da portagem. Atrás tenho uma fila carros. A cabine é destas recentes que não tem portajeiro. E como estou para pagar, encostei o carro à cabine da portagem, mal tendo espaço para abrir a porta. THE PSY abre a porta menos de um palmo, encolhendo-se todo e arrastando-se ao longo do bólide, berrando uma “certa e determinada quantidade de impropérios que não podem ser reproduzidos neste espaço familiar”, e assim dou por mim, ao início da noite, feito Mr. Bean, no meio da autoestrada à procura do talão.
Espero que as câmaras de filmar da Brisa não captem som, caso contrário ainda corro o risco de receber em casa uma multa por “conduta imprópria em espaço público”...

2011: Um Comentário Político
 





E para terminar, agora que já parodiei tudo o que havia a parodiar, fechemos o “Gnosei Seauton 2011” com um pensamento sério para o próximo ano. A “centenária caravela Portuguesa” está a navegar por águas muito difíceis. Não é, nem nunca será, minha intenção procurar aqui culpados e apontar o dedo aos políticos, ao Rato Mickey ou ao Pinto da Costa.
No programa “Olhos nos Olhos”, há umas semanas o Medina Carreira avançou uns números que não mais me saíram da cabeça: 18% dos Portugueses vivem em situação de pobreza, e se não fossem os apoios sociais este número subia para 42%. Estamos a falar de quatro milhões de pessoas. Há sítios no nosso país onde as únicas refeições que as crianças fazem durante o dia são aquelas que recebem na escola, muitas vezes suportadas pelas autarquias. Da Grécia chegam-nos notícias de crianças que desmaiam nas aulas por causa da fome.
Não tenho grande vocação para moralista, mas creio que temos a obrigação de tentar fazer algo para ajudar quem está a passar por isto, e na grande maioria dos casos não tendo culpa nenhuma. Assim, quem puder, que adopte como “resolução de Ano Novo” ajudar quem está no limite. Muitas vezes nem é de dinheiro que as instituições de apoio social necessitam. Contactem-nas e vejam como podemos colaborar. Informem-se nas juntas de freguesia, ou nas misericórdias, nas paróquias, ou até mesmo na Internet.
Se conseguirmos fazer isto, seremos de facto o nobre povo da nação valente e imortal.

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

“Dragonlance Chronicles”


“What do I see?” he repeated softly. There was great pain and sadness in his voice, not the bitterness she was accustomed to hearing. “I see time as it affects all things. Human flesh withers and dies before my eyes. Flowers bloom, only to fade. Trees drop green leaves, never to regain them. In my sight, it is always winter, always night.”
“And – this was done to you in the Towers of High Sorcery?” Laurana asked, shocked beyond measure. “Why? To what end?”
Raistlin smiled his rare and twisted smile. “To remind me of my own mortality. To teach me compassion.”

A literatura de fantasia pode dividir-se em duas categorias. A fantasia ligeira, onde os elementos fantásticos são um aspecto menor no ambiente, como é por exemplo o caso da história do Rei Artur que engloba o mago Merlin, e a alta fantasia, onde a magia e o fantástico são o elemento dominante. E depois há “Dragonlance”.
Dragonlance é a fantasia levada ao extremo absoluto, com dragões gigantes a digladiarem-se com cavaleiros armados montados nos seus dorsos, cidadelas voadoras, magos com o poder de controlar o Tempo, e deuses que caminham ao lado dos mortais.
 Não se trata apenas de um livro, ou de uma saga de livros. Dragonlance foi criado por Margaret Weis e Tracy Hickman nos anos 80 para integrar o jogo de fantasia mais famoso de sempre, Dungeons & Dragons. Desde então foram escritas dezenas de livros, e outros tantos suplementos de jogos (essencialmente de role-play). Mas concentremo-nos na obra. Dragonlance é o género de fantasia épica, onde as forças do Bem e do Mal se entrechocam para decidir os destinos do Universo, blablabla já vimos isto setecentas vezes. Só que ao contrário das outras obras épicas, aqui não temos os grandes e poderosos heróis a defrontar os senhores das trevas. Aqui não há um Obi-Wan Kenobi e um Yoda a lutarem contra um Darth Vader. Longe disso. As personagens de Dragonlance são os estereótipos mais distantes daquilo que consideramos heróis de fantasia.
Tanis é um half-elf, fruto do cruzamento de um humano com uma elfa, envergonhado pela sua origem “mestiça”, que é visto como o líder do grupo, embora não se considere tal, pois é apenas um simples arqueiro, com o coração dividido entre duas mulheres. É hesitante, inseguro, está longe de ser um grande guerreiro, e sente-se constrangido com as responsabilidades que lhe são colocadas em cima, sem ele pedir.
Flint Fireforge é o melhor amigo de Tanis. Um anão já muito velho, veterano de várias guerras, que passa o tempo todo a rezingar e a amaldiçoar tudo o que se mexe, e que cada vez que entra num barco fica lívido, convencido que é afligido por uma doença mortal.
Tasslehoff Burrfoot é um kender. Não é fácil explicar o que é um kender. Trata-se de uma “pessoa pequenina” que é extremamente curiosa, irresponsável, e que não tem consciência do que é sentir medo. A semelhança com a palavra alemã “kinder”, que significa criança, não deve ser por acaso. Os kenders são o tipo de criaturas que, perante uma avalanche, enquanto toda a gente foge, eles correm alegremente na direcção dela para ver o quão excitante deve ser senti-la de perto. Junte-se a isto o facto de os kenders acharem que o mundo é uma enorme comunidade que partilha todos os bens, que inadvertidamente conseguem sempre inexplicavelmente vir parar aos seus bolsos, e temos a receita para o desastre.
Sturm Brightblade é um cavaleiro frustrado. Age como um Cavaleiro da Ordem de Solamnia, mas na realidade não o é. O Código e a Honra são o mais importante na sua vida.
Laurana é uma jovem princesa élfica, que contrariou a sua linhagem nobre e fugiu em busca do seu grande amor, Tanis, apenas para o encontrar apaixonado por outra mulher, e descobrir que o mundo fora dos palácios dos elfos é algo bastante menos idílico do que esperava.
E por fim temos os gémeos, se bem que de gémeos só têm o nome.
Caramon é um gigante musculado, com a força de cinco homens, mas de compreensão lenta, e que vive quase exclusivamente com a preocupação de proteger o irmão, que o trata com desprezo, pois é um egoísta ganancioso.
Raistlin é um mago com olhos em forma de ampulheta e saúde débil, que passa grande parte do tempo a tomar poções para curar os seus violentos ataques de tosse. A saúde foi o preço que pagou para dominar as artes mágicas. O que poucos sabem é que Raistlin é o feiticeiro mais poderoso do mundo.
E são estas santas alminhas (com mais uma série de personagens secundárias que fazem Dragonlance ter um elenco do tamanho de uma telenovela) que um dia dão por si num mundo onde o desaparecimento de duas constelações anuncia a chegada dos exércitos de Tiamat, a Deusa-Dragão-de-Cinco-Cabeças, e dos seus cavaleiros que comandam legiões de homens-dragão e cidadelas voadoras. Até aqui nada de novo. O interesse de Dragonlance reside no percurso único que os “companheiros” vão fazendo, enquanto tentam travar o avanço das forças de Tiamat. Entenda-se que a maior parte do tempo esse percurso envolve eles estarem a fugir a sete pés, no meio de tareias colossais que apanham, enquanto o mundo desaba ao seu redor. Obviamente, quanto mais episódios destes acontecem, mais o kender Tasslehoff se sente excitado. Esta é uma história de amizade e sacrifício que tenta mostrar que mesmo perdendo a maioria das batalhas é possível ganhar a guerra.
As relações entre as personagens são muito bem trabalhadas, com inúmeros momentos de ruptura e conflito, ao contrário de grande parte das obras onde os heróis são sempre amigos e estão quase sempre de acordo e de mãos dadas.
Este mundo ficcional arrancou com a trilogia “Chronicles”, composta pelos livros Dragons of Autumn Twilight, Dragons of Winter Night e Dragons of Spring Dawning. Actualmente o “universo Dragonlance” conta com quase 200 livros, escritos quase ininterruptamente por dezenas de autores ao longo de mais de um quarto de século. Um volume tão considerável de obras só é possível pela ligação que existe ao jogo Dungeons & Dragons. Apesar de estar longe de ser a qualidade literária de Tolkien a popularidade da obra é enorme, e a qualidade em nada desilude. E digo-o convictamente, agora que leio pela segunda vez estes livros. Os cenários de fantasia que as personagens percorrem ao longo das suas aventuras são memoráveis, variados, cheios de criatividade e intimistas.
Dragonlance não é aconselhado a pessoas que se levam demasiado a sério. Caso contrário, poderão ter um ataque cardíaco ao tomar contacto com os gully dwarves, como Bupu, a curandeira que tem um lagarto morto ressequido que faz magia poderosa, ou os gnomos engenhosos que habitam o Monte Nevermind. Vemos algumas das personagens terem um fim dramático, e deixamo-nos facilmente transportar para este mundo de sonhos, onde não nos importaríamos de vestir uma armadura, agarrar numa lança, montar um dragão, e voar em direcção ao crepúsculo…

Raistlin coughed. “Your brains are in your sword-arm, my brother,” the mage whispered caustically. “Look upon Tarsis, legendary seaport city. What do you see?”
“Well…“ Caramon squinted. It’s one of the biggest cities I’ve seen. And there are ships –just like we heard–“
“The white-winged ships of Tarsis the Beautiful,“ Raistlin quoted bitterly. “You look upon the ships, my brother. Do you notice anything peculiar about them?”
“They’re not in very good shape. The sails are ragged and – “ Caramon blinked. Then he gasped. “There’s no water!”

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

The Walking Dead


“Uma série de zombies? Que ideia tão parva! Até a mim que sou fã de filmes de terror – e em particular de filmes de zombies – tenho sérias dúvidas que isso convença! Vá lá, alguma vez uma série de zombies consegue prender um gajo à televisão semana após semana? Nunca na vida…”
Isto era mais ou menos eu a pensar algures no início do ano quando foi anunciada “The Walking Dead”. E é apenas isso: uma série de zombies. Um filme de zombies, quer os de terror, quer os de comédia, consegue captar o interesse do espectador porque são apenas duas horas de mortos-vivos a comer miolos. E isso é giro! Mas para uma série conseguir fidelizar uma audiência precisa que ter argumentos fortes para fazer os espectadores manterem o interesse semana após semana. E é precisamente isso que este “The Walking Dead” consegue fazer. Fosse apenas uma série de “gore”, com imagens chocantes, e ao fim de três episódios qualquer pessoa desistia. Mas quem pegou na série mostrou ser capaz de fazer um trabalho magistral.
A história é simples. Um grupo de pessoas tenta sobreviver num mundo onde uma invasão de zombies destruiu tudo aquilo que temos como garantido. Até aqui nada de novo, e daqui para a frente pouco mais há a contar. Mas o diabo está nos pormenores. O detalhe com que cada uma das personagens é desenvolvida é enternecedor. Haverá espaço para num mundo pós-apocalíptico pensar o dia-a-dia sem abdicar da nossa Humanidade? Provavelmente não. Mas então como é que se vive esse ambiente? Valerá a pena lutar? Ter filhos? Até que ponto os instintos se conseguem sobrepor á razão? Quando é que baixamos os braços?
A primeira série teve apenas seis episódios, mas o sucesso foi de tal ordem que a AMC imediatamente concessionou a produção de uma segunda temporada. Esta já com 12 episódios. Apesar de a série ser baseada numa banda desenhada com alguns anos, não deve ser tarefa fácil manter a cabeça fresca para escrever um episódio todas as semanas que consiga fazer a história avançar, manter o “medo” presente, e ainda permitir que as personagens nos surpreendam, e não sejam apenas estereótipos influenciados pelos ditames Hollywoodescos.
Nesta segunda temporada foram introduzidas novas personagens, e uma alternativa ao cenário pós-apocalíptico. Já ouvi referências que indicam que tanto tempo passado na quinta se deve ao facto de a produção ter levado um corte monumental no orçamento. Mas não é por isso que esta temporada é inferior à primeira. Apesar de ter alguns momentos mortos (pun intended), tem episódios geniais. Tal é o caso do sétimo episódio (“Pretty Much Dead Already”), onde é mostrado na perfeição o quão tentador pode ser recorrer à força (ou ao poder) para fazer valer as nossas ideias por oposição às dos outros. E será isso condenável quando em caso está a sobrevivência? Mas então, não haverá espaço para qualquer discussão de base moral... Isto já para não falar no absoluto sufoco que são os cinco minutos finais do episódio.
Como se todos estes argumentos não fizessem dela “a série” de 2011 (ok, ok, “Game of Thrones” pode ser um candidato mais forte), conta ainda com um génio (que não eu) na composição dos temas musicais: Bear McCreary. Ainda é pouco conhecido porque tem trabalhado essencialmente em série, e menos no cinema, mas basta ouvir, por exemplo, este “The Mercy of the Living” para se perceber a qualidade deste senhor. Já agora, este tema ilustra na perfeição o que é o ambiente de “The Walking Dead”.

A Humanidade pode agradecer a homens como este e Hans Zimmer o facto de ainda se criar música digna, por oposição a 90% do que tem a “chancela MTV”…
Caso ainda reste alguém que duvide da qualidade desta série (e isso implicará que essa pessoa não acredita piamente nas minhas palavras, e como tal restam-lhe menos de 17 segundos sem ter as pernas quebradas), acrescente-se que o responsável pela mesma é o realizador do filme “Os Condenados de Shawshank”, um dos melhores filmes da História, e que ocupa o primeiro lugar da votação no IMDB.
Espero que a série dure o tempo ideal, sem se arrastar por inúmeras temporadas até que perca a qualidade, ou ser abruptamente cancelada porque os produtores decidem que é melhor financiar mais um reality show (a menos que esse reality show envolva zombies genuínos a devorar os filhos pródigos da chancela MTV).
Escrevo no preciso momento em que a série foi colocada em “stand-by” por decisão da produção, que anunciou que os restantes episódios só serão exibidos a partir de Fevereiro de 2012… Os sentimentos “simpáticos” que nutro neste momento por quem tomou esta decisão só podem ser transpostos por escrita de uma forma: !$%(&”(%/”#!&”$#(@!!!!!! E que as pernas deles sejam comidas por zombies sem dentes…
A única coisa que pode tornar “The Walking Dead” ainda melhor é esperar que nas próximas temporadas apareça este zombie: